Natural de Itaúna, no Centro-Oeste do estado, a atriz Laura Lufési, 26 anos, celebra as conquistas do filme antes mesmo da chegada ao Oscar - desde o lançamento no Festival de Cannes, em maio de 2025, a obra de Kleber Mendonça Filho já acumulava mais de 60 prêmios até o fechamento desta edição, entre eles dois Globos de Ouro. “A gente já alcançou feitos históricos, então tudo que vier a partir de agora é lucro”, crava. “Mas é claro que a gente torce muito para conquistar as estatuetas”, pondera, assinalando ainda que estar nesse lugar de destaque é sinal também de justiça com o cinema brasileiro: “É muito justo que esse filme esteja ali entre os melhores do ano para a indústria.”
. “É claro que eu topei e enviei uma selftape (teste gravado pelo próprio ator em vídeo). Depois de alguns meses, ele me procurou novamente. Falou que tinham gostado e queriam fazer um callback (segunda fase do teste), presencial, com o Kléber, a Emilie (Lesclaux, produtora do filme e esposa do diretor) e o Leonardo (Lacca, diretor assistente e preparador de elenco). Deu certo”, relembra a atriz.
. A experiência, relata, ultrapassou em muito o campo profissional. “A equipe do filme é maravilhosa. Fiz grandes amizades, não só com o elenco, mas também com o pessoal da técnica. Digo, hoje, que construí realmente uma família de amigos”, garante. Contracenar com Wagner Moura, ela conta, foi marcante. “Depois de gravar a cena com ele, já no finalzinho, contei que eu estava me contendo, porque estava muito emocionada. E ele foi muito querido, muito fofo! Me deu um abraço, o que tornou aquele momento ainda mais especial”, recorda.
. Agora, a trajetória do filme nas premiações tem servido de pretexto para o elenco continuar trocando afetos. “Obviamente, nós seguimos sempre conversando. Tanto após o Globo de Ouro quanto depois das indicações do Oscar, a gente se reuniu para comemorar”, comenta, frisando que, para ela, a própria presença do longa no Oscar já representa um marco.
. Veterano do teatro e do cinema, ele acompanhou de perto a recepção do filme em festivais e sessões especiais, como na Mostra de Tiradentes, onde foi exibido no dia 31 de janeiro, atraindo uma multidão de espectadores. Muitos para assistir ao longa pela segunda vez – o que não passou despercebido pelo ator. “Eu acho que, sei lá, 50% está assistindo pela primeira vez e outros 50% estão reincidindo”, opinou.
. A recepção calorosa, com direito a bis, é celebrada pelo ator como uma grande conquista. Mas, ainda que julgue o sucesso no Brasil tão ou mais importante que as premiações internacionais e que sustente que a produção já fez história pelo volume de indicações, ele reconhece estar, sim, cheio de expectativa pela cerimônia do Oscar. “Estou animado e confiante, porque, afinal de contas, o filme vem de uma trajetória vitoriosa, né? Começou no Festival de Cannes e não parou mais. Foi quicando em tudo que é festival e ganhando prêmio”, celebra.
. Ele, no entanto, não sabe ainda se vai acompanhar a comitiva brasileira na cerimônia. O motivo, conta, é nobre: ocorre que, enquanto “O Agente Secreto” ganha o mundo, sua carreira segue em movimento. “Há fatores a se levar em conta antes de decidir”, afirma ele que, no período do Oscar, estará em cartaz com o espetáculo “Sizwe Banzi Está Morto”, de Athol Fugard, no Teatro Galpão do Folias, em São Paulo.
Mesmo com uma participação menor no longa - ele faz o personagem Chico -, Rabelo acompanhou de perto a repercussão da produção e celebrou a projeção internacional dos colegas de elenco. “Estou muito feliz pela Dona Tânia (a atriz Tânia Maria), que foi uma grande colega também em ‘Bacurau’, pelo Wagner, que é uma potência internacional. Me sinto muito honrado por ter trabalhado ao lado dele”, comenta. E considera que a experiência de acompanhar a cerimônia do Oscar pela TV já representará, por si, um ritual: “Estou imaginando que, pela primeira vez, vou ficar à frente da TV vendo um filme brasileiro, do qual participei, concorrendo a tantas estatuetas. Isso dá outra relação com essa distância que a gente tem de Hollywood”, examina, ponderando que, é bem verdade, nos últimos anos, a sua proximidade com esse universo já havia se estreitado: o mineiro fez parte do elenco de “Meu Amigo Pinguim” (“My Penguin Friend”, no título original), de 2024, dirigido por David Schurmann e protagonizado por Jean Reno.
. É à luz desses últimos projetos que o ator reconhece como, aos 68 anos, o cinema redimensionou sua própria carreira – construída com persistência e marcada por desafios comuns à profissão. E é curiosamente neste momento que ele se volta mais para si e para suas próprias origens: “Fiz, recentemente, meu primeiro filme com a Filmes de Plástico em Belo Horizonte, de onde eu sou”.
. O trabalho “em casa” vem depois da construção de uma relação íntima e profícua com Recife. “Eu posso dizer que é o lugar onde eu mais trabalho. Desde 1978, eu já conhecia a cidade, quando fui lá com a minha antiga parceira conhecer o Velho do Pastoril – uma manifestação tradicional do ciclo natalino. Então, é um lugar que faz parte da minha vida culturalmente. Além disso, foi lá que rodei os filmes que mudaram a minha carreira”, ressalta, incluindo a cidade no hall de reencontros proporcionados pelo trabalho em “O Agente Secreto”.
. Momento de torcida e reflexão
Para quem acompanha o cinema brasileiro de forma institucional e formativa, a presença de “O Agente Secreto” no Oscar sintetiza um momento raro. “A expectativa é muito boa e é emocionante ver um filme nacional alcançar esse reconhecimento. Só o fato de ‘O Agente Secreto’ chegar a esse lugar, concorrendo em quatro categorias, já é motivo de celebração e um momento histórico para o cinema brasileiro. Vou assistir com o coração palpitando de alegria e muito orgulho de ver o Brasil ocupando esse espaço”, analisa Raquel Hallak, diretora geral da Universo Produção e coordenadora da Mostra de Cinema de Tiradentes, CineOP e CineBH.
. Já a curadora e pesquisadora Tatiana Carvalho Costa, presidente da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan) e integrante do Fórum Itinerante de Cinema Negro (Ficine), enxerga na premiação um espaço ambíguo, atravessado por disputas. Para ela, o Oscar desperta sentimentos “contraditórios e paradoxais”, justamente por representar o auge de uma indústria que, ao mesmo tempo em que legitima obras brasileiras, também exerce forte pressão sobre o mercado exibidor nacional. “É um lugar que muitas vezes restringe o espaço do cinema brasileiro nas salas, mas cuja visibilidade pode nos ajudar a defender melhor a presença e o espaço dos nossos filmes dentro do próprio país”, avalia.
. Por isso, antes de tudo, vê a participação brasileira na premiação como estratégica. “A primeira torcida é por uma presença maior de filmes brasileiros lá e por uma consciência maior do público e das políticas públicas que devem proteger o nosso cinema dessa agressividade da indústria dos Estados Unidos, para que a gente tenha cada vez mais espaço nas salas, sobretudo para o cinema independente”, pontua.
. A pesquisadora também chama atenção para a nova categoria de Melhor Direção de Elenco e para o peso do conjunto de intérpretes na força narrativa do filme. “Essa combinação de pessoas é extraordinária. O elenco é muito do que puxa o filme para um lugar acima da média, e revela uma cara do Brasil que vem sobretudo do Nordeste, desse talento brasileiro que nasce ali”, analisa.
. Para ela, a projeção internacional do longa reforça a ideia de um país plural, que extrapola e descentraliza seus eixos tradicionais. Tatiana também vislumbra um debate para o futuro do audiovisual brasileiro e suas representações: “Torço para que um dia haja um filme dirigido por uma pessoa negra de Minas Gerais indicado ao Oscar. A gente quase esteve lá com ‘Marte Um’. Acho que esse momento de o Brasil todo se unir em torno disso não está longe de chegar!”.
. Bom, do que depender da Filmes de Plástico, produtora por trás de “Marte Um”, que teve direção de Gabriel Martins, novos projetos vão seguir saindo do forno e, potencialmente, tendo chances de alcançar reconhecimento em premiações internacionais. O projeto mais recente do grupo de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, aliás, é o longa “Se eu fosse vivo... vivia”, de André Novais Oliveira, um dos fundadores da produtora. A produção estreou no Festival de Berlim em fevereiro, integrando a mostra Panorama da 76ª edição do evento. A produção marca a estreia da escritora Conceição Evaristo no cinema, vivendo a coprotagonista, Jacira. Ela atua ao lado de Norberto, pai do diretor, que interpreta Gilberto.
. “Esta é a primeira vez da Filmes de Plástico no Festival de Berlim; estamos muito felizes com a seleção do filme; é muito especial”, comentou o sempre discreto André Novais em entrevista à Encontro. “São quase 17 anos de uma produtora que, na base, tem quatro pessoas que se amam e fazem o que gostam, tentando ao máximo fazer isso com sinceridade e amor, com muita gente que anda com a gente e nos apoia”, complementa, fazendo menção aos colegas Maurílio Martins e Thiago Macêdo Correia, além do já citado Gabriel Martins.
. Uma mineira de Januária como testemunha ocular
“Durante as gravações, a cidade virou um grande estúdio de cinema, principalmente no centro, onde eu moro. Então, nos meses de maio, junho e julho de 2024, era comum sair de casa e me deparar com muitos carros de equipamentos e equipes em prédios e ruas próximas”, relata ela, que vive em Recife desde 2018, para onde se mudou justamente para estudar cinema. Hoje, sócia da produtora Murici Filmes, ela atua como produtora executiva, diretora e roteirista de curtas, longas e séries, além de ser parte de um coletivo de cinema em Januária, o Cine Barranco, que produz filmes e festivais.
. “Era muito bacana porque, embora eu não estivesse na produção, eu tive muitos amigos que trabalharam e eu acabava encontrando pelos sets”, relata ela ao falar da curiosa sensação de que todas as pessoas na cidade conheciam alguém envolvido no longa, seja na equipe técnica, na figuração ou nas etapas de produção. Foram mais de mil figurantes, inclusive, o namorado de Maria Clara. “Ele, que não trabalha com cinema, topou fazer e se divertiu muito. Hoje, sente que fez parte desse trabalho, o que, com certeza, é marcante na sua história e na história do cinema pernambucano e brasileiro”, observa.
. Vale dizer, as observações de Maria Clara são referendadas por Leonardo Lacca, diretor assistente e preparador de elenco de “O Agente Secreto”. Para ele, o filme produziu um efeito raro de pertencimento social – um tipo de capilaridade que costuma aparecer apenas em situações extremas, como nas grandes tragédias que mobilizam cidades inteiras. No caso do longa, porém, esse sentimento nasce de um processo criativo que se espalhou pelo território e envolveu diretamente a vida cotidiana das pessoas. “Foi muito bonito o acolhimento ao filme já no processo. A cidade abraçou antes mesmo do sucesso”, recorda.
. Não por outro motivo, como conta Maria Clara, uma quase palpável euforia foi tomando Recife à medida que o filme foi se consolidando na temporada internacional de premiações de cinema. “Atualmente, com a campanha pelo Oscar, as pessoas estão bem animadas e é possível ver grupos de turistas visitando algumas das locações no centro da cidade, como o Chá Mate Brasília, uma lanchonete muito antiga onde foi gravada uma cena do filme”, localiza.
. “Com certeza a expectativa de ganhar um Oscar mexe com o imaginário e envaidece positivamente quem nasceu ou quem mora aqui. Eu mesma fico feliz por trabalhar com cinema em Recife e acredito muito nas narrativas que construímos e na própria maneira que o cinema pernambucano se organiza, reivindica seus direitos e sua cultura”, elogia.
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OSCAR 2026
Domingo, 15 de março
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Canal TNT - A partir das 20h
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Bar irá transmitir cerimônia a partir das 20h, com direito a drinques exclusivos inspirados no filme e música ao vivo
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