Revista Encontro

Perfil

Com quase 40 anos de pediatria, dra. Filó faz da medicina uma missão

Filomena Camilo do Vale, a dra. Filó, revela como medicina, ciência, espiritualidade e humanidade se encontram na tarefa de acolher as pessoas

Lilian Monteiro

Dra. Filó na sala de vistas de sua casa: médica por vocação e uma das evangelizadoras mais seguidas nas redes sociais, ela é também autora de três livros sobre a fé - Foto: Pádua de Carvalho

Há quatro décadas, Filomena Camilo do Vale aprendeu que nem todos os milagres acontecem da forma como esperamos. Alguns chegam na medicina. Outros, no silêncio de uma oração. Pediatra, intensivista, professora, palestrante, autora e voz católica influente no Brasil, a doutora Filó, como é conhecida, tem 65 anos. Mineira de Oliveira, casada com o engenheiro eletricista Anselmo Antônio Castro de Carvalho, mãe de Lívia e avó de Felipe, de 9 anos, e Lucas, de 3, ela amplia seu consultório para livros, palcos e redes sociais, cenários em que cuida, trata, orienta e conversa com milhões de pessoas sobre crianças, adolescentes, famílias, saúde mental, esperança e fé. Trata-se de uma médica que constrói sua trajetória unindo ciência e espiritualidade, razão e afeto, técnica e humanidade.

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Desde sua última grande entrevista para Encontro, em 2018, o mundo atravessou uma pandemia, viu crescer o movimento antivacina, mergulhou ainda mais nas redes sociais e passou a discutir, com certa urgência, a saúde mental de crianças, adolescentes e famílias. Nesse novo cenário, em 2026, dra. Filó continua fazendo o que sempre fez: cuida das pessoas. Só que agora sua voz foi ampliada, alçou voo para além do hospital e do consultório. São 1,4 milhão de seguidores no Instagram; 721 mil inscritos no canal do Youtube e 236 mil seguidores no Facebook. Fora os milhares de leitores, não contabilizados, assim como o número de exemplares vendidos, dos três livros que lançou: Uma Lição de Fé e Não Se Esqueça de Deus, ambos de 2023, e Deus Não Se Cansa de Amar, o mais recente, de 2025.
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Em 2018, dra. Filó já abordava a questão do acesso à pornografia em idades tenras, as doenças mentais, como pânico, depressão, anorexia na infância, os baixos limiares de frustração dos jovens, a falta de noção dos pais do que se passa com os filhos enquanto estão pretensamente “seguros” dentro do quarto, tema retratado em 2025 na série Adolescência, da Netflix. Neste 2026, dra. Filó revisita o que pensava e previu há quase uma década, reforça os temas do presente e projeta o futuro da saúde do corpo, da mente e da alma. Ela ainda alerta sobre a formação médica, questão que a inquieta, e debruça-se sobre sua história e trajetória, que vê como missão de vida. 
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O começo de tudo

Filha de Sebastião Vale, professor de matemática, bancário e ex-vereador, e de Maria Celeste Camilo do Vale, mãe dedicada à casa, Filomena cresceu em uma família mineira de quatro filhos. Maria Inês, a irmã mais velha, é professora aposentada e hoje atua com design de moda; Giovanni é advogado; Jaqueline é odontopediatra e trabalha com a médica. Criada para casar e ser mãe, a dra. Filó aprendeu a cozinhar, costurar, bordar e cuidar da casa. Mas, rompeu com o roteiro esperado e decidiu estudar medicina. Formou-se pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais (FCMMG), com residência médica em pediatria pelo Hospital da Baleia e em cardiologia infantil pela Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte. Tem mestrado em saúde da criança e do adolescente pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e atuou por 35 anos como médica diarista do CTI pediátrico da Santa Casa de BH. Em 2023 passou a ocupar outro cargo: é a coordenadora do Instituto Materno Infantil da Santa Casa.     
 
A decisão de sair do interior, de Oliveira, na região Centro-Oeste de Minas, para morar sozinha em Belo Horizonte, não foi simples. Viveu em uma república e depois em um pensionato de freiras, mantendo contato com a família uma vez por semana, por telefone. Formada em 1986, ela completa 40 anos de pediatria em dezembro de 2026: “Não foi um rompimento tranquilo. No fim, minha família me respeita muito e todos viram minha seriedade, dedicação e compromisso com a medicina”, diz.
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A fé também atravessa sua história: “Fui criada rezando”. Devota de Nossa Senhora desde a infância, participou da coroação todos os 31 dias do mês de maio até os 15 anos. Filó conta que, durante a residência em pediatria no Hospital da Baleia, fez um trato com Jesus: “Cuidaria dos pobres”. Ela recorda que, quando chegava a Oliveira, os moradores faziam fila na porta da sua casa em busca de ajuda. Sem central de leitos na época, ela mantinha um caderninho com nomes e necessidades de cada um e os trazia para tratar em BH. Além de atender os pacientes na sala da casa e no hospital da cidade, época em que recebeu uma proposta financeira de alto valor para permanecer em Oliveira. 
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Até tomar sua decisão, a médica revela que passou muitos dias rezando, em missa, rosário e jejum, tentando compreender qual seria o caminho. Durante uma reunião em que lhe apresentaram quanto ganharia, lembra que sentiu “o coração fechar”. Sua decisão foi simples: “Não”. “Até gosto de dinheiro, mas devo obediência ao meu Pai do Céu”. Foi assim que construiu sua carreira em Belo Horizonte. Para ela, a receptividade médica foi aprendida em casa, numa família via a dificuldade e a dor daqueles que não tinham condição nenhuma: “Fui criada numa casa que sempre acolhia os pobres. A luta era vir para BH e conseguir uma consulta. Então, aprendi a acolher como na minha casa, que se dava comida, escuta e tentava resolver os problemas, ajudar. Sigo fazendo o que aprendi em família”, diz.
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Sua escolha pela pediatria também vem de um sonho de criança. Ela lembra que sua mãe lhe contou que, ao nascer, o obstetra disse: “Nasceu uma médica”. E também conta que sua mãe lhe disse que, aos 2 anos, brincando de boneca, falou: “Vou cuidar de neném doente”. E, na adolescência, quando uma professora pediu que os alunos escrevessem no quadro o que seriam, ela foi a única a registrar: “Serei médica”. E logo completou: “Vou ser pediatra”. 
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Para Filó, a pediatria é a especialidade “mais brilhante da medicina, porque ela é a construção do ser.” A criança, diz a médica, “nos reconecta com a parte mais terna e pura da vida e até a forma de ela viver o sofrimento é diferente do adulto. A criança me ensina a pureza, a simplicidade e a confiança”. O trabalho de décadas como médica intensivista em CTI pediátrico acrescentou outra lição para Filó: “A consciência da finitude”. Diante de crianças gravemente doentes, ela aprendeu a não adiar o essencial: “Eu tenho hoje para viver”. Por isso, ela avisa que “é preciso viver bem as relações agora, amar agora, abraçar agora e dizer ao outro que ele é importante agora. O tempo é muito curto”, completa.
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Vivência que dra. Filó compartilhou com o ator global Juliano Cazarré, que a convidou para uma live em seu Instagram, com 4,8 milhões de seguidores, em agosto deste ano, onde conversaram sobre fé, Deus, sofrimento, esperança, casamento. O ator se emocionou com a médica e falou sobre a filha, Maria Guilhermina, que nasceu com uma rara cardiopatia congênita, a anomalia de Ebstein, e precisou fazer cirurgia ainda no primeiro dia de vida: “A fé foi o que nos ajudou a passar com serenidade por tudo”, afirmou. Ao refletir sobre a experiência, ele diz ter trocado a pergunta por quê? por outra: “O que Jesus quer que eu aprenda com isso?” Cazarré ouviu da dra. Filó que Maria Guilhermina “é o anjo da casa” e que “o sofrimento é um mistério, nos cabe acolher”. Nos comentários da live, os seguidores deixaram mais de 2 mil registros, como os de kvieira15 que escreveu “a @drafilooficial resgata almas a todo instante. Resgata a minha sempre”; já anapauladgnog disse “a intimidade da @drafilooficial com o Senhor, é linda! Que Deus continue abençoando a vida dela para que continue sendo instrumento de fé!”; e celma.bs completou “Doutora Filó, doutora de corpo e de alma!”.
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Em suas lives, ela conta como viveu, no CTI, experiências que reforçaram sua fé e teve certeza “de que a vida não se encerrava ali”. Então, para a pediatra, “cuidar das crianças é vivenciar com elas os milagres”. E saber que a morte faz parte da vida e que existe uma vida antes da morte. Na conversa com Cazarré, a pediatra revelou uma surpreendente conversa, entre tantas que teve com as crianças no CTI da Santa Casa, no momento crucial da vida delas: “Um dia, estava com um menino, acho que com leucemia, e ele me disse: ‘Tia Filó, você viu quem chegou?’ Respondi: ‘Não, meu bem, não vi’. E ele perguntou: ‘Não está vendo?’ Apontando os dedinhos, falou: ‘Aqui está ficando cheio de anjos’. Na hora disse para a enfermagem que ele ia parar e me questionaram. Os anjos chegaram, falei. Não conseguimos reanimá-lo e ele voltou para casa bem acompanhado”. O desafio, ela ressalta, é “como vou viver essa vida antes de ser chamada de volta para casa”. A médica lembrou que sua missão não era questionar o sofrimento, “mas acolher, aliviar e acalentar, colocar no colo aquele que sofre e ajudar os pais a ficarem de pé”. 
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Ciência, fé e propósito

A medicina foi se transformando em missão à medida que amadureceu. Para dra. Filó, não teve um marco, mas o trabalho tomou outra dimensão. Para ela, ser médica sempre foi “o grande desafio de atender uma criança crítica e pô-la de pé, com saúde para correr e brincar. É o que me movia e não tem preço”. O que a fez compreender que a medicina era “meu dom” e que o médico é só “a extensão da misericórdia de Deus”. Esse respeito é sentido ainda mais, conforme dra. Filó, com a criança que depende do Sistema Único de Saúde (SUS), “que não teve o direito de escolher seu médico e precisa ser grato a quem o atende. Os pais entregam o maior tesouro de suas vidas e precisavam confiar naquele profissional que nunca tinham visto”. Para ela, o trabalho médico é uma obra de misericórdia: “Estive doente, cuidaste de mim”, como está nos Evangelhos. 
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Atenção recebida por Sandra Rabelo da Silva, mãe Erick Rabelo Vasconcelos, de 23 anos, paciente da dra. Filó e moradores de Contagem. Ela contou que Erick nasceu com a alça intestinal junto com o cordão umbilical, em agosto de 2003. No dia seguinte, ele foi transferido ao CTI da Santa Casa, onde ela conheceu a dra. Filó: “Confesso que de cara não gostei muito dela, porque me falou tudo que meu filho tinha e eu, como mãe, não gostei de ouvir. Erick tem paralisia cerebral. Mas, com o passar dos meses, eu me conectei com essa profissional maravilhosa que cuida do Erick até hoje”.  
 
Para a dra. Filó, ciência e fé não têm de disputar espaço: “A ciência tem seu caminho, não precisa da fé. A fé tem o seu caminho, não precisa da ciência. Mas, a ciência e a fé são duas asas de que nós, seres humanos, precisamos.” Para ela, o médico deve oferecer o melhor que a ciência tem, independentemente de o paciente ser do SUS, particular ou convênio. Tem de dar o diagnóstico correto e trazer o melhor tratamento que a ciência tem, esse é o compromisso. No entanto, a técnica não pode excluir o afeto: “Não é a pneumonia que eu estou tratando. Estou tratando a Maria que tem pneumonia. Esse cuidado é delicadeza. A vida sem carinho, sem ternura, não sobrevive”, diz. Num mundo de inteligência artificial e medicina cada vez mais tecnológica, dra. Filó defende a evolução, que deve ser aplaudida, destaca a cirurgia robótica, mas alerta que nada substitui olhar no olho, segurar a mão e estar ao lado do paciente e dizer: “‘Estamos aqui com você, vamos te ajudar a passar por isso’”. Para a médica, a fé é parte da construção humana, portanto, das famílias e das crianças. “Se a criança vê um pai e uma mãe ajoelhados, rezando, vai saber que ali é o caminho”. É valor ensiná-la que Deus é bom, amigo, fiel, que ele acolhe, abraça e ninguém a ama mais. E que Deus não é juiz. “E não tem de ir à igreja, precisa, sim, alimentar-se daquele que o sustenta. É tão diferente”, destaca.
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É nas famílias, porém, que dra. Filó identifica algumas das maiores dores do presente. Ela percebe que elas estão mais sofridas, medicadas, entristecidas e correndo demais: “Estão em um nível de ansiedade e cansaço em que não vejo mais leveza”. A médica diz que, se antes a puericultura estava mais concentrada em alimentação e cuidados, agora as consultas são frequentemente atravessadas por questões comportamentais: “Lamento ver as crianças com sinais de pânico, estresse, ansiedade e depressão”. Por isso, a pediatra afirma que a sociedade encara “o século neuronal”. Ela diz que o mundo mudou e o sofrimento das pessoas está posto no século XXI. “O importante é ter o diagnóstico correto e saber o que tem gerado este processo”, diz.
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A médica se preocupa especialmente com o uso de medicamentos controlados para crianças e avisa que a questão da medicação não está concentrada em uma classe. Hoje, é um problema da infância, presente tanto em quem tem alto poder aquisitivo quanto em quem vive a falta de acesso: “O Brasil tem, hoje, uma liderança lamentável, que é a prescrição de tarja preta para criança”. Para dra. Filó, é necessário entender o que tem gerado tanta ansiedade e sofrimento. E o modo como os pais se tratam e a maneira como conversam com os filhos são indicadores. 
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Ao lado do frei Gilson, em março deste ano: dra. Filó foi convidada pelo sacerdote para o rosário, transmitido nas redes sociais com mais de 332 mil visualizações no Instagram do religioso - Foto: Instagram/ReproduçãoUma cena simples resume sua preocupação: “A família já não encontra tempo para sentar à mesa. Olhar nos olhos dos filhos, sonhar e conversar de coisas que não sejam só subsistência.” Quanto aos adolescentes, a atenção da dra. Filó se concentra na necessidade de os pais os fazerem saber que são amados e que suas vidas têm um desígnio. A falta de propósito é a doença de que a médica mais tem medo. “Porque ela é silenciosa. Falo com o adolescente que o vazio interior, aquele desconforto que não sabe explicar, que não passa se tomar remédio ou água, é perigoso. De repente, o deixa deprimido, não vê sentido em nada e daqui a pouco perde a noção de tudo e pode vir o suicídio”, alerta a pediatra. 
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Os futuros médicos

A formação médica é outro tema que deixa dra. Filó apreensiva e inquieta. Para ela, quem escolhe a medicina apenas pelo ganho financeiro não compreende a dimensão da profissão. O que se nota na pouca procura pela especialização em pediatria, por exemplo. Como professora, ela revela que outro ponto da sua atenção é ver estudantes usando medicamento tarja preta, medicamento estimulante e energético para estudar. O que a faz questionar a perda de uma ideia fundamental: “O médico fez a opção pelo sofrimento e pela dor. Se o médico vende saúde, ele tem de estar inteiro para cuidar de alguém que está quebrado.” 
 
Ana Noronha Nascimento, médica horizontal (diarista) da UTI Pediátrica da Santa Casa, conheceu a dra. Filó quando fez seu primeiro estágio de terapia intensiva dentro do CTI de alta complexidade da instituição, em 2008. Ela foi recebida pela dra. Filó, médica horizontal na época, e pelo dr. Júlio César Amorim Sena, que era o coordenador, e em pouco tempo criou-se um forte vínculo: “A Filó brinca que eu sou uma das muitas filhas que ela foi adotando ao longo da vida”. Ana Noronha reforça que “a Filó de fato se tornou uma mãe para mim, tanto na terapia intensiva quanto na vida”.  Ela revela que, ao longo da sua residência, aprendeu com a médica não só teoria e prática, mas como se portar diante de pais e mães que estão em luto, com medo, com uma criança doente dentro do CTI, uma família que, de repente, teve um diagnóstico de uma doença congênita e vive o luto de um bebezinho que não nasceu perfeito: “A Filó não nos ensina somente a medicina, mas como sermos um ser humano melhor ao ver e acolher o outro. Aprendi sobre empatia”.
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O cuidado com a infância ultrapassa o consultório da dra. Filó, é parte da sua vida e em comunidade. Para a pediatra, os pais não devem apenas criar filhos para o mundo, mas ajudá-los a descobrir quem são e para que vieram. “Quando alguém descobre aquilo que nasceu para ser, encontra uma direção, vai ser feliz e não se desvia. O que o moverá será completamente diferente”. E é essa direção que explica por que, mesmo depois de 40 anos, dra. Filó continua cuidando de crianças. Hoje, quando perguntam por que ainda faz isso, se não precisa, a pediatra responde sem hesitar: “Porque sou eu que preciso das crianças.”
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Sobre o movimento antivacina presente na sociedade brasileira – pesquisa da Sou Ciência Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) em parceria com o Instituto Ideia em 2026 confirmou que 30% da população não aderem plenamente às campanhas de vacinação –, sua posição é marcada pela experiência: “Eu vi criança morrer de sarampo, vi criança ter a perna amputada por causa de varicela (catapora), vi criança fazer traqueostomia de urgência por causa da varicela, crianças com poliomielite. Eu perdi paciente com meningite meningocócica B em 18 horas porque não havia vacina. Eu vi; por isso vacino”, diz. 
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Palestras e orações
 
Para além das palavras, as redes sociais ampliaram a visibilidade da dra. Filó e permitiram que mais pessoas prestassem atenção em sua fala e atitudes. Por isso mesmo, ela é convidada com frequência por religiosos e influenciadores cristãos, aém de emissoras de TV católicas, para debates e conversas sobre a fé. Um desses encontros aconteceu em março deste ano, quando foi convidada pelo frei Gilson, cantor e sacerdote carmelita com mais de 10 milhões de seguidores no YouTube, para rezar o rosário. O encontro, transmitido nas redes sociais, teve mais de 332 mil visualizações no Instagram do religioso e mais de 73 mil no da médica. Ela escreveu em sua página: “Fizemos reflexões sobre a Santidade nos dias atuais, mostrando que não podemos abrir mão em nossas vidas: da fé em Deus, no amor e na Eucaristia”.   
 
A médica em ação, em uma de suas famosas palestras: milhares de pessoas reunidas para ouvi-la e rezar com ela até mesmo em estádios de futebol - Foto: DivulgaçãoPara a pediatra, uma oportunidade de compartilhar informação de qualidade e também “uma dívida” que a medicina tem de “facilitar a vida das pessoas”. Assim, ela promove encontros com pais e profissionais de diferentes áreas para discutir como estão os filhos hoje: “Conhecimento não pode ser enterrado.” A médica diz que não é escritora, mas já lançou três livros e ressalta que eles nasceram de trechos de suas palestras e de transcritos com relatos de casos vividos por ela e pela equipe do CTI da Santa Casa enquanto esteve por lá, afinal foram 35 anos. Para a pediatra, os livros são uma forma de fortalecer a fé: “Procuro mostrar que Deus está atento a cada filho. Acho que isso fala direto ao coração dos leitores”.
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Quem vivencia de perto esse outro lado da dra. Filó é o padre Alexandre Fernandes, pároco da Paróquia Bom Jesus do Vale, em Nova Lima, capelão do Hospital Biocor e diretor espiritual do Movimento Mães que Oram pelos Filhos em Minas Gerais. Para ele, a pediatra fez da própria vida uma expressão viva do cuidado de Deus com o ser humano e uniu duas dimensões que nunca caminharam separadas em seu coração: a medicina e a fé. “Como cristã, compreendeu desde cedo que cuidar é uma forma profunda de evangelizar”. Para ele, se existe uma palavra que resume a dra. Filó, essa palavra é serviço: “Serviço à vida, à medicina, às famílias e ao Evangelho”.
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Padre Alexandre contou que seu caminho cruzou com o da dra. Filó em um almoço, no antigo restaurante Santa Fé, do qual nasceu uma amizade. Para ele, daqueles encontros simples que só a Providência Divina explica. “Foi ao redor da mesa, em meio a conversas sobre a vida, a fé e os desafios do cotidiano, que nasceu um laço de profunda fraternidade e comunhão espiritual”. Pouco tempo depois, esse encontro frutificou na comunidade e a dra. Filó passou a rezar o terço na paróquia e a conduzir momentos de pregação. “Uma parceria de alma e de missão, sustentada pela oração mútua e pelo amor à Igreja”.
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Rumo aos 40 anos de profissão, dra. Filó afirma que faria tudo novamente. Quanto aos próximos passos, ela quer continuar trabalhando para ampliar o acesso da criança carente ao SUS e dar oportunidade para que ela possa deslanchar na vida: “Penso sempre em como posso ser melhor profissional e estar mais atenta à dor daqueles que ainda não falam”. Na coordenação do Instituto Materno Infantil da Santa Casa, seu papel é dar voz à pediatria do SUS e integrar as necessidades das diferentes áreas. Ela destaca a maternidade da instituição que é aberta 24 horas, com acolhimento às gestantes, mesmo quando não fizeram pré-natal no hospital, presença de doula, banheiras. E o trabalho de interação entre obstetrícia e neonatologia: “Todos queremos o bem de cada um que entra na Santa Casa. Nosso compromisso é fazer o melhor”.
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Depoimentos

- Foto: Thacio Leite/Divulgação“A dra. Filó não fala de Deus a partir de teorias distantes, mas da vida concreta. Ela aborda as dores, os lutos, a família, os recomeços e a esperança com os pés no chão. Quem a escuta sente que suas palavras brotam da vivência real. Na comunidade, sua presença acolhe especialmente os que chegam cansados ou feridos, lembrando-nos de que corpo, coração e espírito não se dividem: a médica que aprendeu a salvar vidas sabe que certas feridas não cicatrizam apenas com remédios, mas pedem escuta, compaixão e fé. A dra. Filó não deixou a medicina para ser pregadora, nem abriu mão da evangelização para ser médica; deixou que uma vocação iluminasse a outra”.
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Padre Alexandre Fernandes, pároco da Paróquia Bom Jesus do Vale, em Nova Lima

- Foto: Arquivo Pessoal“Estou na Santa Casa desde 2008. A Filó sempre foi uma médica extremamente dinâmica, o que é necessário dentro da terapia intensiva, além de ser resolutiva e acolhedora. Ela tem um lado que todos conhecem das redes sociais e a questão voltada para a fé e o conhecimento da religião, que me encanta. Para mim, a Filó é um exemplo de resiliência, o que todos podemos desenvolver. Ela é a pediatra dos meus dois filhos, o João, de 10 anos, e o Jorge (na foto, ainda bebê), de 7 anos, e foi ela quem me falou que eu estava grávida do João sem eu saber. A Filó tem qualidades admiráveis e, realmente, se importa com o paciente, com a família, com a equipe e com a qualidade do serviço prestado”.
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Dra. Ana Noronha Nascimento, médica da UTI Pediátrica da Santa Casa 

- Foto: Arquivo Pessoal Tenho dois filhos, Erick Rabelo Vasconcelos, de 23 anos, e Enzo Rabelo Vasconcelos, 21 anos. Sou solteira e moro em Contagem. Erick tem paralisia cerebral e foi atendido pela dra. Filó no CTI da Santa Casa, para onde foi transferido no dia seguinte do seu nascimento. Ela é uma médica fora da curva. Quando meu filho teve alta, ela me orientou e me passou seu contato para qualquer emergência. Hoje, o Erick está com 23 anos e continua sendo atendido por ela. E qualquer coisa que preciso, eu mando mensagem e ela me orienta e, se precisar, me diz para marcar uma consulta e levá-lo até ela”.
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Sandra Rabelo da Silva e Erick Rabelo Vasconcelos, paciente da dra. Filó desde que nasceu  

Para ler a Dra. Filó 

Trechos dos três livros escritos pela pediatra

“Nos inquietamos tanto, antecipamos coisas que nunca virão, perdemos a dádiva do momento presente. Remoemos o passado que não podemos modificar e deixamos de viver a graça da eternidade que existe em cada minuto. A presença de Deus em cada minuto! Perdemos essa maravilhosa sintonia: Deus está sempre conosco, mas nós, não; estamos sofrendo com lembranças do passado ou ansiosos com o futuro pela frente. Precisamos aprender a viver o momento presente!” (Mensagens de Fé, páginas 48 e 49). 
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“Em um desses dias bem intensos e puxados, teve uma criança de quase três aninhos que foi operada do coração. Ela estava lá deitada sozinha, só de fraldinha e já estava bem. Era o segundo dia após a cirurgia e provavelmente estava para sair de alta. E eu passei voando, quando encontrei aquela doçura daquela criança, só de fraldinha com acesso venoso no pescoço, batendo palminha e rindo. Ele não gargalhava, ele sorria e batia palminha. Aquela cena era tão doce, tão doce, que eu parei. E falei assim para o neném: “Que coisa mais linda, neném! Você está batendo palminha?” Ele olhou para mim com o mesmo sorriso e disse: “Pá Jesus! Pá Jesus!” Eu falei para ele: “Se é para Jesus, a Filó também vai parar aqui e bater palma com você!” Aí ficamos nós, como duas crianças, batendo palma lá dentro do CTI. Mas era para Jesus! O menino não sabia falar, e ele falou: “Pá Jesus!” Isso é de encantar, não é? É de encantar!” (Não Se Esqueça de Deus, página 81).
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“E em um sábado de manhã, dentro do CTI do hospital, estava a equipe de CTI, de oncologia e de nefrologia e estávamos discutindo um caso grave, quando, de repente, eu parei pessoal e perguntei: “Gente, para um minutinho. Será que eu estou louca ou tem um sax tocando?” Não era para ter ninguém na rua, pois ninguém podia circular naquela época (pandemia coronavírus). E como eu amo sax, fui até a janela verificar se tinha algo acontecendo. Quando eu cheguei na janela, havia um homem tocando sax e junto dele um sacerdote, que eu não sei quem é, com o Santíssimo elevado, dando a bênção. Chorei emocionada e ali tive a certeza absoluta de que não estávamos sozinhos. Só dava pra ver as carinhas das pessoas aparecendo naquelas janelas da Santa Casa.” (Deus Não Se Cansa de Amar, página 23)

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