“Foi um caso extremamente grave. Se ela tivesse permanecido na rua, muito provavelmente ela acabaria vindo a óbito”, recorda a médica veterinária Jane Karoline Souza Pinto, médica veterinária e diretora de parcerias e projetos da fauna na Secretaria Municipal de Meio Ambiente da capital. “A gente conseguiu devolver para a tutora e fazer esse reencontro. Foi muito emocionante”, completa, destacando que histórias como a de Lucy ajudam a dimensionar o papel de um serviço que ainda começa a se tornar conhecido na cidade.
. O Samuvet foi criado para atender situações críticas envolvendo animais. Tem funcionamento 24 horas por dia, todos os dias da semana, e é gratuito. “Esse projeto surge das demandas que já enxergávamos aqui na cidade, principalmente para atendimento de urgência e emergência. A gente tem o complexo público veterinário, mas não tinha ainda uma resposta pública de pronta resposta, para conseguir dar esse atendimento na rua”, explica Jane, mencionando que a iniciativa foi estruturada a partir de experiências anteriores com grupos independentes de resgate, mas ganha agora caráter institucional.
. Na prática, o Samuvet funciona de maneira semelhante ao atendimento de emergência para humanos: é voltado exclusivamente para situações críticas. Casos de atropelamento, hemorragias, brigas entre animais ou ocorrências em locais de difícil acesso %u2500 como bueiros, árvores ou o leito do Arrudas %u2500 estão entre as principais demandas. Já situações de abandono, animais magros ou doentes sem risco imediato não entram no escopo.
. O acionamento é feito por telefone (31 2888-0000), seguido do envio de fotos e vídeos que permitem uma triagem técnica. A análise é realizada por médicos veterinários em uma central de regulação, que define se o caso exige o deslocamento das equipes. A diretora Jane Karoline ressalta que o Samuvet é para urgência, emergência e resgate técnico. “Não atendemos em situações de recolhimento de animais abandonados, por exemplo. Por isso que é muito importante a triagem”, afirma Jane. “A gente recebe um fluxo muito grande de ligações, mas o que de fato se transforma em ocorrência é um número menor. Dar uma informação precisa evita que a gente mobilize uma equipe à toa e desperdice recurso”, explica.
. “A gente percebe que as pessoas ainda estão um pouco confusas sobre a finalidade do serviço. Chegam muitas demandas que não são do Samuvet, mas todas recebem orientação”, avalia a veterinária. “Esse também é um diferencial: quem faz essa triagem é um médico veterinário, que já consegue orientar, direcionar e até fazer uma espécie de telemedicina”, assinala.
. Com mais de 30 profissionais envolvidos, seis ambulâncias e uma moto, o Samuvet realizou, nesses primeiros dias, desde resgates e socorros até cirurgias e internações %u2500 procedimentos que, na rede privada, poderiam custar valores elevados. Após o atendimento, os animais seguem fluxos distintos: aqueles que têm tutor, como a cachorrinha Lucy, são devolvidos depois de estabilizados; já os que não têm são encaminhados ao Centro de Controle de Zoonoses, onde seguem protocolos específicos, como o CED (Capturar, Esterilizar e Devolver).
. A previsão inicial da prefeitura é de cerca de 85 atendimentos mensais, número que ainda deve ser ajustado conforme o serviço se consolida. “É uma demanda nova para a gente. A partir do momento que formos avaliando e fazendo balanços, outras providências podem ser tomadas”, informa a diretora de parcerias e projetos da fauna na Secretaria Municipal de Meio Ambiente. “Mas o mais importante agora é reforçar o entendimento da população sobre quando acionar. Isso garante que a gente consiga atender, de fato, os casos mais graves”, reforça.
. O Samuvet pode ser acionado pelo telefone (31) 2888-0000. O primeiro contato deve ser feito por ligação; só depois disso o envio de imagens é solicitado. Casos que não configuram urgência devem ser encaminhados ao atendimento regular do complexo público veterinário.
. Números
Em uma semana, o SAMUVet realizou:
- 28 socorros
- 6 resgates
- 4 capturas
- 9 recolhimentos
- 2 atendimentos simples com liberação no local
Entre os animais atendidos, foram
- 28 gatos
- 16 cães
Quando é urgência? E o que fazer com seu pet
Curiosamente, essa mesma dificuldade de enquadrar o tipo de assistência devida é enfrentada pelos tutores de pets em suas casas – e, nesses casos, já vale ligar o alerta diante de mudanças sutis de comportamento.
. “Se o animal está mais quieto, não responde quando chamado, parou de se alimentar ou não levanta a cabeça como antes, esses são sinais iniciais de atenção”, explica a médica veterinária Déborah Andrade, mestre em Ciência Animal pela UFMG, especializada em anestesiologia e intensivismo pela PAV SP, pós-graduada em dor pelo Einstein SP e docente das universidades UNIBH e UNA. No extremo, ela detalha que a perda de consciência é sinal de um quadro crítico: “Esse é o último indício de uma emergência. Quando o paciente não responde mais, a situação já é gravíssima.”
. Ela prossegue alertando que, diante de ocorrências como atropelamentos, a aparência pode enganar. Mesmo que o animal esteja andando, pode haver risco. “Nosso maior medo não são as fraturas, mas traumas internos. Traumatismo craniano, hemorragias por ruptura de órgãos ou até hérnia diafragmática, que compromete a respiração”, alerta. A recomendação, portanto, é não esperar: o animal deve ser avaliado o quanto antes, com exames como radiografia e ultrassom.
. Em situações de primeiros socorros, Déborah informa que algumas medidas podem ajudar até a chegada ao atendimento veterinário. Em casos de dificuldade respiratória, a orientação é tentar facilitar a passagem de ar: “Levantar o pescoço, observar se há algo obstruindo a boca ou a garganta e, se possível, remover com cuidado”.
. Já em hemorragias externas, deve-se fazer o controle do sangramento. “Fazer um garrote (torniquete) no local pode ajudar a conter a perda de sangue até chegar ao hospital”, diz. Hemorragias internas, porém, não permitem intervenção caseira e exigem deslocamento imediato para atendimento.
. Entre os erros mais comuns dos tutores, ela destaca dois: esperar demais e medicar por conta própria. “O tempo é crucial. Às vezes, a pessoa espera um, dois dias para ver se melhora, e quando chega à clínica já perdemos a janela de intervenção”, adverte Déborah, lembrando dos riscos da automedicação: “Cães e gatos não são iguais a humanos. Um remédio dado de forma errada pode piorar o quadro e colocar a vida do animal em risco”.
A orientação, portanto, é que, diante de qualquer sinal fora do habitual, especialmente após traumas ou com sintomas intensos, a melhor decisão é procurar atendimento veterinário o mais rápido possível.