Revista Encontro

Moradia

Apartamentos compactos impulsionam mercado imobiliário

Alta de pessoas morando sozinhas e busca por praticidade aceleram vendas de imóveis de um e dois quartos em Belo Horizonte e Nova Lima

Aline Reskalla
Selfie Sereno, empreendimento da Caparaó que aposta em unidades compactas de alto padrão, com cerca de 52 m² a 55 m² - Foto: Caparaó/Divulgação
Nos últimos 13 anos, o número de pessoas que vivem sozinhas dobrou no Brasil, chegando a 15,6 milhões. O dado é recente: foi divulgado no dia 17 de abril de 2026 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E reflete uma mudança profunda na forma de morar dos grandes centros urbanos.
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Esse novo retrato social das cidades é composto, em sua maioria, por homens adultos, entre 30 e 59 anos, e mulheres acima dos 60 - perfis que ajudam a explicar o crescimento acelerado na demanda por apartamentos compactos, de um ou dois quartos.
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As vendas nesse segmento aumentaram 54,6% em Belo Horizonte e Nova Lima em 2025, segundo o Censo do Mercado Imobiliário, encomendado pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado de Minas Gerais (Sinduscon-MG) à Brain Consultoria.
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Em toda Minas Gerais, foram vendidos 21.516 apartamentos novos em 2025, com um Valor Geral de Vendas (VGV) de R$ 14,513 bilhões. Em Belo Horizonte e Nova Lima, foram comercializadas 7.545 unidades, o equivalente a 31,5% dos negócios e uma receita de R$ 7,376 bilhões.
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Nas duas cidades, os apartamentos compactos responderam por 27,4% das vendas. E os lançamentos desse padrão também aumentaram (2.128 unidades, cerca de 30% dos lançamentos), o que mostra que as incorporadoras reagiram à demanda pelo produto.
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Especialistas atribuem o boom dos compactos a mais do que uma tendência imobiliária. Ele expõe uma mudança cultural. Em um cenário de transformações demográficas, pressões econômicas e novos hábitos urbanos, o tamanho do imóvel deixa de ser protagonista. No lugar, entram a localização, a praticidade e a experiência.
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Para o presidente do Sinduscon, Raphael Lafetá, o fenômeno é estrutural. “Há uma combinação de fatores por trás desse crescimento. Temos mais pessoas morando sozinhas, famílias menores e uma busca maior por imóveis bem localizados e com valor total mais acessível".
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Ao mesmo tempo, segundo ele, o preço dos terrenos nas cidades está elevado, o que motiva as construtoras a investirem em unidades menores, que vendem mais rápido. Essa característica também reduz riscos para o setor. “Os compactos têm maior liquidez e ajudam a evitar estoque parado, mantendo o dinamismo do mercado.”
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O diretor comercial e de marketing da Patrimar, Lucas Couto, explica que o movimento não é tão recente como parece. “Começou lá atrás, por volta de 2014, quando lançamos produtos como o Manhattan Square (Savassi) e o Soho (2017, Vila da Serra). Ali nasceu uma nova leva de empreendimentos de um e dois quartos. De lá para cá, esse mercado só cresceu e hoje é uma das principais apostas do setor”, disse ele à Encontro.
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Para o executivo, dois fatores são determinantes para o sucesso de venda dos compactos: localização e valor. “O produto precisa estar em regiões com infraestrutura, mobilidade e oferta de serviços. Bairros como Savassi e Lourdes são exemplos claros, onde as pessoas conseguem resolver a vida a pé. E o preço final, mesmo em áreas valorizadas, acaba sendo mais acessível, o que amplia muito o público.”
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Atualmente, uma nova onda de empreendimentos movimenta a Vila da Serra, em Nova Lima. “É uma área que deu muito certo, apesar de ser montanhosa, é uma região com desejo de consumo, valor agregado maior, porta de entrada para esse universo”, afirma Couto.
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Edifício Madison Square, a poucos minutos da movimentada avenida Oscar Niemeyer e do Belvedere - Foto: Magê Monteiro/DivulgaçãoDe fato. Em outubro, a construtora lançou nesse bairro o Madison Square, localizado em uma posição estratégica, ao lado dos condomínios, rodeado pelas montanhas e, ao mesmo tempo, a poucos minutos da movimentada avenida Oscar Niemeyer e do Belvedere.
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“Vendemos 80% das 230 unidades em 48 horas”, disse Lucas. O condomínio tem opções de um e dois quartos, variando de 48 m² a 110 m². Previsto para ser entregue em 2029, o Madison terá uma torre de 25 andares, um verdadeiro “clube vertical” com diversos serviços agregados, várias piscinas, quadras de areia, fitness completo e pilates, salão de festas, coworking e inúmeros outros “luxos".
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Outro “filão" para os compactos, segundo Couto, é a área hospitalar de Belo Horizonte, onde a Patrimar também prepara um novo projeto, o Upside Square, com 161 unidades. “É uma área com fluxo intenso de pessoas e pouca oferta de hospedagem. O empreendimento será voltado principalmente para investidores, com unidades a partir de 27 m², incluindo estúdios e apartamentos de um e dois quartos.”
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Esse público, aliás, é mais diverso do que se imagina. “Atendemos desde quem vai morar até investidores. Temos viúvos, pessoas separadas, casais sem filhos e também o fenômeno dos ‘ninhos vazios’. Além disso, há quem use o imóvel como apoio no dia a dia, para evitar deslocamentos longos. Couto também destaca a necessidade de conveniência. “Hoje, o cliente valoriza os serviços. Esses empreendimentos já nascem com essa proposta.”
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A força do investidor é também elemento central nessa equação. Segundo Gustavo Silveira, supervisor de vendas da Somattos, há uma mudança clara no perfil de quem compra. “Percebemos uma migração do aluguel tradicional para o short stay, que vem ganhando muita força. Isso aumentou a atratividade dos compactos, principalmente em regiões nobres”, afirma.
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Ele também aponta fatores econômicos. “O mercado financeiro não tem dado o mesmo retorno, e a renda da população não acompanhou o aumento do preço dos imóveis. Isso ampliou a procura por locação e reforçou o interesse por esse tipo de produto.”
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Edifício Mirá, da Somattos, no Vale do Sereno, com apartamentos de um e dois quartos - Foto: Somattos/DivulgaçãoAlém do Flow Savassi, que tem apartamentos de um e dois quartos e está em obras, com previsão de entrega para 2027, a Somattos acaba de lançar, em parceria com a Pentagna Incorporadora, o Mirá, no Vale do Sereno, também com um e dois quartos. "Em pouco tempo de comercialização, já se mostrou um grande sucesso de vendas, principalmente para investidores”, diz Silveira.
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Na Caparaó, a leitura é semelhante. Para o CEO Alexandre Lodi, o crescimento dos compactos reflete uma mudança profunda no modo de morar. “Existe hoje uma demanda crescente por praticidade, centralidade e sofisticação, com plantas inteligentes e uma experiência de moradia alinhada ao estilo de vida contemporâneo”, afirma.
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Ele pondera, no entanto, que o sucesso do modelo depende da execução. “Para fazer sentido no longo prazo, esse produto precisa ser bem pensado, bem localizado e ter qualidade real. Quando há arquitetura consistente, boa inserção urbana e um padrão elevado de entrega, esse nicho encontra espaço sólido para se desenvolver.”
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Um exemplo dessa estratégia é o Selfie Sereno, no Vale do Sereno, em Nova Lima. O empreendimento aposta em unidades compactas de alto padrão, com cerca de 52 m² a 55 m², integrando funcionalidade e sofisticação. “A proposta é entregar uma experiência completa de moradia, não apenas um apartamento menor”, resume a construtora. Com áreas comuns amplas, rooftop e espaços voltados ao bem-estar, o modelo reforça uma tendência: a de compensar a metragem reduzida com uma infraestrutura compartilhada mais rica.
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A resposta do mercado tem sido imediata. Casos recentes mostram empreendimentos compactos esgotados em poucos dias - ou até antes do lançamento oficial. Na própria Caparaó, projetos com esse perfil tiveram vendas aceleradas, confirmando a aderência do produto.
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Esse movimento também dialoga com uma tendência global. Em cidades como Nova York, Tóquio e grandes centros europeus, a moradia compacta já é uma realidade consolidada, associada à vida urbana intensa, à mobilidade e ao acesso a serviços. No Brasil, esse processo chegou mais tarde, mas avança rapidamente.
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Outro reflexo importante é a reocupação das áreas centrais. “Esses empreendimentos ajudam a trazer vida de volta para regiões que estavam esvaziadas”, observa Lucas Couto, da Patrimar. A lógica é clara: mais gente morando perto de onde trabalha e consome significa cidades mais dinâmicas — e menos dependentes de deslocamentos longos.
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A FBR é outra incorporadora que está no centro desse movimento. “O levantamento do Sinduscon reflete exatamente o que vemos no dia a dia: uma busca frenética por lifestyle urbano e praticidade. As cidades estão cada vez mais verticais e o perfil do morador está migrando do 'sonho da casa própria gigante' para a liberdade do aluguel e da mobilidade”, analisa Felipe Bernardes, diretor da FBR.
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Fachada do Walk Funcionários, que tem um "irmão" também na Savassi - Foto: FBR Incorporadora/Divulgação Ele afirma que o sucesso de dois empreendimentos da empresa, o Walk Funcionários e o Walk Lourdes, prova que o público de Belo Horizonte mudou a forma de enxergar a moradia. “Nós percebemos que os apartamentos compactos acabam sendo adquiridos, em grande parte, por investidores que buscam rentabilidade com a locação de imóveis, já que há tendência dos preços de aluguel subirem com aumento dessa demanda. Os investidores estão voltando a enxergar o imóvel residencial como um investimento sólido de liquidez e com boa rentabilidade”, reforça Felipe Bernardes, diretor da FBR.
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Segundo ele, as pessoas querem morar perto do trabalho, de boas opções de lazer e serviços à mão. O luxo hoje é tempo e localização. Além disso, o investidor percebeu que o compacto em áreas nobres, como a Funcionários, Lourdes e Savassi, que atingiu valor recorde de metro quadrado recentemente, é um ativo extremamente seguro e rentável.
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“A FBR já se consolidou como essa referência em compactos premium e já estamos preparando novos lançamentos ainda em 2026, com dois projetos na Savassi e no Santo Agostinho. A ideia é continuar entregando produtos que conectem as pessoas ao ritmo da cidade, com design e eficiência”, finaliza.
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Sudoeste terá três lançamentos da marca Aldea: Aldea Barroca e Aldea Santo Agostinho, previstos para o primeiro semestre, e Aldea Augusto de Lima, na segunda metade do ano - Foto: Alessandro Bastos/DivulgaçãoEm sintonia com as transformações do mercado imobiliário, a Construtora Sudoeste tem 80% de suas vendas concentradas nos apartamentos compactos. Para este ano, a construtora prepara três lançamentos: Aldea Barroca e Aldea Santo Agostinho, previstos para o primeiro semestre, e Aldea Augusto de Lima, que chega ao mercado na segunda metade do ano. 
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Os projetos reforçam a presença da marca Aldea, agora reorganizada em duas frentes: Prime, voltada ao médio-alto padrão, e Smart, direcionada ao segmento econômico, segundo o gestor da construtora, André Morais. As unidades variam entre estúdios e apartamentos de até dois quartos, com planos futuros para tipologias compactas de três quartos. Os preços iniciais partem de cerca de R$ 350 mil, no caso dos produtos Smart, e chegam a aproximadamente R$ 600 mil nos empreendimentos Prime.
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Segundo o executivo, novos hábitos urbanos —  como menor dependência do carro e a busca por morar próximo ao trabalho —  favorecem plantas mais enxutas. "Alterações recentes na legislação passaram a permitir maior densidade construtiva em regiões estratégicas, o que viabiliza empreendimentos com mais unidades em terrenos menores”, diz ele, que vê um movimento crescente de demanda para locação. 
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Os números refletem esse cenário positivo. Em 2025, a construtora registrou faturamento de cerca de R$ 170 milhões, com projeção de alcançar R$ 250 milhões em 2026. Empreendimentos recentes já apresentam altos índices de comercialização, alguns próximos da totalidade das unidades vendidas.
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Como parte do plano de crescimento, a Sudoeste prepara ainda sua entrada em São Paulo, com terrenos já adquiridos em regiões como Santana e Ipiranga.
 
Já o diretor comercial da PHV Engenharia, Cristiano Madeira, avalia que o aquecimento no mercado de apartamentos compactos está ligado à pouca oferta de terrenos nas áreas mais nobres da cidade. “Os bairros da região Centro-Sul enfrentam uma escassez de terrenos, que torna a fração de solo cada vez mais cara. Apartamentos de um ou dois quartos conseguem ter um tíquete menor e, por isso, alcançam um público maior. Todo mundo deseja estar bem localizado, e o investimento nos compactos possibilita morar ou investir nos melhores endereços da cidade”, explica. 
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Para o executivo, a localização é um diferencial competitivo dessa demanda. A proximidade com shoppings, universidades, tribunais e hospitais amplia a atratividade para diferentes perfis de moradores e facilita a locação das unidades. “No mercado atual, a localização deixou de ser apenas um critério prático e passou a ser entendida como um verdadeiro símbolo de luxo”, diz. 
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O Centauro, um dos empreendimentos da PHV, fica no Santa Lúcia e terá 36 apartamentos de um e dois quartos, além de três lojas comerciais - Foto: PHV/DivulgaçãoA PHV Engenharia tem investido em projetos que combinam plantas compactas com infraestrutura de alto padrão. Um deles é o Centauro, um empreendimento com localização privilegiada no bairro Santa Lúcia, próximo ao Instituto da Criança e ao Falls Shopping. O empreendimento terá 36 apartamentos e três lojas comerciais. Serão apartamentos de um e dois quartos, de 37 m² a 132 m² em uma das localizações que mais valorizam na cidade. 
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Outro lançado recentemente pela PHV é o Maria Emília Salles, localizado na rua Curitiba, em Lourdes. O projeto oferece áreas que variam de 38 m² a 111 m², também com tipologia de um ou dois quartos, e unidades com áreas privativas e coberturas duplex. Além de área de lazer sob medida, o empreendimento terá como destaque a integração da fachada com uma casa da década de 1930 totalmente restaurada, que servirá como portal de entrada para o edifício.

Na Savassi, o residencial Sinval Jr. terá 64 apartamentos em torre única, com plantas de 43 m² a 267 m², incluindo opções de cobertura e áreas privativas. Todas as unidades contam com uma ou duas suítes, vaga privativa de garagem e estrutura de lazer com piscina, deck, espaços gourmet e fitness.
 

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