Revista Encontro

Além das fórmulas prontas: escolas apostam na escrita autoral para o Enem

Educadores defendem o pensamento crítico, a leitura e a construção de argumentos próprios para superar o uso de modelos decorados na redação

Lilian Monteiro

Com o alerta crescente contra textos engessados, repertórios decorados e argumentos genéricos nas provas do Enem, escolas repensam o ensino da escrita para estimular autoria e capacidade de argumentação desde a educação infantil - Foto: Magnific

Chega de receita para escrever. O avanço das fórmulas prontas e dos repertórios decorados acende o alerta no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e desafia escolas a formar estudantes capazes de pensar, argumentar e escrever com voz própria — uma habilidade que começa a ser construída desde a infância. O pensamento crítico e a capacidade de estruturar ideias são competências essenciais para que a escrita não se torne uma mera receita. A autoria começa antes de colocar as ideias no papel: muito antes de enfrentar a prova do Enem, o estudante precisa aprender a observar, questionar, organizar o raciocínio e defender pontos de vista.

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Jean Santos Otoni, professor de produção de textos do ensino médio, analista da área institucional de Produção de Textos da Rede Lius Agostinianos e doutor em Linguística e Língua Portuguesa, enfatiza que o famoso “repertório de bolso” compromete profundamente a qualidade e a autoria do texto. “Além disso, essa prática empobrece a argumentação e anula a marca pessoal do candidato, pois substitui o raciocínio crítico autêntico por uma estrutura rígida baseada puramente na memorização”, afirma.
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Jean Santos Otoni, professor de produção de textos do ensino médio e analista da área institucional de produção de textos da Rede Lius Agostinianos - Foto: Rede Lius Agostinianos/Arquivo A estrutura dissertativo-argumentativa deve funcionar como instrumento lógico de expressão do pensamento, segundo indica o professor. No Colégio Santo Agostinho, aulas temáticas, uma Cartilha de Repertórios Estratégicos e atendimentos individuais semanais apoiam esse processo. As práticas incluem discussões em sala e rodas de debate, além do estudo de matrizes históricas, filosóficas e artísticas relacionadas ao cotidiano. O objetivo é compreender os conceitos antes de empregá-los e planejar o texto, “garantindo argumentos desenvolvidos com foco na explicação, no detalhamento e na exemplificação”. Para Otoni, a verdadeira excelência no exame “nunca virá de ‘esqueletos’ de redação, mas, sim, do desenvolvimento de uma escrita autoral, coerente e profundamente sintonizada com a realidade social”.
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Em 2026, a quinta edição da Maratona Agostiniana de Redação reuniu 1.286 estudantes, do 6º ano do ensino fundamental à 3ª série do ensino médio, nas unidades do Colégio Santo Agostinho e da Escola Profissionalizante Santo Agostinho, no Barreiro. Nas 2ª e 3ª séries, os textos seguem o formato do Enem, sendo corrigidos, devolvidos e reescritos antes de uma roda de debate. Na unidade Contagem, a média nessa competência chegou a 191 pontos de 200. Os alunos da 3ª série também participam da elaboração de uma cartilha de repertórios estratégicos, organizada em oito eixos temáticos, com referências de filmes, músicas e livros.
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Formação integral 
 
Andréa Cattermol Izar Santos, doutora em linguística e coordenadora de área e produção textual do Colégio Batista Mineiro - Foto: Rede Batista de Educação/DivulgaçãoAndréa Cattermol Izar Santos, coordenadora de área e produção textual do Colégio Batista Mineiro e doutora em Linguística, ressalta que, na instituição, a escrita autoral integra um projeto pedagógico que forma o estudante em quatro dimensões: corpo, mente, emoções e espírito. Esse compromisso com uma formação integral sustenta o desempenho consistente dos estudantes do Batista nas provas de redação.
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“O trabalho da equipe de redação é estruturado a partir da análise e da escrita de diferentes gêneros textuais (notícia, resenha, carta aberta, artigo de opinião etc.) do 6º ao 9º ano do ensino fundamental. No ensino médio, prioriza-se o estudo do texto dissertativo-argumentativo (modelo Enem), com a revisão dos gêneros vistos anteriormente”, afirma a profissional.
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A equipe do Batista utiliza estratégias para a construção de repertórios socioculturais. Uma delas é relacionar diferentes disciplinas ao tema do texto. Outra maneira, conta Andréa, é contemplar eixos temáticos do Enem — entre eles, meio ambiente e sustentabilidade, educação e cidadania, e tecnologia e sociedade. “Dessa forma, propicia-se a reflexão coletiva, com a elaboração de raciocínios dedutivos ou indutivos, o que é crucial para a construção de argumentos consistentes e articulados”, acredita, acrescentando que isso estimula o pensamento crítico e inibe o uso de modelos prontos.
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Sobre a evolução da escrita do estudante, Andréa destaca a Plataforma Redigir, com gráficos, relatórios, videoaulas e exercícios para cada desvio apontado no texto corrigido. “Essa prática constante de reflexão minimiza o uso de modelos prontos, tornando-os desnecessários.” Na prática, revela Andréa, o trabalho da Rede Batista de Educação obtém resultados concretos: “Um a cada três estudantes do Batista tira nota 900 ou mais na redação do Enem, e a maior nota da última edição, 980 pontos, foi alcançada por cinco estudantes em diferentes unidades do Colégio”.
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Autoria exige escuta 
 
Jane Patrícia Haddad, psicopedagoga e escritora: "Mais do que redações nota mil, estamos precisando de vozes próprias, que pensem antes de apertar botões" - Foto: Carolina Monjardim/DivulgaçãoJane Patrícia Haddad, doutoranda em Novas Tecnologias, mestre em Educação, psicanalista, psicopedagoga e escritora, amplia a discussão para além da prova. Para ela, formar sujeitos autorais é um desafio para famílias e escolas diante da velocidade das informações. A especialista afirma que a autoria exige uma postura mais atenta diante da rapidez com que dados e mensagens circulam diariamente. “Não é possível escrever sem pensar; responder sem refletir”, pondera.
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A psicopedagoga defende que esse processo começa na família e na escola, desde a primeira infância. O papel da educação, ressalta, é criar condições para que crianças e adolescentes conheçam, questionem e transformem essa herança. Para Jane, formar um sujeito autoral não é ensiná-lo a romper com tudo aquilo que veio antes. “É oferecer condições para que ele conheça o que recebeu, incorpore e questione essa herança simbólica e, a partir dela, possa acrescentar algo de si ao mundo”, diz.
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A literatura ocupa um lugar importante nesse percurso. Jane lembra que uma história escrita pode nos emprestar palavras para nomear aquilo que, até então, não conseguíamos dizer. Para ela, escrever pressupõe reescrever, experimentar e lidar com o erro. “Autoria não é perfeição. É encontrar uma maneira própria de dizer. Ninguém se torna leitor e autor apenas aprendendo técnicas de redação”, determina.
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A estrutura da redação, ressalta Jane, pode e deve ser ensinada. O estudante precisa compreender tese, argumentos, coesão, conclusão e proposta de intervenção. “O problema não está na estrutura; está quando ela passa a ocupar o lugar do estudante frente ao seu saber.” Ela afirma que não basta mencionar a Constituição Federal, Bauman, Foucault, Freud ou qualquer outro autor. É preciso compreender a referência, estabelecer relações com o tema e, a partir dela, construir e sustentar um argumento coerente: “Repertório autoral não é uma coleção de citações prontas”.
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A profissional também chama a atenção para os efeitos das respostas instantâneas oferecidas pelas tecnologias digitais. Ela propõe dar um passo atrás, o que significa dedicar tempo aos filhos, contar histórias, ler junto, provocar perguntas e deixar dúvidas em aberto. “Talvez seja uma das formas mais potentes de formar sujeitos capazes de pensar. Mais do que redações nota mil, estamos precisando de vozes próprias, que pensem antes de apertar botões.”
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Escolas conteudistas
 
Regina Mota, professora universitária que ministra cursos preparatórios de português e redação desde 2005: "É imprescindível que o aluno tenha curiosidade em relação ao que acontece no mundo, no Brasil e na sua comunidade. Ler e manter-se informado" - Foto: Magna Reis/Divulgação Regina Mota, professora universitária, mestre em Língua Portuguesa, especialista em Leitura e Produção de Texto e responsável por cursos preparatórios de português e redação, destaca a importância de transformar conhecimento em argumento. “É imprescindible que o aluno tenha curiosidade em relação ao que acontece no mundo, no Brasil e na sua comunidade. É preciso ler e manter-se informado, pensando em todo o conhecimento que adquire na escola e na vida.”
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Para ela, como as escolas brasileiras são, em grande parte, conteudistas, saber empregar o conhecimento adquirido pode resultar em uma redação criativa e com argumentos consistentes. “Quem tem segurança, sabe se expressar e tem informação não precisa ter medo da escrita”, diz. Ela alerta que é preciso estudar redação. Como? “Com leitura, curiosidade e vontade de construir uma comunicação em que haja interação entre os saberes construídos.” E reforça que é imprescindível não ter preguiça e dedicar um pouco de esforço: “É uma tarefa maravilhosa, porém nem sempre fácil”.
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A criatividade é parte do processo de escrita. Regina afirma que ela nasce do conhecimento, da vontade de ir além e do contato com a arte em geral. “'A informação não é dom; é trabalho. Ninguém dá o que não tem'”, diz, citando o cartunista Henfil. Para a professora, é fundamental planejar as ideias, escrevê-las com calma, ler, revisar e treinar por meio de simulados. “É preciso ter nítido que falar é completamente diferente de escrever. A escrita é descontextualizada e precisa de ideias concisas, claras, coerentes e corretas gramaticalmente.”

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