Revista Encontro

Cidade

Escadão no São Bento ganha mosaicos inspirados na brasilidade

Intervenção artística transforma passagem entre a rua Helena Antipoff e a avenida Bento Simão com peças enviadas por colaboradores de todo o país

Patrícia Cassesse

Os 117 degraus do Escadão da Bento Simão estão sendo transformados em arte com o tema brasilidade; azulejos têm chegado de várias partes do país e a iniciativa tem angariado doações para os custos de assentamento - Foto: Denise Rennó/Divulgação

Em um exercício de projeção temporal, o advogado e corretor de imóveis Marcus de Castro, 35 anos, permite-se o direito de, daqui a três décadas (recorte aventado por ele próprio), reivindicar o posto de idealizador do que tem tudo para se tornar um novo cartão-postal belo-horizontino: o Escadão da Bento Simão, localizado no bairro São Bento, na zona Sul da capital.

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Motivos para fundamentar a conjectura, Marcus tem de sobra. Desde que a aliança firmada com a mosaicista e pintora Denise Rennó — voltada à intervenção artística no conjunto de degraus que liga a rua Helena Antipoff à avenida Bento Simão — ganhou espaço na imprensa, os dois foram surpreendidos por uma enxurrada de pessoas interessadas em contribuir com a ideia, que já está em curso e tem previsão de conclusão ainda para este ano.
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Em linhas gerais, a proposta, desenvolvida no âmbito do programa Adoro BH (antigo Adote o Verde), da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte (mas sem o uso de verbas públicas), prevê o revestimento da estrutura por meio de azulejos e mosaicos, transmutando um espaço, até então apenas funcional, em uma verdadeira galeria a céu aberto.
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A pedra fundamental de tudo veio das caminhadas pela região, quando, atento ao entorno, Marcus lamentava a degradação da passagem no bairro onde mora. Ao tomar conhecimento do programa da PBH, que visa engajar a sociedade civil na preservação de espaços públicos, áreas verdes e recursos hídricos, resolveu adotar o local. Desde então, saiu em busca de apoios, mas muitos se mostravam inviáveis devido ao custo envolvido.
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Um belo dia, ao passar por ali, Denise Rennó viu a placa de adoção e, movida pelo antigo desejo de espalhar arte pela cidade, tratou de contactar Marcus. Houve sintonia imediata e, assim, nasceu a parceria que já transforma a paisagem local e desperta o interesse além das cercanias.
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Um ponto importante: quem leu sobre a intervenção na Bento Simão e pensou em algo similar à icônica Escadaria Selarón, na Lapa (RJ), não está de todo equivocado — no entanto, Denise faz questão de marcar diferenças estruturais. À reportagem da Encontro, ela lembra que o concorrido ponto turístico carioca, fruto da mente fervilhante do chileno Jorge Selarón (1947-2013), construiu-se de modo mais orgânico, sem temática pré-definida. Não é o caso da iniciativa mineira, cujos artífices elegeram a brasilidade como norte inegociável. Sob este guarda-chuva, entram fauna, flora, festejos, ditos populares e homenagens a escritores.
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Com a criação de um perfil no Instagram para registrar as etapas das obras (@escadãodabentosimao) e a cobertura da imprensa, voluntários de Norte a Sul do país entraram em contato e, após alinhamento, passaram a enviar colaborações. “O negócio tomou uma proporção inimaginável, tem até brasileiros que vivem no exterior enviando peças, assim como pessoas de vários estados. É cada coisa tão maravilhosa que fico me perguntando: ‘onde estavam esses talentos’?”, relata a artista. 
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Via Correios, conta, chegam diversas peças pintadas à mão reproduzindo, por exemplo, exemplares da fauna nacional, como a capivara e o lobo-guará. Denise também se diz feliz com a adesão de seus alunos de artes, incluindo turmas da terceira e quarta idades. As crianças também ganharam espaço: um espelho de degrau está reservado exclusivamente a elas.
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Outro detalhe destacado por Denise é que os envios vindos de fora chegam acompanhados de bilhetes e cartas emocionantes — relatos de pessoas que encontraram na ação uma oportunidade de reconexão com a própria prática artística.
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Apesar da doação dos azulejos e mosaicos, a execução gera custos consideráveis, concentrados na mão de obra especializada e nos materiais de assentamento. “Nos dois primeiros blocos, conseguimos apoio voluntário, mas nosso propósito é fazer tudo direitinho”, diz, referindo-se à remuneração justa dos profissionais contratados.
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Para custear essas etapas, foi lançada a campanha Adote um Degrau. Denise detalha: “Fiz um cálculo com base no orçamento das empreiteiras para definir o custo unitário. Chegamos ao valor de R$ 370 e abrimos a arrecadação”. Quem contribui com essa cota ganha, em contrapartida, um azulejo personalizado feito pela própria pintora, fazendo referência à doação.
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Entre os apoiadores, ela cita uma doadora que homenageou o pai, já falecido, imprimindo o nome dele junto ao desenho de uma peteca, lembrando os momentos em que ele frequentava uma quadra da região. “Em outro caso, escrevi 25 nomes de familiares do patrocinador.” Os registros são feitos com caneta bico de pena e tinta de porcelana queimada em forno a 750 graus, garantindo resistência ao desgaste provocado pelo tempo e pela circulação de pedestres.
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Contribuições com valores menores também são bem-vindas. Atualmente, segundo os organizadores, a obra caminha para o terceiro bloco — lembrando que o patamar inicial traz o painel de boas-vindas apresentando o espaço aos transeuntes. “Temos acervo artístico para outros dois blocos, ou seja, para mais 30 degraus”, conta Denise, que busca equilibrar o ritmo de assentamento dos mosaicos (que exigem confecção mais demorada) com o dos azulejos.
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Paralelamente, Marcus busca parceiros para garantir a segurança e a preservação do local após a entrega à comunidade. Ele adiantou que as negociações estão avançadas com uma empresa de monitoramento que prometeu ceder dois totens equipados com quatro câmeras cada. Do mesmo modo, há a expectativa de firmar cooperação em breve com empresas de paisagismo.
 
A depender do entusiasmo dos idealizadores, subir o Escadão da Bento Simão será, muito em breve, mais do que um mero deslocamento rotineiro: será um convidativo passeio gratuito para moradores e turistas fruírem arte, cultura e cidadania.


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