Revista Encontro

Maturidade

Envelhecimento ativo muda hábitos e impulsiona economia no país

Com mais tempo, consciência e, em muitos casos, renda estável, esse público assume o protagonismo e movimenta um mercado de R$ 2 trilhões por ano no Brasil

Aline Reskalla
Emilio Brandi, dono do Botânico Shopping; de acordo com o empresário, o peso econômico dos 60+ ganha protagonismo no mix do centro de compras do Belvedere - Foto: Pádua de Carvalho
O conceito de “idoso” ficou velho. Sai “terceira idade” e entra NOLTs, sigla para “nova tendência de vida dos mais velhos”, tradução livre de New Older Living Trend. Apesar de polêmico, o termo tem traduzido uma mudança de mentalidade: uma postura ativa diante da vida, com autonomia, propósito e escolhas conscientes - independentemente da idade cronológica.
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Esse movimento não acontece por acaso. O mundo envelheceu - e o Brasil também. O aumento da expectativa de vida, aliado à queda na taxa de fecundidade, vem redesenhando a pirâmide etária. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indicam que o país deve ultrapassar a marca de 32 milhões de pessoas com mais de 60 anos até 2030. Em 2050, esse grupo representará um quarto da população.
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Minas Gerais acompanha a tendência nacional de envelhecimento populacional. No estado, 30,47% da população já tem 50 anos ou mais, ou seja, mais de 6,2 milhões de pessoas. Trata-se de um público numeroso, ativo e com grande potencial de consumo, pois este “novo velho” estuda, aprende novas tecnologias, empreende, muda de carreira e se reinventa como consultor. Muitas vezes tira do papel sonhos que ficaram adormecidos por anos. Cuida do corpo, da mente e das emoções. Viaja, lidera, compartilha conhecimento e continua aprendendo. 
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“É necessário considerar que essa parcela da população, formada por um consumidor com características fisiológicas e sociais específicas, pode apresentar limitações físicas e cognitivas, mas também tem autonomia, bom poder aquisitivo, entre outros atributos. Por isso, precisa de um atendimento diferenciado por parte de lojistas e prestadores de serviço. Diferentemente do que muitos pensam, esse consumidor da longevidade não consome apenas saúde”, explica o analista de Competitividade do Sebrae, Flávio Barros. 
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Com mais tempo, mais consciência e, em muitos casos, renda estável, esse público deixou de ser coadjuvante para assumir o protagonismo. Segurança, turismo, saúde física e mental, cultura, mobilidade e conexões sociais despontam como alguns dos setores mais impactados por essa virada.
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A chamada economia da longevidade - que abrange o público 50+ e 60 - já movimenta cerca de R$ 2 trilhões por ano no Brasil, o equivalente a aproximadamente 25% do consumo das famílias, segundo dados do Instituto Brasileiro de Economia e Finanças (Ibef). A tendência é de forte expansão: as projeções indicam que esse mercado pode atingir R$ 3,8 trilhões até 2044, passando a representar cerca de 35% do consumo nacional.
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Para o empresário Emílio Brandi, responsável pelo lançamento do Botânico Shopping, no ano passado, o público 60 tem um comportamento de consumo ligado a qualidade e bem-estar. “Eles procuram ambientes agradáveis, com conforto, bons restaurantes, música de qualidade e, principalmente, serviços bem cuidados, como banheiros limpos. É um consumidor mais exigente, que valoriza o lugar onde está”, afirma. Segundo ele, trata-se de um perfil que prioriza experiências e permanência. “Querem se sentir à vontade, tranquilos. Isso aparece no jeito de andar, de observar, de ocupar o espaço.”
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O empresário destaca o peso econômico desse grupo, que ganha protagonismo no mix do shopping. “São pessoas com experiência de vida, muitas vezes com uma condição financeira consolidada. Há muitos empresários e empreendedores nessa faixa, com poder de decisão e consumo elevado”, diz. Na avaliação dele, trata-se de um público extremamente relevante e em expansão. 
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Legítimo representante da geração 60 , Brandi, reflete sobre o ato de empreender aos 63 anos. Para ele, a maturidade trouxe mais clareza e equilíbrio às decisões. “Empreender hoje é muito diferente de quando comecei. Tenho mais visão, mais tranquilidade e segurança para decidir”, afirma. A experiência acumulada, inclusive nos momentos difíceis, é vista como um ativo. “Já passei por desafios, e isso traz bagagem. Hoje erro menos porque aprendi mais.”
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Para ele, a chamada vida 60 representa um novo momento, que combina experiência, tempo e qualidade. “É, para mim, a melhor fase. Tem mais tempo para a família, para os netos, e uma outra qualidade de vida. A gente aprende a aproveitar melhor.” Além disso, o empresário acompanha, feliz, a consolidação do Botânico, que recebeu investimentos no valor de R$ 130 milhões. Em menos de um ano, o novo centro de compras do Belvedere, em Belo Horizonte, se tornou um ponto de encontro dos consumidores de alta renda da capital mineira e da vizinha Nova Lima. 
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Atayde Melo Junior, 64 anos, head de vendas latin America da easeMytrip - Foto: EaserMyTrip/DivulgaçãoOutro que tem vivido a fase dos 60 na prática é Atayde Melo Junior, 64 anos, head de vendas Latin America da EaseMyTrip, um dos maiores grupos de turismo da Ásia, listado nas bolsas de valores da Índia (NSE e BSE).  “Não somos pessoas em fase de encerramento de carreira, mas, sim, em um momento de máxima maturidade profissional, em que conhecimento, redes de relacionamento e capacidade de execução se encontram”, disse à Encontro.
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De acordo com o executivo, o conceito de Nolt não é tendência passageira, mas transformação estrutural. A sua própria rotina traduz isso: academia todos os dias, alimentação tratada como prioridade e um olhar atento para os pequenos e grandes prazeres da vida. “Cada momento é saboreado como uma bebida, um alimento oferecido pelos deuses”, diz.
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Essa nova forma de viver também muda a lógica do consumo - especialmente no turismo. Ao longo de três décadas de carreira, Atayde acompanhou a evolução do setor e vê, agora, uma oportunidade clara para empresas que souberem se adaptar. “Nós queremos viajar mais, viver mais e consumir experiências com significado”, resume.
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O presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens Minas Gerais (Abav-MG), Alexandre Brandão, concorda - e observa esse movimento de perto. Segundo ele, o público 60 já responde por cerca de 15% do faturamento do turismo no Brasil, com tendência de crescimento contínuo.
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Alexandre Brandão, presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens Minas Gerais (Abav-MG) - Foto: Paulo MárcioMais do que números, trata-se de uma mudança cultural. “Hoje temos pessoas com mais de 60 extremamente ativas, trabalhando, viajando e consumindo”, afirma. Aos 63 anos, ele é parte dessa realidade. Divorciado e vivendo sozinho, adotou uma lógica simples: investir na qualidade de vida agora. “Procuro fazer pelo menos uma viagem longa por ano, para um lugar novo - ou até revisitar destinos. A ideia é não deixar tudo para depois”, conta.
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A pandemia, segundo ele, acelerou esse olhar. O futuro deixou de ser uma promessa distante e passou a ser decisão imediata. “As pessoas pararam de pensar ‘quando eu me aposentar eu faço isso’. O pensamento agora é outro: se não for hoje, quando? O momento é agora.”
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Nem sempre, porém, essa escolha é apenas filosófica - muitas vezes, é também financeira. Com aposentadorias insuficientes para manter o padrão de vida, muitos seguem no mercado de trabalho. “Ninguém quer mais se aposentar como antes - e, muitas vezes, nem pode. Quem não contribuiu com um plano de previdência não consegue viver apenas com o INSS. Eu, por exemplo, não conseguiria me manter com uma aposentadoria de R$ 4.800. Então, preciso continuar trabalhando até quando aguentar, para garantir tranquilidade e acesso a um bom plano de saúde, que hoje é fundamental”, afirma.
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Os números confirmam. Em dezembro de 2025, o IBGE divulgou que o Brasil atingiu o maior número de idosos trabalhando desde o início da série histórica: 8,3 milhões de pessoas com 60 anos ou mais estavam ocupadas em 2024, o equivalente a 24% dessa população. Entre 60 e 69 anos, o índice sobe para 34% e, entre os homens, chega a quase metade (48%).
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O futuro, aliás, já tem data marcada. Em 2030, o Brasil terá mais idosos do que crianças e será a quinta população mais envelhecida do mundo, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS).
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Empresas ainda patinam para atender demanda
 
Mesmo sendo economicamente ativo, o consumidor sênior frequentemente enfrenta barreiras para acessar produtos e serviços que atendam às suas necessidades. Os principais desafios incluem a falta de adaptação de produtos e serviços. Muitos itens não consideram ergonomia, usabilidade ou a experiência de compra desse público. Há também dificuldade de navegação em plataformas digitais, com interfaces complexas e pouco acessíveis. O marketing ainda é pouco direcionado e, em geral, focado nos mais jovens. Soma-se a isso o atendimento inadequado, com equipes despreparadas para lidar com demandas específicas.
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É o que mostra a pesquisa Consumidor 60 , da Fundação Dom Cabral, segundo a qual o mercado ainda precisa evoluir para atender de forma eficaz uma população que busca cada vez mais autonomia, conveniência e personalização.
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Em dados, o estudo revela que 40% desse público relata a falta de produtos e serviços adequados às suas necessidades - um indicativo claro de que a oferta ainda não acompanha a transformação desse consumidor.
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Na avaliação de Atayde Melo Junior, head de vendas Latam da EaseMyTrip, esse descompasso está diretamente ligado a um modelo mental ultrapassado nas empresas. “Quando falamos em pessoas acima dos 60 anos, o mercado ainda recorre ao conceito de ‘terceira idade’. Hoje, estamos diante de um público mais ativo, saudável, conectado e financeiramente independente, que não quer ser tratado como idoso, mas como um consumidor pleno”, afirma, ao mencionar o conceito de NOLT.
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Segundo ele, o erro está em insistir na idade cronológica como referência, ignorando estilo de vida e comportamento. “O mercado ainda olha para a idade, quando deveria olhar para a forma como essas pessoas 
 
Turismo cresce no mercado 60  
 
O turismo de experiência desponta como um dos nichos mais dinâmicos dentro do mercado 60 , com destaque para Minas Gerais. Destinos ligados à cultura e à natureza vêm se fortalecendo entre o público mais maduro, que busca vivências mais significativas e personalizadas. E roteiros ligados à gastronomia, como as do queijo da Serra da Canastra, dos vinhos e dos azeites no sul do estado, além dos circuitos de café, vêm ganhando protagonismo. “Esse público consome muito experiências: vinícolas, gastronomia, fazendas, cultura. Minas tem uma vantagem enorme nisso”, afirma.
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A chamada Rota dos Queijos, por exemplo, já é considerada a mais estruturada do estado. Há também roteiros que combinam trem turístico, visitas a produtores locais e experiências gastronômicas em um único dia — um formato especialmente atraente para esse perfil de viajante.
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Além da gastronomia, o turismo religioso também cresce, impulsionado por iniciativas como o programa Minas Santa, que promove destinos históricos durante a Semana Santa. Soma-se a isso uma mudança de comportamento observada no pós-pandemia: a busca por lugares abertos, com mais contato com a natureza e menos aglomeração.
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Outro segmento que se beneficia diretamente dessa transformação é o de cruzeiros. Segundo Brandão, pessoas acima dos 60 anos já representam mais da metade dos passageiros em viagens de travessia de longa duração.
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Imóveis compactos estão em alta para atender faixa etária 
 
A proporção de brasileiros que moram sozinhos saltou 52% em 12 anos, fenômeno diretamente ligado ao envelhecimento da população. Em 2024, 18,6% dos domicílios eram habitados por apenas uma pessoa. Em 2012, eram 12,2%. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
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O analista da pesquisa, William Kratochwill, diz que o perfil é essencialmente daqueles que acabam ficando viúvos ou que os filhos vão ter suas próprias famílias. “Quarenta por cento das unidades unipessoais (com um único morador) no Brasil são ocupadas por pessoas de 60 anos ou mais”, diz ele.
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O mercado imobiliário de Belo Horizonte reflete essa tendência: 20,1% dos imóveis têm apenas um morador. Nos empreendimentos, a adaptação aparece tanto na localização quanto nos projetos. As vendas de apartamentos compactos saltaram 54,6% em Belo Horizonte e Nova Lima em 2025, segundo Censo do Mercado Imobiliário.
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Braulio Garcia, vice-presidente da área imobiliária do Sindicato da indústria da Construção Civil (Sinduscon-MG) - Foto: Paulo Márcio“Há uma tendência de unidades mais compactas, mas com atenção a detalhes de acessibilidade, como portas mais largas - idealmente entre 70 e 80 centímetros - e ambientes pensados para facilitar a mobilidade no futuro”, afirma o vice-presidente do Sinduscon-MG, Bráulio Garcia.
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Segundo ele, regiões como Gutierrez, Santa Efigênia e áreas próximas ao polo médico, em Belo Horizonte, também ganham destaque justamente por oferecerem acesso facilitado a serviços essenciais, como supermercados, padarias e ruas planas, permitindo que o morador resolva a rotina a pé. “A ideia é garantir qualidade de vida, com tudo por perto e fácil acesso”, explica
 
“Mesmo que a pessoa não precise agora, o imóvel já deve estar preparado para uma eventual necessidade”, afirma. Além disso, os prédios passam a incorporar estruturas completas de lazer e bem-estar, como academias, piscinas para hidroginástica, salas de convivência, massagem e espaços multiuso, permitindo que o morador concentre atividades no próprio condomínio.
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Economia da longevidade no Brasil
 
Tamanho do mercado
  • R$ 2 trilhões por ano movimentados pelo público 50 /60
  • 25% do consumo das famílias brasileiras
  • Projeção de R$ 3,8 trilhões até 2044
  • Pode representar 35% do consumo nacional
 Fonte: IBEF e Exame
 
Quem é o consumidor 60
  • 72% se consideram digitais
  • 56% têm rotina ativa
  • 40% relatam falta de produtos e serviços adequados
  • Público mais independente, conectado e exigente
 Fonte: Fundação Dom Cabral – Estudo Economia Prateada

Oportunidades de mercado
  • Crescimento impulsionado pelo envelhecimento da população
  • Aumento da expectativa de vida
  • Manutenção do consumo ativo
  • Impacto em setores como turismo, saúde, moradia, mobilidade, cultura e serviços

Principais desafios
  • Produtos e serviços pouco adaptados (ergonomia e usabilidade)
  • Dificuldade em plataformas digitais
  • Marketing pouco direcionado ao público 60
  • Atendimento despreparado
  • O que esse público busca
  • Autonomia
  • Praticidade
  • Personalização
  • Experiências
  • Qualidade de vida

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