Revista Encontro

Depoimento

Natália Vasconcelos transforma fé, família e esporte em propósito

Empresária, arquiteta e maratonista compartilha a trajetória marcada por empreendedorismo, maternidade, espiritualidade e os objetos que contam sua história

Lilian Monteiro
Natália Vasconcelos em casa, rodeada das suas cachorrinhas: Zazá, Lua e Mel - Foto: Walisson Queiroz/Divulgação
Algumas pessoas inspiram pelo que conquistam. Outras, pela forma como escolhem viver. A belo-horizontina Natália Vasconcelos, a Naty, reúne as duas características. Empresária, arquiteta, criadora de conteúdo, esportista e palestrante, ela transformou sua história em um convite ao autoconhecimento, à fé e ao empreendedorismo feminino. Mas, antes de qualquer título, faz questão de definir quem sustenta todas essas versões: “Sou a Natália, uma pessoa intensa e com responsabilidade. Sou cristã e a fé em Deus é a base de tudo na minha vida. Sou mãe do David e do Daniel, esposa do Alexandre e empresária.”
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A afirmação sintetiza uma identidade construída muito antes da vida pública. Criada em uma família que, segundo ela, prima pela coerência entre o que se vive dentro e fora de casa, Natália atribui à infância os valores que ainda orientam suas escolhas. “Eu tive o privilégio de ter nascido numa família que sempre viveu em paz, com alegria e verdade. O que eu via nos meus pais fora de casa era exatamente o que eles eram dentro de casa.” A relação com a mãe, Adriana Vasconcelos Oliveira, é marcada por profunda admiração e tem a cumplicidade intensificada pelo trabalho. Elas comandam a A. de Arte, empresa especializada em iluminação que nasceu há 38 anos na capital. Do pai, Eloi Oliveira, reconhece em si características herdadas, como a sensibilidade, a reflexão e o gosto por filosofar.
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A igreja e o esporte marcaram sua formação. Quanto à religiosidade, Natália afirma que “a fé é como nosso músculo e precisamos exercitá-la diariamente. Quando passamos por momentos difíceis na vida, temos de ter estoque de fé, mas muitos a buscam na hora que o furacão chega. Quando falo em religiosidade, eu me preocupo em me relacionar com Jesus; não enxergo como uma religião cheia de regras e compromissos. É algo muito além. Trago Deus no meu dia a dia e não o coloco em uma caixa sagrada e distante, que busco quando preciso. Assim, ao orar, pedir, agradecer e ter sinais, vejo o cuidado de Deus com a nossa vida.”
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Ainda adolescente, Naty descobriu na corrida uma paixão que ultrapassaria a prática esportiva. Aos 15 anos, começou a correr na esteira da academia enquanto esperava a mãe buscá-la. Poucos anos depois, disputava sua primeira maratona. Hoje, enxerga a modalidade como um espaço de foco, meditação, contemplação, superação e fortalecimento emocional. “A Naty maratonista é a Naty mais legal que tem. É na corrida, na roupa de ginástica, ao ar livre, na natureza ou na rua, que eu vejo que a alegria é simples.”
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Mais do que condicionamento físico, Natália define o esporte como um ponto de equilíbrio para todas as áreas da vida. “É esse combo de autoestima, conexão com Deus, espiritualidade, superação, foco, contemplação, meditação e mindfulness. É meu combustível para todos os outros papéis. Eu sou muito mais legal porque eu corro.”
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A intensidade aparece também na forma como conduz a família. Casamento, maternidade e carreira não são compartimentos separados, mas dimensões de uma mesma identidade. Em vez da busca por um equilíbrio perfeito, prefere reconhecer prioridades. “As coisas não têm a mesma relevância. Os meus filhos sempre terão um peso maior, meu marido sempre terá um peso maior. Talvez eu não consiga equilibrar tudo no mesmo dia, mas consigo pensar no equilíbrio ao longo das semanas.”
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A maternidade, sonhada desde cedo, é encarada como legado. Ela conta que sua maior dedicação está na formação dos filhos. Antes mesmo das conquistas acadêmicas ou profissionais, para a empresária existe uma prioridade inegociável: “O que mais me preocupa é o caráter. Se isso não for construído na primeira infância, depois é difícil corrigir. Estou sempre atenta.” Além de “transmitir a fé cristã desde a infância”. É também por isso que Natália rejeita um sentimento recorrente entre muitas mães: “Eu não sinto culpa. O que eu sinto é saudade. A culpa vira um fardo que a gente não consegue superar. A saudade, a gente mata”.
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A corredora destaca a mineiridade em suas raízes e a vê como um modo de viver: “As montanhas de Minas, a natureza, esse ar bucólico, essa tradição de reunir a família, a criação simples. Para mim, esse é o ouro que o mineiro tem.” Natália diz preservar tradições que considera essenciais, que representam convivência e constroem vínculos. “Estar à mesa, para mim, de fato, é um valor. Estarmos juntos nas refeições, orar antes. Acredito que, na mesa, se aprende, ensina e escuta. É um espaço de intimidade familiar.”
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A escrita é outra faceta da empresária e surgiu de maneira inesperada. Durante a infância, enfrentou episódios de gagueira — principalmente nas provas orais na escola — e encontrou no escrever uma forma mais confortável de se expressar. Anos depois, essa habilidade ganhou espaço nas redes sociais por meio das #FilosofadasDaNath, série de reflexões sobre comportamento, espiritualidade e propósito. O projeto pode dar origem a um livro em breve.
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Entre as ideias que orientam sua maneira de viver, uma costuma surpreender ao pensar na finitude: “Pensar na morte é a forma mais sábia de saber viver”, destaca, parafraseando o norte-americano e cofundador da Apple Steve Jobs. Para ela, reconhecer a fragilidade humana traz clareza sobre o que realmente importa e urgência para viver com autenticidade e sabedoria. “Quando entendemos nossa fragilidade, tudo muda. A gente fica mais humilde, não perde tempo, não quer prolongar coisas ruins. Tem pressa para viver de uma forma legal e estar em dia com a vida. Tenho esta sede.”
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Essa compreensão tornou-se ainda mais profunda depois de enfrentar um câncer de tireoide, um episódio de surdez súbita e, mais recentemente, o diagnóstico de psoríase. Apesar do otimismo, percebeu que o corpo também expressa aquilo que as emoções silenciam. “Apesar de eu ser uma pessoa extremamente otimista, o nosso corpo sente. Eu absorvo muito para mim. E isso me gera ansiedade e angústia que vou acumulando sem perceber.”
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Em busca de uma rotina mais leve, escolheu trocar o ritmo urbano por uma casa cercada pela natureza, mudança que descreve como um reencontro com a própria espiritualidade. “Como cristã, acredito que Deus criou a gente para morar num jardim. Voltar a morar no jardim, no meio do mato, me conectou ainda mais a Deus e me encheu de paz”, finaliza.
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Os objetos com significados

“A casa da minha avó me marcou muito”
 
- Foto: Walisson Queiroz/Divulgação“Estas louças azul-borrão inglesas guardo com carinho; elas foram da minha bisavó Amália. Tive minhas bisavós até meus 16 anos e convivi muito com elas. Vovó Amália era neta do barão de Piumhi, herdou muitas louças da família, era apaixonada por casa e decoração. O lar dela era impecável, até ela completar 105 anos! A casa dela me marcou muito.”
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“Bolos de aniversário representam ritos de passagem”
 
- Foto: Walisson Queiroz/Divulgação“Guardo com muito carinho o topo do bolo do aniversário de 1 ano dos meus dois filhos. Eles tiveram comemorações nas quais eles e a Zazá, nossa cachorrinha, foram os personagens. Adoro bolos temáticos. Para mim, eles representam ritos de passagem na vida. Por isso, guardo esses topos com muito afeto para relembrar o 1 aninho de cada um.”
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“Presente precioso”
 
- Foto: Walisson Queiroz/Divulgação “Minha avó materna, Oma, é neta de alemães, então a casa dela é como uma de boneca. Ela fez bordados maravilhosos e tudo é muito decorado. Foi ela quem bordou esse paninho, que minha mãe emoldurou recentemente e me presenteou.”
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“A tela pintada pela minha avó é uma forma de tê-la comigo”
 
- Foto: Walisson Queiroz/Divulgação“A tela Noturno foi pintada pela minha avó paterna, Sara Ávila, uma grande artista plástica, aluna de Guignard. Ganhei como presente de casamento do meu tio e do meu avô. Ela faleceu em 2013. Essa série, ‘Noturnos’, foi concebida quando ela se mudou para o Belvedere e se inspirava na vista de BH. Éramos vizinhas, e ela me levava para ver os quadros que estava pintando, pedia para eu reconhecer alguns prédios da cidade na pintura... Era muito legal e me marcou. O artista é eternizado pela sua obra. E a tela é uma forma de ter minha avó comigo. Sinto muita saudade.”
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“Cada medalha representa uma fase da minha vida”
 
- Foto: Walisson Queiroz/Divulgação“Essas medalhas conquistadas em maratonas foram obtidas em fases diferentes da minha vida e cada uma carrega uma história única. Olhar para elas, mais que me lembrar de pace (ritmo na corrida) e sucesso, é relembrar de como estava a minha vida quando as completei.”
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“Meu filho aprendeu as cores olhando este patinho”
 
- Foto: Walisson Queiroz/Divulgação “Ganhei uma jarra de pato do meu marido, e tenho lembranças do meu filho aprendendo a falar as cores com esse pato. Virou algo muito especial para mim. Ano passado, infelizmente fui roubada, levaram quase tudo o que eu tinha da família. Mas, durante a mudança, encontrei o pato escondido numa caixa. Não deu tempo de ser levado… Era tão especial para mim que Deus protegeu (risos).”
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“É lindo perceber o nosso ser pelo olhar de quem nos quer bem”
 
- Foto: Walisson Queiroz/Divulgação“No último Dia das Mães, tinha falado com meu marido sobre um presente que queria, mas, no dia em que ele foi comprar, a loja estava fechada. Ele me ligou, eu disse que não tinha problema e, como estava com os meninos, pedi que os deixassem escolher o que quisessem me dar. E eles escolheram um cachorrinho de porcelana. Foi muito especial e mais importante que qualquer presente que eu poderia ter escolhido ganhar. Eles viram o cachorrinho e se lembraram de mim. Agora, eu vejo o cachorrinho e me lembro deles. Ganhei uma joia e, para mim, ele sempre será precioso. Presentear, antes de tudo, é uma linguagem de amor. Essa é a essência que precisamos resgatar. Este é o meu tipo de tesouro. É lindo perceber o nosso ser pelo olhar de quem nos quer bem. Meu cachorrinho está na minha cristaleira dos bens mais preciosos.”
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“Vivi uma experiência que considero sobrenatural”
 
- Foto: Walisson Queiroz/Divulgação “Quando comprei minha casa, vivi uma experiência que considero sobrenatural. Reencontrei uma colega de infância, com quem eu não mantinha contato há anos, justamente a partir de uma coincidência envolvendo sonhos mútuos que tivemos sobre o momento em que eu buscava um novo lar. Ao adquirir o imóvel, que ainda era ocupado pela avó dessa minha amiga, fiz questão de conversar com ela para conhecer a história de cada detalhe da residência e decidir o que preservar. Ao perguntar sobre este vitral, ela me explicou que não havia um simbolismo específico: foi uma encomenda feita por seu falecido marido a um artista. No entanto, ao observá-lo, ela comentou que a figura retratada se parecia muito comigo, sugerindo que, de certa forma, eu já deveria estar predestinada a este lugar. Naquele momento, achei o comentário gentil, mas ainda não tinha uma opinião formada sobre a peça. A decisão de mantê-la veio quando meus filhos visitaram a propriedade pela primeira vez. Ao verem o vitral, que retrata uma mulher loira de cabelos ondulados, meu filho mais novo perguntou naturalmente se aquela era eu. Diante daquela coincidência, entendi que a obra era mais um sinal de que esta casa deveria, de fato, ser nossa. Desde então, ele se tornou um elemento muito especial e significativo para mim.”
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A BH que eu amo
 
Pedimos para Natália Vasconcelos listar seus cantos e passeios prediletos na cidade. Confira:
  1. Botânico Shopping: “Adoro. Um mall a céu aberto charmoso, seguro, onde faço e encontro tudo o que eu gosto. O Botânico tem um projeto bacanérrimo assinado pelo arquiteto David Guerra, um paisagismo maravilhoso, vários restaurantes voltados para a família, encontros de amigos e happy hours.”
  2. Avellan Confeitaria: “Um charme, e tudo ali é lindo e gostoso. Tem mais de 30 anos de mercado e mantém as tradicionais receitas da dona Gilda, avó dos proprietários. É um espaço tanto para um almoço rápido nos dias de semana quanto para lanches e eventos mais sofisticados.”
  3. Praça da Liberdade: “BH tem praças lindas, mas amo a da Liberdade porque mistura história com os jardins, a cultura e a arquitetura, como a do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). E estou sempre atenta às atividades culturais para levar meus filhos também.”
  4. Bairro de Lourdes: “Gosto do bairro pelo charme e por ter vários restaurantes tradicionais que adoro, como o D'Artagnan e o Taste-Vin, dois ambientes sofisticados que nos deixam muito à vontade. E o menu é tiro certo: tudo é delicioso.”
  5. Minas Tênis Clube: “Temos muita história com o clube. Meus pais se conheceram no Minas. Meu pai foi jogador profissional de vôlei e, hoje, é diretor no departamento de vôlei masculino. Vivi minha juventude no clube e foi lá que aprendi a amar a vida esportiva.”
  6. A capital: “O que mais amo em BH é termos tudo tão pertinho e, ao mesmo tempo, estarmos rodeados pela natureza. Amo nosso mar de montanhas. Poder viver o agito e descansar no mato ao mesmo tempo é um presente. E adoro o jeito belo-horizontino de viver.”

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