Revista Encontro

Artes

Dentista mineiro transforma experiências em pintura

Especialista em disfunções temporomandibulares e dor orofacial, Ricardo Tanus diz que se alimenta da arte expressionista, intuitiva, intensa e ligada à emoção

Lilian Monteiro
Ricardo Tanus conta que a arte entrou em sua vida como um espaço de silêncio e conexão: "Era o momento em que eu podia estar sozinho comigo mesmo, longe do que era esperado ou considerado 'certo'. Muitas vezes, isso acontecia na madrugada, quando o mundo desacelera e a mente encontra descanso" - Foto: Pádua de Carvalho
Quando o imortal Ferreira Gullar, um dos mais importantes poetas brasileiros da segunda metade do século XX, disse que “a arte existe porque a vida não basta”, ele a traduziu como uma necessidade humana para além das insuficiências do cotidiano, uma busca por um sentido maior para a existência e para uma experiência profunda do que é ser. É exatamente o que seduziu o cirurgião-dentista Ricardo Tanus, de 57 anos, especialista em disfunções temporomandibulares e dor orofacial, com mais de 30 anos de experiência clínica, autor de livros e palestrante nacional e internacional. Ele revela que a arte entrou em sua vida como um espaço de silêncio e conexão. “Era o momento em que eu podia estar sozinho comigo mesmo, longe do que era esperado ou considerado ‘certo’. Muitas vezes, isso acontecia na madrugada, quando o mundo desacelera e a mente encontra descanso”, afirma.
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O cirurgião-dentista enfatiza que pintar virou sua forma de se comunicar consigo mesmo, de organizar pensamentos, aliviar o peso do dia e transformar as sensações em cores e formas. “Cada tela nasce desse encontro íntimo, mas sempre com um olhar para o outro. O desejo de que quem veja minha arte também se sinta tocado, acolhido ou provocado. A arte, para mim, é descanso, diálogo e partilha.” Ricardo entrega que se vê como um artista em constante construção. Para ele, sua arte é “expressionista contemporânea, intuitiva, intensa e profundamente ligada à emoção”. Ele pinta desde 2009. “Comecei sozinho, de forma autodidata, enfrentando desafios, dúvidas e descobertas sem atalhos. Foi nesse caminho solitário que aprendi a confiar no meu olhar e na minha linguagem.” Com o tempo, buscou ajuda para se aperfeiçoar. 
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Entre suas obras, Ricardo destaca a tela “O Transplante” que, confessa, “nasceu de um lugar muito profundo em mim”. Ele confidencia que pintar esse quadro foi revisitar um dos momentos mais intensos da sua vida: o período em que estive ao lado do meu irmão no hospital, acompanhando um transplante que misturava medo, esperança, silêncio e fé. “A tela virou uma forma de dizer o que as palavras não davam conta. Cada cor, cada gesto e cada escolha foram uma tentativa de transformar dor em sentido, angústia em luz, e espera em vida. Não é apenas uma obra é uma memória viva, uma releitura emocional de um instante em que o amor, a fragilidade humana e a possibilidade de recomeço caminharam juntos.”
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Tanus pinta desde 2009 - Foto: Pádua de CarvalhoÀ flor da pele, no universo das artes, Ricardo pontua como suas inspirações Vincent van Gogh, “pela força emocional e honestidade da pintura”, pintor holandês do final do século XIX e um dos maiores expoentes e gênio do pós-impressionismo. E Antônio Poteiro, “pela simplicidade potente, pelas cores e pela narrativa popular e estilo naïf”, pintor, ceramista, oleiro e escultor luso-goiano, considerado um dos principais expoentes da arte dita popular brasileira, apontado como outro gênio da humanidade pela originalidade, genuinidade e simplicidade. Referências e inspirações que moldam Ricardo, mineiro de Barbacena, casado com Natascha e pai de Pietra. “Sou mineiro e carrego nas raízes os valores da escuta, da profundidade e da constância, sem perder o impulso de ir além das montanhas e enxergar o mundo com visão ampla”, diz. Ricardo ressalta ainda que a arte é parte essencial de sua identidade, influenciada por seu olhar e por sua maneira de enxergar a vida: “alegre e colorida”. E, assim, ele vê o seu mundo, o mundo ao redor e o mundo além das fronteiras, parafraseando Ferreira Gullar novamente: “Quando a vida não dá conta do que sentimos, a arte aparece para completar o que falta”.

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