Revista Encontro

Teatro

Benedita Casé traz "Surda" a BH em festival dedicado à cultura DEF

Festival Acessa BH chega à 6ª edição com cerca de 30 atividades e artistas com deficiência de seis estados brasileiros e do Reino Unido

Alex de Oliveira

Benedita Casé Zerbini na peça "Surda": atriz carioca, filha de Regina Casé, teve sua perda auditiva aos 4 anos e se descobriu atriz aos 35 - Foto: Rodrigo Menezes/Divulgação

Benedita Casé Zerbini cresceu cercada pelo teatro. A mãe, a atriz Regina Casé, fundou um dos grupos mais influentes do Rio de Janeiro nos anos 1970, o Asdrúbal Trouxe o Trombone, e boa parte de seus primos começou a atuar antes dos 20 anos. Ela, não. Nascida ouvinte, a artista teve uma pneumonia ainda bebê e uma dose muito alta de antibióticos ototóxicos a levou à perda auditiva. A atuação não era vista como uma possibilidade. “Qualquer área relacionada à comunicação era uma das últimas opções dentre as oportunidades que eu tinha por conta da surdez”, conta.

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“Depois, fui entendendo que talvez fosse um certo capacitismo da nossa parte — meu comigo mesma e da minha família também”, diz, sobre o fato de ter chegado à interpretação apenas em 2024, aos 35 anos, primeiro no cinema e depois no teatro.

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Agora, os palcos trazem Benedita a Belo Horizonte. Ela apresenta sua peça, “Surda”, durante a programação do Festival Acessa BH, que reúne atores, autores, diretores, dramaturgos e profissionais com deficiência no maior encontro dedicado à cultura DEF do país. Em sua 6ª edição, entre os dias 4 e 27 de setembro, o evento terá cerca de 30 atividades entre espetáculos, sessões de cinema comentadas, oficinas, rodas de conversa e lançamentos de livros, distribuídas por seis espaços culturais da cidade, reunindo artistas de seis estados brasileiros e uma companhia do Reino Unido.
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Escrita pela dramaturga Julia Spadaccini — que perdeu a audição de forma progressiva já adulta —, a peça acompanha os efeitos da deficiência nas relações afetivas, familiares e profissionais de uma mulher. Benedita, que recebeu o diagnóstico aos 4 anos e usa aparelhos desde então, interpreta uma versão da história que não é exatamente a dela, mas com a qual encontra paralelos. “A gente se encontra em muitos sentimentos comuns, especialmente a maternidade: a angústia de não saber se vai dar conta dos filhos, se vai ouvir ou não, se vai ser dependente o tempo inteiro de alguém”, afirma.
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Dirigida por Débora Lamm, a montagem tem intérprete de Libras em cena — a atriz cita a parceira Diana Dantas — e passou a contar também com legendagem em tempo real, recurso que, segundo Benedita, tem levado ao teatro um público que normalmente não domina a Língua Brasileira de Sinais ou perdeu a audição depois de adulto, sem ter aprendido o código.
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Conquista
 
Para Laís Vitral, idealizadora do Acessa BH e uma das curadoras, “chegar à sexta edição representa a confirmação de que o evento deixou de ser apenas um projeto para se consolidar como uma política de promoção da cultura DEF”. Ela comenta que, ao longo desses seis anos, a equipe de consultoria em acessibilidade cresceu para sete profissionais, e a organização passou a articular parcerias que antes precisava buscar ativamente. 
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“Se antes a gente tinha que pesquisar e buscar parceiros, esse processo se inverteu. Somos contatados o ano inteiro por artistas interessados em se apresentar no festival e por governos e instituições que querem estreitar relações e construir parcerias”, comemora Laís, citando também a chegada de grupos de outras cidades e estados — neste ano, por exemplo, a iniciativa recebe a apresentação de um coletivo de estudantes de teatro com deficiência auditiva do Mato Grosso.
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Destaques
 
Entre os destaques da programação, Laís lista a continuidade da parceria com a DaDa, organização britânica de artes para pessoas com deficiência com mais de 40 anos de atuação, e a companhia ZU-UK, iniciada em 2025. Nesta edição, a ZU-UK apresenta uma nova versão de “Encontro Romântico Binaural”, performance imersiva que já passou por cidades do Reino Unido, Macau e Colômbia. A atração chega a BH com gravações feitas especialmente para o público brasileiro, trazendo as vozes de Gregório Duvivier e Luciana Paes interpretando casais representados por bonecos Playmobil.
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A presença de artistas surdos, lembra a curadora, atravessa diferentes frentes da programação: Lyvia Cruz, que se comunica em Libras, apresenta “A Cangaceira Surda Mara”; Miriam Garlo, atriz surda vencedora do Goya de atriz revelação, protagoniza o longa espanhol “Surda”, exibido em sessão comentada; e o espetáculo bilíngue “Da Janela”, que encerra o evento, é descrito pela equipe como uma síntese da ideia de acessibilidade como linguagem de criação, e não como mera adaptação. 
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Ao lado de Benedita, Laís cita ainda o diretor Pedro Neschling, de “Baixa Sociedade”, como parte de um grupo de artistas que se identificam como “surdos que ouvem” — pessoas com perda auditiva que se comunicam oralmente. Na seara da literatura surda, a programação conta com o lançamento do livro “O Boi que Aprendeu Libras”, do consultor do evento Ademar Alves Jr.
 
Por fim, ela destaca também, na abertura, dois espetáculos do grupo potiguar Movidos Dança: “SER(tão)”, dirigido pelo coreógrafo Mário Nascimento, e “Nuvem de Pássaros”, de Anderson Leão.
 
Serviço
Festival Acessa BH. De 4 a 27 de setembro, em diversos espaços de Belo Horizonte. Confira programação completa em acessabh.com.br
 

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