A lista de planos chega em um ano em que vem lidando com ecos experiências polares, ambas com potencial de marcar a biografia de um artista: o reconhecimento institucional e a perda. Em 11 de julho, Márcio tomou posse na Academia Mineira de Letras (AML), na cadeira de número 29, que tem como patrono é Aureliano Pimentel, tornando-se o primeiro letrista a integrar a instituição fundada por Lindolpho Gomes. Um mês antes, dia 10 de junho, chegou às plataformas “A Estrada”, disco que ele fez em parceria com o irmão Lô Borges, o primeiro lançamento póstumo do parceiro de sempre, morto em novembro de 2025 – cujo luto, Márcio ainda vive.
. - QUEM É: Márcio Hilton Fragoso Borges, 80 anos
- ORIGEM: Belo Horizonte (MG)
- CARREIRA: Letrista, escritor e um dos fundadores do movimento Clube da Esquina, ao lado de Milton Nascimento, Lô Borges e Wagner Tiso. Nascido Márcio Hilton Fragoso Borges, é autor da letra que dá nome à canção “Clube da Esquina”, parceria com Milton Nascimento e Lô Borges que também batizou o movimento musical mineiro.
- TRAJETÓRIA: Já assinou letras para músicas de Milton Nascimento, Beto Guedes, Elis Regina, Tom Jobim, 14 Bis e Nana Caymmi, entre outros. Publicou o livro “Os Sonhos Não Envelhecem – Histórias do Clube da Esquina” (1996) e, mais recentemente, o romance “8 Canoas Para o Céu – O Santo do Sertão”, escrito em parceria com a filha Helena Borges. É idealizador e diretor do Museu Clube da Esquina, em Belo Horizonte. Em 2026, foi eleito para a Academia Mineira de Letras, tomando posse na cadeira de número 29.
Nesta entrevista, o letrista, escritor e poeta fala sobre o paradoxal momento que tem vivido, encontrando-se entre a alegria pelo reconhecimento de sua trajetória artística e a angústia do enlutamento pela perda de um ente querido, relembra como foi o processo de concepção e gravação do último disco em parceria com o irmão, e olha para o futuro, revelando desejos, projetos e novas frentes de trabalho.
. ENCONTRO – Aos 80 anos, por seu trabalho desenvolvido ao longo de seis décadas, o sr. foi anunciado como o primeiro letrista a ingressar na Academia Mineira de Letras justamente por seu trabalho como letrista. O que essa escolha representa e o que ela diz, na sua avaliação, sobre o reconhecimento da canção popular como forma de literatura?
MÁRCIO BORGES – O reconhecimento do meu trabalho me enche de orgulho e me deixa satisfeito por ter conseguido . Agora, este reconhecimento da canção popular como forma de literatura é um fato que, na realidade, acontece desde antes de eu ter nascido. Sem querer penetrar na bruma dos tempos, com os Ovídios e Homeros da história, só de lembrar as figuras de Catulo da Paixão Cearense, os cantos e contos do Zé Coco do Riachão, as imortais letras de música do poeta Vinicius de Morais, para ficar só nesses três, a gente já vê que essa trilha é antiga e para lá de percorrida. Cito ainda um exemplo mais recente, um amigo de profissão e geração, o letrista, poeta, dramaturgo e escritor Geraldo Carneiro, meu querido acadêmico da Academia Brasileira de Letras, ocupante da cadeira 25 desde 2016, 10 anos antes de minha posse aqui na AML.
. O que ainda move sua escrita hoje? O que o sr. sente que ainda precisa ou deseja realizar?
Na verdade, são as duas coisas, celebrar e correr atrás. Adoro celebrar os fatos marcantes de minha vida, as canções que compus, os amigos que trouxe comigo pela vida afora. Gosto de ver as pessoas se emocionando com minhas coisas, mas o tempo vivido também traz essas responsabilidades renovadas, a consciência de que é mais fácil manter o equilíbrio continuando a pedalar do que tentando ficar imóvel sentado no selim. A consequência de ter feito é ter que continuar fazendo.
. Ao longo da vida, o sr. transitou entre poesia, letras de música, memórias e crônicas. Há algum gênero literário que ainda gostaria de explorar ou ao qual pretende se dedicar mais intensamente nos próximos anos?
Fora o livro de poemas bilíngues que está no prelo – “Discourses of The Lower Self / Discursos do Eu Inferior” –, com lançamento previsto para o final deste este ano, acho que ainda tenho um romance para escrever, sinopse que criei durante a pandemia, em 2021, e fui deixando para depois. Talvez retome aquela ideia, porque minha filha Helena, também escritora, se dispôs a me ajudar, como fez no recém-lançado romance de nossa autoria conjunta, “8 Canoas Para o Céu – O Santo do Sertão”. Além disso, tenho também nove canções inéditas, letras que criei para meu novo parceiro e amigo querido, o ator, compositor e intérprete Danilo Mesquita, um jovem baiano dos mais talentosos que vi. Assim que sobrar tempo na sua atribulada agenda de celebridade global, ele grava, sei disso.
. Hoje, olhando para essa trajetória, que une família, Clube da Esquina, arte, o que mais chama sua atenção. O que mudou ou o que permaneceu igual na forma como enxerga a criação artística?
Vai ser difícil contabilizar essas mudanças, porque mudou foi quase tudo. Me chama a atenção, antes de mais nada, a renovada capacidade do ser humano de se tornar cada vez mais alienado, numa involução inversamente proporcional à sua agilidade cada vez maior para usar os polegares. “Inútil Paisagem” é tudo se passa à nossa frente e a gente não presta atenção, olhos grudados numa telinha alimentada a bateria de lítio. No entanto, a inata criatividade dos artistas sempre atende àquela necessidade vital de dar à luz o novo; e este ímpeto sempre ultrapassa, mais cedo ou mais tarde, a planície das mediocridades reinantes.
. Além de passar a ocupar cadeira na AML, o seu aniversário também foi marcado pelo lançamento de “A Estrada”, disco inédito feito em parceria com Lô Borges. Inevitavelmente, a obra parece ganhar novo significado após a morte dele. Como tem sido revisitar esse trabalho e acompanhar sua chegada ao público?
Isso provoca em mim emoções desencontradas, alegria e tristeza, realização e frustração, risos e lágrimas, palavras graves e outras impensadas. A nossa ideia era tirar umas férias da parceria, depois desse disco, darmos um tempo para eu reciclar minhas próprias ideias, porque as do Lô estavam permanentemente se reciclando sozinhas, virando canções, discos, singles, naquela cornucópia de caminhos, acordes e melodias que ele não parava de criar. Acaba que virou um ponto final e isso foi a coisa mais devastadora que me aconteceu na vida.
. O disco foi idealizado, em alguma medida, como uma homenagem aos seus 80 anos?
O disco, inicialmente, não foi idealizado como homenagem aos meus 80 anos, mesmo porque ele ficou pronto quase dois anos antes. Enquanto eu ainda fazia as letras de “A Estrada”, o Lô já estava com outros dois discos prontos, feitos com seus novos parceiros. Então, como faltavam ainda dois anos para meus 80, combinamos lançar “A Estrada” só depois dos discos que ele havia criado com outros parceiros, mais precisamente, no meu aniversário de 80 anos, ocorrido no dia 31 de janeiro. Então, foi mais um planejamento estratégico do que uma homenagem. Mas, para minha total infelicidade, meu amado irmão e parceiro não viu nem uma coisa nem outra.
. Como se deu esse processo de composição das letras? Partiu de conversas, temas sugeridos por vocês dois ou de músicas já prontas que você foi letrando?
Foi naquele tempo de pandemia e eu fiquei trancafiado em casa uns dois anos. Estava aproveitando o isolamento obrigatório, lendo e estudando matérias novas. Com 78 anos, eu não estava mais acompanhando o ritmo compulsivo do Lô, que continuava compondo duas ou três canções por semana, com sol e chuva. Falei isso para ele, e ele começou a buscar outros parceiros. Mas, nós combinamos, então, de fazer a saideira, antes de darmos o tempo que eu estava solicitando. Então imaginamos nossa vida de parceria, quase 60 anos compondo juntos, como se fosse uma longa estrada e criamos 10 canções para falar dela. Daí o tema “A Estrada”. A nossa vida, minha e do Lô.
. Em “A Estrada”, o sr. percebe alguma mudança na escrita ou na forma de diálogo criativo entre vocês, especialmente considerando a fase recente, muito produtiva, do Lô?
O que sinto ouvindo agora esse disco póstumo é que o Lô tinha alma de Peter Pan. Com mais de 70 anos ele continuou compondo, viajando e cantando como um jovem adolescente, até o fim. Muito eclético quando compunha, nessa época imediatamente pós-pandemia, ele estava embalado na guitarra e isso mudava o jeito da música dele. No piano, era uma levada; na guitarra, já era outra.
. Você chegou a acompanhar o processo final do álbum ao lado do Lô? Gravações, escolhas de arranjo, definição de repertório? Que memórias guarda desse momento de finalização?
Criamos o disco e sua estrutura narrativa juntos. Lô compôs as canções na guitarra e no violão, um pouco de piano e aquela levada roqueira. Escrevi sobre os temas que escolhemos juntos e dedicamos este trabalho aos nossos ídolos de juventude estradeira, Crosby, Stills, Nash & Young. Continuei em minha casa na montanha, o Lô voltou para BH e gravou com seus músicos de sempre. Disso eu nunca participava, salvo quando era jovem e produtor de fonogramas.
. A Academia Mineira de Letras vive um momento de renovação, incorporando nomes vindos de diferentes tradições culturais. O sr. pretende desenvolver algum projeto específico dentro da instituição ou defender pautas que a aproximem ainda mais do público?
Eu, como novato, estou lá mais para aprender. No meu discurso de posse, citei meu amigo Gonzaguinha exatamente para colocar “a beleza de ser um eterno aprendiz”. É como me sinto diante daquelas “feras” da cultura e intelectualidade. Não tenho sequer a pretensão de chegar lá com um projetinho debaixo do braço. As pautas que defendo e sempre defendi não dependem de instituições e, principalmente, não das que já brilham intensamente em solo nacional, como a AML, mesmo antes de eu ter sequer nascido.
. Aos 80 anos, depois de uma obra que atravessa gerações, como gostaria de ser lembrado: poeta, letrista, escritor, memorialista ou como alguém que ajudou a contar uma determinada história de Minas e do Brasil?
Já pensei muito nisso e até escrevi esses versos, uns 10 anos atrás. “Juntem meus pedaços/ Na lata. De cada cova dos olhos/ Nasçam flores/ De prata./ Espalhem minhas cinzas/ Ao vento./ Só meu amor deixem só/ No solitário/ Relento./ Ou podem contar/ Outra história:/ Era uma vez um poeta/ Que nunca perdeu/ A memória.”