Toia, diga-se, é um exemplo vivo do poder transformador da arte. Ela, que chegou a se enveredar pela arquitetura, hoje colhe os frutos de ter vislumbrado a possibilidade de um turning point. Dois momentos recentes atestam o quanto a decisão de mudar de rota foi acertada. Aberta em agosto do ano passado, na celebrada Galeria MITS (SP), capitaneada por Roger Supino, a primeira individual da artista – intitulada “Velha Roupa Colorida” – teve todas as obras adquiridas já no vernissage. Ou seja, a mostra seguiu o período expositivo previsto, mas já com o novo destino dos trabalhos devidamente acertado.
. Este ano, veio um salto ainda mais impressionante. Ao acompanhar o début da MITS na recente SP Arte, um dos eventos mais visados do mercado, o feito se repetiu: todas as obras de Toia levadas à feira foram prontamente vendidas. Não à toa, a mineira – radicada em São Paulo desde a adolescência - se rendeu às evidências de que é o momento de investir em um ateliê próprio.
. Nele, pretende dar sequência à vertente que, no momento, fala mais alto ao coração: o das esculturas, que, no caso dela, têm como principal suporte o tecido, bordados e retalhos. Mesmo não sendo simétricas, Toia as associa a mandalas, e suas formas, segundo a artista, emergem de um processo que tem a meditação como ponto de partida.
. Fada madrinha
Não há como repassar a trajetória de Toia Tostes sem citar a influência de Sonia Gomes, artista mineira cujo nome até mesmo aqueles não muito enfronhados no universo das artes sabem ser o de um dos mais respeitados da contemporaneidade. “Costumo dizer que Sonia Gomes é um anjo que veio à terra, tanto pelo trabalho quanto pela pessoa que é”, diz Toia. “Por isso, quando vou falar dela, encho a boca. Essa mulher... Nossa, salvou a minha vida”, diz, emocionada.
. Toia conheceu Sonia Gomes assim que se mudou para São Paulo por meio da tia, que era amiga da artista e costumava promover reuniões em torno da tradição da feijoada. “Nesses encontros, a Sonia sempre me dizia: ‘Menina, você é artista, não pode deixar de fazer’. E eu argumentava: ‘Mas fazer o quê, Sonia?’”, rememora. Ao que a consagrada artista retrucava: “O que quiser! Pintar, desenhar, bordar... Só não deixe nunca de produzir.”
. Mesmo com um incentivo desse calibre, na hora de prestar vestibular, Toia acabou optando pela arquitetura, mesmo tendo tido a oportunidade de fazer o IB Arts. Mas intuía que não seria por ali que conseguiria dar vazão à força e à criatividade que intencionava colocar no mundo.
. Nesse momento de muitas indagações, resolveu organizar um grupo para visitar o ateliê de Sonia. Na sequência, veio o insight de pedir para passar uns tempos no local, agora como observadora e aprendiz. Deu certo.
. “Sonia foi abrindo a minha cabeça para algo que eu desconhecia de todo. Ela foi me descortinando um lugar que, na verdade, internamente eu reconhecia, mas, até então, não de modo claro”. E, assim, a ideia de deixar a arquitetura passou a habitar sua mente, ainda que hoje ela enxergue o legado de sua passagem pela faculdade.
. “Velha Roupa Colorida”
Antes ainda de trancar a matrícula, Toia passou a se envolver com a ousada proposta da MITS Galeria, criada em 2023 por Roger Supino e Guilherme Giaffone – hoje, apenas o primeiro está à frente da iniciativa, que incentiva não só artistas da nova geração, como jovens interessados em colecionar arte.
. “Veja, eu seguia cursando arquitetura, mas já entendia, em mim, a tal ‘alma de artista’ – só não tinha, ainda, a coragem”, confessa. Atuar nos bastidores foi a solução encontrada. Assim, quando a MITS resolveu montar uma exposição do artista Pegge, por exemplo, lá estava Toia, atuando freneticamente nos bastidores da produção.
. Encerrada a mostra, ela recebeu um telefonema divisor de águas. “Agora é a sua vez”, disse, do outro lado da linha, Roger Supino, “intimando” (no melhor dos sentidos) a amiga a expor as próprias obras na galeria. E, daí, o dilema passou a ser o que levar para o espaço. “Eu tinha dois, três meses para produzir”, relembra ela. O primeiro movimento foi garimpar memórias de família e agregá-las às pinturas. “Só que, em dado momento, vi que não era aquilo”, relembra.
. Faltando apenas um mês e meio para a exposição, uma centelha se acendeu. E, assim, a moça tratou de resgatar desenhos seus, transformando-os em base para construir peças com tecido – material que, afiança, permite um leque de possibilidades. Foram noites e noites sem dormir, mas o tour de force compensou. “No dia da abertura, vendemos tudo (sete peças), foi uma loucura. No final, o Roger chegou para mim e disse: ‘Você sabe que bateu todos os recordes da MITS, né?’”, orgulha-se. “Foi um início muito forte”.
. O nome “Velha Roupa Colorida” veio do uso de peças pessoais (“roupas minhas, gravatas do meu pai, lenços da minha avó”) como matéria-prima, num movimento de repurpose de coisas “que são nossas, mas que às vezes não estão cabendo mais na nossa vida”. Viraram, pois, amuletos vivos.
. Encerrada a individual, Toia se dedicou a organizar sua produção, até que, no início de abril, se concentrou nas peças que estariam no stand da MITS na SP Arte – o evento foi realizado de 8 a 12 de abril no Pavilhão Bienal. Mais uma vez, êxito de vendas, com uma entrada consistente das peças em coleções particulares, o que ratifica a aceitação do trabalho. “E, agora, estou neste momento pós-feira, no qual pretendo tentar uma residência artística (em SP ou fora) ou participar de uma coletiva com outros artistas jovens”. Ninguém duvida que outros trunfos aguardam essa irrequieta artista.