Revista Encontro

BEM-ESTAR

Novo remédio para insônia chega ao Brasil com ação inédita

Lemborexante reduz o sinal que mantém o cérebro desperto e surge como alternativa aos tratamentos tradicionais, mas especialistas recomendam cautela

Aline Reskalla

A síndrome do sono insuficiente é considerada a maior doença crônica não transmissível pela Organização Mundial da Saúde; pacientes que apresentam os sintomas de insônia estão mais suscetíveis a uma série de comorbidades, sendo as principais complicações a depressão, hipertensão, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e obesidade - Foto: shutterstock

Dormir três horas seguidas já pode ser considerado uma boa noite de sono para a professora aposentada C.L. Mesmo depois de tomar dois comprimidos de 10 mg de um medicamento indutor do sono, o Zolpidem, ela contou à Encontro que acorda regularmente no meio da madrugada e só volta a dormir após recorrer a algumas gotas de clonazepam, mais conhecido como Rivotril.

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C.L sofre de insônia há mais de dez anos e foi aumentando as doses dos remédios ao longo do tempo, na mesma proporção que os efeitos foram diminuindo.
 
“Com o tempo, a medicação perdeu o efeito e precisei aumentar para dois comprimidos de 10 mg. O Zolpidem possui um alto potencial de dependência, e conheço pessoas que chegaram a consumir de cinco a seis comprimidos por dia, justamente por essa necessidade constante de elevar a dose”, relatou a professora.
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Os efeitos colaterais são devastadores. "Acordo péssima, às 6h, com dores musculares intensas, que dificultam até mesmo a minha locomoção e a frequência na academia, que tenho mantido com grande esforço. Para atenuar esse desconforto, dependo de relaxantes musculares e anti-inflamatórios. Além disso, percebo uma queda significativa no meu rendimento diário e lapsos de memória constantes, o que cria um ciclo vicioso difícil de romper”, desabafou C.L.
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A privação do sono vem sendo considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma epidemia global e silenciosa, atingindo cerca de 40% da população mundial. No Brasil, esse percentual é ainda maior: dados da Fiocruz revelam que 72% dos brasileiros têm algum distúrbio do sono. Os mais comuns, segundo o Ministério da Saúde, são a insônia (31,7%) e a apneia obstrutiva do sono (30%). 
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Embora especialistas sejam unânimes em afirmar que antes de tomar qualquer medicamento para distúrbios do ano as causas do problema precisam ser investigadas, uma nova opção terapêutica com mecanismo de ação ainda inédito, o lemborexante, chega às farmácias brasileiras neste segundo semestre de 2026. 
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Em vez de “desligar”, reduzir a vigília
 
Os tratamentos tradicionais para insônia, como os benzodiazepínicos e o zolpidem, atuam sobre o sistema GABA, uma espécie de “freio” do cérebro que reduz a atividade das células nervosas e ajudam o organismo a relaxar e entrar no sono.
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Já o lemborexante pertence a outra classe: a dos antagonistas dos receptores de orexina. “A nova medicação vai atuar num receptor chamado orexina, que é um neuropeptídeo responsável por manter as pessoas em vigília. Em vez de forçar o sono por uma sedação mais generalizada, ele reduz o sinal que mantém o cérebro desperto. Isso significa que o paciente vai adormecer de uma forma mais fisiológica possível e, no dia seguinte, tende a apresentar menor sonolência”, explicou à revista a psiquiatra Jaqueline Bifano.
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O tratamento tem o nome Dayvigo, e foi registrado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para adultos com dificuldade para iniciar ou manter o sono, segundo a psiquiatra. “Os estudos clínicos apresentados à Anvisa demonstraram eficácia nesses dois aspectos. As pesquisas mostraram também menores efeitos colaterais e menos propensão a causar dependência”, acrescentou Bifano. No entanto, eles não são inexistentes: sonolência e dor de cabeça estão entre os efeitos adversos possíveis. Sonhos vívidos e episódios de paralisia do sono também podem ocorrer.
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E, apesar de estudos sobre desempenho no dia seguinte apresentarem resultados favoráveis, a Anvisa faz uma ressalva: quem utiliza 10 mg deve ser alertado sobre a possibilidade de comprometimento da capacidade de dirigir na manhã seguinte, já que a sensibilidade ao medicamento varia de pessoa para pessoa. A dose recomendada é de 5 mg, uma vez por noite, poucos minutos antes de dormir.
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O Dayvigo foi desenvolvido pela farmacêutica japonesa Eisai e será comercializado no país em parceria com a Eurofarma. O preço médio estimado é de R$ 200. O lemborexante é sujeito a controle especial e será vendido com retenção de receita.
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Conselho recomenda cautela
 
O Conselho Federal de Farmácia (CFF) considera promissores os resultados obtidos até agora com o lemborexante, inclusive em relação à dependência, mas recomenda cautela. “Ainda é necessário acompanhar o medicamento por mais tempo para determinar com maior segurança seu potencial de abuso e dependência na prática clínica”, destaca em nota oficial.
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A entidade cita ainda uma revisão publicada no The Lancet, conduzida por pesquisadores ligados à Universidade de Oxford, que comparou 36 tratamentos para insônia e colocou o lemborexante entre aqueles com melhor combinação de eficácia, aceitabilidade e tolerabilidade. Ao mesmo tempo, faz uma ressalva importante: “o tratamento da insônia não deve se limitar ao uso de medicamentos”. A investigação das causas, mudanças de hábitos e a terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) também fazem parte do tratamento.
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Jaqueline Bifano, psiquiatra especialista em problemas do sono - Foto: Raphael Ribeiro/Divulgação A psiquiatra Jaqueline Bifano reforça: o remédio não deve ser a primeira resposta à dificuldade para dormir. “Quando a pessoa tem insônia, a gente precisa realmente investigar a causa”, afirma. Entre os possíveis fatores que influenciam o problema, ela cita apneia do sono, depressão, ansiedade e hábitos que prejudicam o descanso, como excesso de telas à noite e consumo elevado de café, refrigerantes e outros estimulantes. 
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O celular, acrescenta Bifano, merece atenção especial. A exposição à luz e aos estímulos das telas à noite pode interferir no relógio biológico e dificultar a preparação do organismo para dormir. “O cérebro fica o tempo inteiro em alerta”, diz a psiquiatra.
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A terapia cognitivo-comportamental para insônia, conhecida pela sigla TCC-I, é uma das principais abordagens recomendadas para casos crônicos. Ela procura modificar pensamentos e comportamentos que contribuem para perpetuar a dificuldade de dormir. “A medicação só deve entrar quando já investigamos outras causas e avaliamos as alternativas de tratamento”, determina.
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Você sabia que o intestino influencia o sono?
 
Dormir bem também pode depender do que acontece no intestino. Estudos recentes reforçam a relação entre alimentação, microbiota intestinal - o conjunto de microrganismos que vive no trato gastrointestinal - e qualidade do sono.
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Uma pesquisa publicada em julho no “Journal of Internal Medicine”, citado pela Agência Einstein, plataforma de notícias sobre saúde, ciência e bem-estar, encontrou associação entre uma microbiota intestinal mais diversa e melhor qualidade do sono. Na pesquisa, a ingestão de cápsulas contendo bactérias benéficas esteve associada a uma redução de 13,9% nos sintomas de insônia crônica após um mês.
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A explicação passa pela comunicação constante entre intestino e cérebro, conhecida como eixo intestino-cérebro. A microbiota participa de processos metabólicos e da produção ou modulação de substâncias envolvidas no funcionamento do sistema nervoso. Ao mesmo tempo, alimentação, horários das refeições e sono interferem nesse equilíbrio. Por isso, os pesquisadores vêm estudando essa relação nos dois sentidos.
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“A alimentação e o sono se influenciam mutuamente”, explica a neurofisiologista Letícia Azevedo Soster, do Einstein Hospital Israelita, à Agência Einstein. Segundo ela, quem se alimenta mal pode ter um sono mais fragmentado e, depois de uma noite ruim, tende a procurar alimentos mais calóricos e carboidratos de rápida absorção para enfrentar o dia. “A relação, portanto, é bidirecional: quanto pior um, o outro tende a ser pior, e vice-versa.”
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Noites em claro
 
Em números

 20,2% dos brasileiros dormem menos de 6 horas por noite
31,7% dos adultos apresentam sintomas de insônia
36,2% das mulheres | 26,2% dos homens

* Fonte: Vigitel/Ministério da Saúde, divulgado em 2026
 
A causa precisa ser investigada
  • Ansiedade e estresse
  • Depressão
  • Apneia do sono
  • Excesso de telas à noite
  • Sedentarismo
  • Cafeína e outros estimulantes
  • Álcool
Como tratar
 
O tratamento pode envolver mudanças de hábitos, terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) e, quando necessário, medicamentos
 
Higiene do sono
  • Mantenha horários regulares 
  • Reduza telas antes de dormir 
  • Pratique atividade física 
  • Deixe o quarto escuro e silencioso 
  • Evite cafeína e álcool à noite.
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O poder do intestino para o sono

A microbiota intestinal se comunica com o cérebro pelo chamado eixo intestino-cérebro, e estudos associam maior diversidade desses microrganismos a uma melhor qualidade do sono. Veja o que consumir para ajudar a dormir melhor:
 
  • Frutas, vegetais, peixes, leite e derivados, sementes e oleaginosas
  • Jantar pelo menos duas horas antes de dormir
  • Manter horários regulares para as refeições
  • Evitar refeições muito gordurosas à noite
  • Reduzir café, energéticos e refrigerantes com cafeína
  • Evitar álcool próximo à hora de dormir
Sintomas de insônia crônica foram reduzidos em 13,9% após um mês de ingestão de bactérias benéficas, de acordo com estudo citado pela Agência Einstein.
Fontes: Ministério da Saúde/Vigitel; Agência Einstein; psiquiatra Jaqueline Bifano

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