Revista Encontro

Beleza

Perfumaria e cosméticos: Minas se firma como potência nacional

Estado se consolida como o segundo maior polo do segmento, respondendo por 9% de todos os estabelecimentos do setor no Brasil

Alex de Oliveira

O mercado brasileiro de beleza e cuidados pessoais ocupa a 3ª posição entre os maiores mercados consumidores do mundo - Foto: Pexels

Há um mês, o engenheiro de controle e automação Felipe Rossi Rodrigues da Costa, de 36 anos, e o advogado Rafael Freitas Ferreira, de 33, decidiram apostar em um modelo de negócio ainda pouco conhecido do grande público: os decants, pequenos frascos com doses fracionadas de perfumes originais. “A venda tradicional de fragrâncias já estava saturada, inclusive nas redes sociais. Foi aí que chegamos a esse formato. Eles permitem solucionar o dilema do teste, pois são acessíveis e práticos. Costumo dizer que democratiza o acesso à alta perfumaria”, resume Felipe, sócio da Versato Decants.

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A dupla comprou artigos originais e passou a fracioná-los em volumes menores, lacrados, com borrifadores próprios – um decant de 2 ml rende de 25 a 30 borrifadas. O investimento inicial, de cerca de R$ 40 mil, foi concentrado na aquisição dos produtos, embalagens, registro da marca e logística. “Isso resolve um problema comum: o consumidor não precisa investir centenas ou até milhares de reais em um frasco para depois descobrir que aquela essência não era o que esperava”, explica.
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A aposta dos dois jovens empresários surge em um momento de expansão do segmento no Estado. Levantamento inédito do Núcleo de Estudos Econômicos da Fecomércio MG, divulgado agora, com exclusividade, pela Encontro, mostra que Minas Gerais se consolidou como o segundo maior polo do país na cadeia de perfumaria e cosméticos, respondendo por 9% de todos os estabelecimentos do setor no Brasil – atrás apenas de São Paulo e à frente de estados como Paraná, Rio de Janeiro e Bahia –, com 7.076 empresas.
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Para Fernanda Gonçalves, economista da entidade, essa posição não decorre apenas do tamanho do mercado consumidor mineiro. “A pesquisa mostra que Minas está presente de forma consistente em todos os elos dessa cadeia de perfumaria e cosméticos, que vai desde a fabricação até a distribuição e o varejo. Isso demonstra que o Estado não é apenas um grande comprador, mas também um importante produtor e distribuidor”, avalia a especialista, para quem a localização estratégica de Minas, somada a uma rede de cidades médias economicamente dinâmicas, favorece a circulação de mercadorias e reduz custos operacionais.
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Fernanda Gonçalves, economista do Núcleo de Estudos Econômicos da Fecomércio MG - Foto: Fecomércio MG/DivulgaçãoEssa atuação em todas as etapas da cadeia – fabricação, atacado e varejo – aparece no estudo como um dos principais diferenciais competitivos do mercado mineiro. Fernanda explica que participar de todo o ciclo produtivo permite ao Estado reter mais renda e distribuir os ganhos entre diferentes segmentos, o que reduz a exposição a oscilações pontuais. “Em momentos de desaceleração na indústria, por exemplo, o atacado e o comércio varejista podem continuar sustentando parte da atividade econômica, da mesma forma que avanços no comércio eletrônico podem compensar períodos de menor expansão em canais tradicionais”, aponta.
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A distribuição territorial reforça esse cenário. Na fabricação, Belo Horizonte lidera o número de estabelecimentos, seguida por Contagem e Uberlândia, com presença relevante também em Uberaba, Juiz de Fora, Ipatinga, Divinópolis e Poços de Caldas. No atacado, a capital concentra mais de 20% das empresas do Estado, enquanto cidades como Extrema, Varginha, Montes Claros e Pouso Alegre reforçam o papel da logística mineira. Para a analista, cada polo tem uma vocação própria: “Uberlândia e Uberaba se destacam pela força logística e comercial; já Juiz de Fora possui tradição industrial e localização estratégica na Zona da Mata; e Extrema e Montes Claros vêm ganhando relevância como centros de distribuição e apoio operacional”, salienta, sustentando que essa capilaridade amplia a geração de emprego e renda no interior e reduz a concentração de oportunidades em uma única região.
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Online
 
O comércio eletrônico é outra frente em que Minas aparece à frente da média nacional. Em 2025, as vendas online de perfumaria e cosméticos movimentaram R$ 14,07 bilhões no Brasil – 5% de todo o e-commerce do país. As operações originadas em Minas somaram R$ 2,78 bilhões, fazendo com que o segmento respondesse por 7,7% das vendas digitais mineiras, participação superior à média nacional. Fernanda Gonçalves atribui esse desempenho a uma combinação de fatores: “Minas possui localização geográfica privilegiada para atender aos principais mercados consumidores do país, especialmente Sudeste e Centro-Oeste, o que favorece prazos de entrega competitivos. Muitas empresas mineiras vêm conseguindo integrar seus canais físicos e digitais, e isso amplia a presença em marketplaces e plataformas online”.
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É justamente neste segmento que a Versato Decants atua. “Nossa estratégia desde o início é voltada para o digital. As redes sociais são uma grande aliada para apresentar nosso produto, educar o consumidor sobre os decants e alcançar clientes no Brasil todo. Hoje vendemos para todo o país por meio dos Correios e de empresas de logística parceiras”, conta Felipe Rossi. Abrir uma loja física não está nos planos de curto prazo, mas os sócios não descartam o contato presencial: pretendem participar de eventos e parcerias para aproximar o público do conceito. Um mês após a abertura, o retorno já indica um padrão observado pela pesquisa – o público mineiro se mostra exigente e atento à moda e perfumaria, segundo os sócios, tanto entre o público masculino quanto o feminino.
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Os empresários Felipe Rossi Rodrigues da Costa e Rafael Freitas Ferreira, da novata Versato Decants, que surge em um momento de expansão do setor no estado - Foto: Versato/Divulgação Cuidados capilares O estudo também identifica um consumo cada vez mais recorrente, menos concentrado em datas comemorativas: produtos como cuidados capilares, maquiagem, desodorantes, hidratantes, perfumes e itens de higiene pessoal concentram a maior parte das vendas ao longo do ano, mesmo com picos em datas como Dia das Mães, Dia dos Namorados e Black Friday. Entrar em um mercado com esse padrão de consumo, avalia Felipe, não isenta uma marca nova de obstáculos.
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“O primeiro grande desafio é a confiança. Estamos trabalhando com artigos de valor elevado e o consumidor precisa ter segurança de que o produto é proveniente de uma fragrância original”, examina. Ele cita ainda a barreira educativa – muita gente ainda não sabe o que é um decant ou julga pequeno o volume de 2 ml a 5 ml – e a necessidade de competir por outros caminhos que não a escala: “Atendimento consultivo, agilidade e relacionamento com o cliente”.
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Espaço para crescer
 
Apesar do desempenho mineiro, o levantamento aponta desaceleração recente em alguns segmentos de fabricação e distribuição. “O que observamos é uma acomodação após um período de crescimento bastante expressivo nos últimos anos. Parte desse movimento está relacionada ao reajuste do mercado, ao aumento dos custos de produção e à necessidade de adequações operacionais em algumas empresas. Os fundamentos do setor permanecem sólidos: o consumo continua sustentado por categorias de alta recorrência, e o comércio eletrônico segue em expansão”, avalia Fernanda.
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Ela lembra, ainda, que o Brasil é hoje o terceiro maior mercado consumidor de beleza e cuidados pessoais do mundo, atrás apenas de Estados Unidos e China, segundo dados da Euromonitor compilados pela Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec) – posição de destaque global em categorias como fragrâncias, desodorantes, produtos masculinos, proteção solar e cuidados com os cabelos.
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Esse ambiente cria espaço para investimentos em três frentes específicas no Estado: fabricação de itens de maior valor agregado – como dermocosméticos e artigos sustentáveis –, logística e distribuição aproveitando a posição geográfica mineira, e a integração entre os canais físico e digital. “Empresas que conseguirem combinar uma marca forte, experiência digital e maior eficiência logística têm alta probabilidade de capturar uma parcela crescente desse mercado – e de ultrapassar as barreiras territoriais de quem não está próximo ao seu comércio físico”, sustenta Fernanda.
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O outro lado do perfume
 
Enquanto a indústria de cosméticos movimenta números expressivos, a fragrância em si envolve outra dimensão, menos mensurável. “O sistema olfatório tem ligações anatômicas e filogenéticas diretas com o sistema límbico no cérebro, que controla as emoções, as quais, por sua vez, modulam fortemente as memórias”, explica Patrícia Maria Rodrigues Gonçalves, que pesquisou as memórias dos cheiros em sua tese de doutorado pelo Programa de Neurociência e Comportamento do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). No estudo, ela defende que o olfato foi, por muito tempo, subestimado pela ciência: “Até meados do século XX, pesquisadores consideravam que o sistema olfatório humano tinha baixa eficácia, mas hoje já se sabe que os seres humanos possuem uma excelente capacidade para detectar odores”.
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Josefina Baents estuda a relação humana com o estímulo olfativo: reviver recordações por meio de um aroma - Foto: Arquivo pessoalA pesquisadora em educação Josefina Baents, que estuda a relação humana com o estímulo olfativo, reforça que a memória associada ao cheiro tende a durar mais do que a da visão e da audição, em parte porque os aromas chegam ao cérebro sem intermediação consciente. “Estamos falando de partículas que voam e se desprendem das coisas, de moléculas que entram pelo nosso nariz e acessam o sistema límbico, ativando potencialmente emoções e lembranças”, avalia, lembrando que o fenômeno de reviver recordações por meio de um aroma já foi descrito por Marcel Proust em “Em Busca do Tempo Perdido”, ao narrar a memória despertada por um bolinho madeleine – e que, por isso, ficou conhecido posteriormente como “efeito madeleine”.
 
Ranking Nacional
  • Minas Gerais ocupa a 2ª posição entre os estados brasileiros, ficando atrás apenas de São Paulo
  • São 7.076 estabelecimentos, 9% do total nacional
Confira a composição dos negócios em MG
  • Fabricação: 330 Atacado: 680 Varejo: 6.066
  • BH lidera, no estado, as três atividades e concentra grande parte dos estabelecimentos do setor: Fabricação: 17,6%* Atacado: 20,4%* Varejo: 19,1 %*
    *Do total dos 20 principais municípios

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