Fato é que ali, naquela noite, o maestro Isaac Karabtchevsky adentrava ao palco do Grande Teatro para a apresentação de “O Messias”, de Händel, no que seria a coroação do evento. Um corte temporal para 2026 traz o icônico complexo às vésperas de soprar as velinhas de 55 anos, na expectativa de que a nova idade traga feitos dignos de ficarem marcados na história da instituição - tais como o lançamento das primeiras publicações dedicadas ao registro da sua trajetória, a estreia da centésima ópera por lá produzida e a comemoração dos 50 anos de atividade da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais.
. “O Palácio das Artes é uma instituição riquíssima, poderosíssima... Mas a verdade é que a narrativa do que aconteceu aqui, desde a fundação, nunca foi efetivamente consolidada. Para citar um exemplo, os corpos artísticos (Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, Coral Lírico, Companhia de Dança Minas Gerais) não têm uma publicação, um livro, narrando a sua história”, assinala. Do mesmo modo, emenda ele, as óperas por lá encenadas. “E o que ocorre é que algumas pessoas (referindo-se aos profissionais envolvidos nessas produções no curso dos anos) estão indo embora - e, com elas, a memória”.
. O presidente da FCS prossegue: “Portanto, embora o marco de 55 anos não seja, vamos dizer assim, o que comumente chamamos de ‘data redonda’, foi a que o momento nos presenteou. E, assim, a gente está se apropriando dela para pensar no ontem, no hoje, no sempre - os pilares que norteiam a programação deste ano”, explana. Um dos destaques, aponta ele, são as cinco publicações de cunho memorialístico a serem lançadas. “O Palácio e Sua História”, assinado pelo jornalista Mauro Werkema, o mais longevo presidente da Fundação Clóvis Salgado, está pronto e vai ser o primeiro a ser lançado, em março.
. A publicação seguinte, “O Palácio e Suas Óperas”, escrito pela diretora artística da Fundação, Cláudia Malta, está em fase final de ajustes. “Neste 2026, vamos fazer quatro montagens para, assim, chegar ao marco de cem óperas”, comemora o presidente. O acervo de artes plásticas da instituição será o tema do terceiro livro, “O Palácio e sua Coleção”. “Desde a origem, o Palácio das Artes tem uma coleção muito potente. No entanto, um acervo que pouca gente de fato viu”, afirma. O lançamento será desdobrado em uma grande exposição.
. Paralelamente, outros dois livros estão sendo gestados. Um deles é “O Palácio e a Orquestra”, e trata dos 50 anos da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. A escrita está a cargo do pesquisador e regente Marcelo Ramos. Já “O Palácio e a Companhia de Dança” vem sendo conduzido pelos próprios integrantes do grupo.
. Os livros terão uma versão impressa, mais limitada, com distribuição gratuita, e uma online, que permanecerá como uma fonte perene de pesquisa.
Universo online
Uma atenção especial está sendo direcionada ao Canal Palácio das Artes no YouTube, hoje, na opinião do presidente da FCS, obsoleto. “Começamos a produzir conteúdo e vamos relançá-lo com uma linguagem visual toda modernizada, feita pela Hardy Design. A proposta é, a cada semana, subir um conteúdo diferente”, detalha. O novo canal deverá ir ao ar entre o final de março e início de abril.
. SInfônica, 50 anos
Também dentro das comemorações, um dos corpos artísticos mais emblemáticos do Palácio das Artes, a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, terá uma temporada especial, que, de acordo com a programação já divulgada, prevê encontros históricos e grandes nomes da regência nacional e internacional. Entre eles, maestros que ajudaram a construir a trajetória dela, “em concertos que celebram o passado, o presente e o futuro da instituição”. Entre os convidados, estão Roberto Tibiriçá, Sílvio Viegas, Marcelo Ramos, Priscila Bomfim, Gabriel Rhein-Schirato e André Brant, entre outros não menos importantes.
. E mais…
A programação “Palácio das Artes – 55 anos: Ontem, Hoje. Sempre” prevê, ainda, ações referentes ao cinema, por meio do Cine Humberto Mauro, e novidades como intervenções expográficas, que vão situar, para o público, as personalidades que dão nome aos espaços da Fundação - como o próprio Clóvis Salgado (1906 - 1978), leopoldinense, médico e incentivador das artes, que foi vice-governador e governador de Minas, além de Ministro da Educação no governo JK.
. Ano vai marcar montagem da 100ª ópera
O Palácio das Artes celebrará sua 100ª montagem operística neste 2026. “Il Maestro di Cappella”, de Domenico Cimarosa, será encenada no segundo semestre, em outubro, sob a regência de André Brant, no Centro Cultural do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região. Mas a temporada operística da instituição terá início bem antes, com “As Bodas de Fígaro”, de Wolfgang Amadeus Mozart, com direção cênica do italiano Mario Corradi. A estreia está prevista para 17 de abril.
. Já entre 30 de julho e 2 de agosto, acontece uma edição especial do projeto Viva a Ópera. Com direção cênica de Pablo Maritano e regência de Gabriel Rhein-Schirato, ex-integrante da OSMG, as apresentações vão ocorrer nos galpões do Centro Técnico de Produção e Formação da FCS, situados na vila Marzagão, no município de Sabará. “Esse projeto visa recuperar os grandes momentos de nossas óperas e tem uma dupla função. Primeiramente, nos obriga a rever todo o acervo, o que traz a exigência de revitalizá-lo - como fica guardado, é necessário esse processo. E, em segundo lugar, permite que o público entre no processo de criação”, contextualiza Sérgio Rodrigo Reis, presidente da Fundação Clóvis Salgado.
. O Palácio das Artes vai disponibilizar ônibus para levar os interessados do teatro, na avenida Afonso Pena, até a vila Marzagão. Ao chegar, o público vai se deparar com peças de cenários de diversas montagens. “De repente, as luzes principais vão se apagar e focos serão direcionados a detalhes que remetem a várias óperas. Desse modo, o espectador é convidado a viajar na história, a adentrar os bastidores, as coxias, que, na verdade, é onde de fato a magia acontece”.
Em 12 de setembro, estreia em Diamantina a ópera “Chica da Silva”, com música de Guilherme Bernstein e libreto de Marcus Bernstein e Flávia Bessone. A obra narra a trajetória da escravizada que conquistou o contratador de diamantes João Fernandes. Essa montagem em particular, comenta Sérgio, insere-se no projeto de o Palácio das Artes apresentar títulos inéditos.
. “O universo operístico é composto por títulos que todo mundo faz e repete. A proposta, pois, foi, além de fazer os clássicos, propor títulos inéditos, originais, que falassem da cultura de Minas Gerais. Para falar do ciclo do ouro, fizemos ‘Aleijadinho’ e foi um sucesso. Depois, ‘Matraga’, para falar do ciclo do sertão, e ‘Devoção’, relativo ao ciclo da fé. Agora, para falar do ciclo do Diamante, ‘Chica da Silva’. São espetáculos que nascem do zero, não tem nada pronto, música, libreto, cenografia, nada. A gente constrói tudo”, diz Sérgio Rodrigo. Após apresentação na cidade histórica, haverá apresentações no Grande Teatro Cemig.
. Depoimentos
“Uma noite inesquecível”
Isaac Karabtchevsky, 91 anos, hoje diretor artístico e regente titular da Orquestra Petrobras Sinfônica e da Orquestra Sinfônica Heliópolis
“Vivenciei lindos momentos”
Roberto Tibiriçá, 71 anos, maestro, regente titular da Orquestra Sinfônica do Paraná
“Parte da cultura mineira voltava a respirar”
Thelmo Lins, 62 anos, cantor, ator, jornalista, escritor e gestor cultural
“‘Matraga’ aproximou a ópera do público”
Chico Lobo, 61 anos, violeiro e compositor