A análise é do sócio-fundador da Solutions Gestão de Seguros, Sérgio Frade. Em entrevista à Encontro, ele diz que essa nova realidade tem levado as empresas a atuarem de forma mais próxima da prevenção, da análise técnica e do monitoramento contínuo de operações empresariais.
. “Riscos climáticos e cibernéticos passaram a pressionar seguradoras e resseguradoras em escala global. O aumento da frequência e da intensidade desses eventos exige evolução constante nos modelos de precificação, de subscrição e de gestão de riscos”, explica o executivo.
. Nesse contexto, o mercado segurador assume um papel central na agenda ESG. Mais do que um diferencial, trata-se de um requisito para a sustentabilidade do setor, tanto do ponto de vista econômico quanto social.
Um dos exemplos recentes desse cenário foram as enchentes no Rio Grande do Sul em 2025. Embora o mercado segurador tenha desembolsado cerca de R$ 6 bilhões em indenizações, as perdas totais estimadas ficaram próximas de R$ 100 bilhões. Para o executivo, a diferença evidencia a baixa cobertura securitária em parte das operações e patrimônios atingidos, com um potencial de crescimento bastante atrelado a uma mudança cultural no país.
. Ainda sob o guarda-chuva da sustentabilidade, segundo o empresário, a transição energética e os projetos ligados à agenda ambiental também abriram novas demandas para o setor. Na Solutions, um dos casos recentes envolveu a estruturação do seguro das plantas da multinacional francesa NetZero no Brasil, voltadas à produção de biochar — uma biomassa com grande poder de sequestrar CO2 da atmosfera que tem alto valor no mercado global de créditos de carbono.
. Frade conta que a operação exigiu articulação com o mercado internacional de resseguros para viabilizar coberturas relacionadas a incêndio, explosão, danos elétricos, quebra de máquinas, responsabilidade civil, eventos climáticos e lucros cessantes.
. De acordo com ele, o projeto apresentou desafios técnicos por envolver um modelo produtivo ainda pouco difundido no mercado de seguros brasileiro. A seguradora suíça Zurich participou da operação com suporte de sua estrutura internacional. “O sucesso da operação esteve diretamente relacionado ao entendimento aprofundado dos riscos envolvidos e à adequada apresentação dessas informações ao mercado segurador”, afirma.
. As mudanças trazidas pela agenda ambiental ocorrem em um momento de expansão do mercado. Em abril, a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) projetou crescimento nominal de 5,7% para o setor em 2026. O avanço de projetos ligados à sustentabilidade também coincide com uma transformação mais ampla do mercado brasileiro de seguros nas últimas décadas.
. Ao completar 25 anos de operação em 2026, a Solutions acompanha esse movimento, diz o executivo. Nesse período, uma das mudanças consideradas decisivas para o setor ocorreu em 2007, com a flexibilização do monopólio do resseguro exercido pelo Instituto de Resseguros do Brasil (IRB). A abertura permitiu a entrada de empresas estrangeiras e ampliou a concorrência em um segmento até então concentrado.
. Para Frade, a mudança aumentou a capacidade de absorção de riscos e criou novas possibilidades de cobertura para operações industriais, logísticas e de infraestrutura. “A abertura contribuiu para o aumento da concorrência, maior capacidade de aceitação de riscos e redução de custos”, afirma.
. Outro marco citado pelo executivo foi o impacto provocado pelos atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos. O episódio levou seguradoras e resseguradoras a reverem critérios de subscrição e gerenciamento de riscos em escala internacional. A crise financeira de 2008 produziu um novo endurecimento das análises, especialmente em operações ligadas ao crédito.
. Nos últimos anos, Frade diz que a discussão sobre riscos cibernéticos também ganhou espaço. Empresas com operações digitais e bases de dados sensíveis passaram a buscar coberturas voltadas tanto para resposta a incidentes quanto para responsabilidade civil ligada a prejuízos causados a terceiros. Entre 2022 e 2024, as indenizações desse segmento somaram cerca de R$ 90 milhões, segundo dados citados pela corretora.
. Ao longo dos últimos 25 anos, a Solutions participou de programas de seguros ligados a grupos industriais, operações de infraestrutura e projetos corporativos. Entre os casos acompanhados pela empresa estão operações envolvendo Aperam, ArcelorMittal, Vallourec, Fundação Dom Cabral e Localiza.
. Nos últimos três anos, a corretora administrou aproximadamente R$ 40 milhões em indenizações destinadas a clientes. Apesar disso, a empresa afirma que a prioridade atual está menos na ampliação desse volume e mais na prevenção de perdas. “Nossa expectativa é que o volume de indenizações seja menor no próximo ciclo. Trabalhamos justamente para isso, por meio de uma atuação consistente em gerenciamento de riscos”, afirma Sérgio Frade.
. Para tanto, as instalações dos clientes são frequentemente avaliadas por equipes técnicas, em conjunto com as seguradoras, com foco na identificação de vulnerabilidades e implementação de melhorias que reduzam a ocorrência de sinistros.
. Ao mesmo tempo, a expectativa da Solutions é de crescimento da base de clientes, sustentado pela experiência acumulada e pela confiança construída ao longo dos anos. “Esse é um dos pilares do nosso negócio. Atuamos de forma consultiva, com foco na gestão de riscos e na proteção de empresas e pessoas. Acreditamos que o crescimento está diretamente ligado à capacidade de entregar segurança e previsibilidade aos clientes, especialmente em um ambiente cada vez mais complexo”, diz Frade.
Ele avalia que a estratégia acompanha uma tendência mais ampla do mercado, que passou a incorporar gerenciamento de riscos, monitoramento técnico e mitigação de vulnerabilidades antes da ocorrência de sinistros. “Em um cenário de mudanças climáticas, digitalização e aumento da complexidade operacional das empresas, o seguro amplia participação em decisões ligadas à continuidade de negócios e proteção de investimentos”, afirma o empresário.