Revista Encontro

Tecnologia

Como a IA está mudando (mas não exterminando) o papel do professor

Avanço da Inteligência Artificial e novas formas de aprender exigem dos docentes competências que vão além do domínio do conteúdo

Alex de Oliveira
Aula com o uso de Inteligência Artificial (IA) no Colégio Bernoulli: além do domínio do conteúdo e das estratégias pedagógicas, passa a ser cada vez mais importante saber utilizar a tecnologia de forma crítica - Foto: Divulgação
Um professor pede que o aluno escreva primeiro uma resposta própria, sem consultar nada. Só depois disso ele libera o uso de uma ferramenta de Inteligência Artificial. A tarefa seguinte é comparar as duas respostas: onde a IA acertou, onde errou, o que ela deixou de fora, o que o próprio aluno defenderia mesmo contra a versão da máquina. É esse tipo de arranjo que Eucídio Pimenta Arruda, professor da Faculdade de Educação da UFMG, descreve quando fala em mediação em sala de aula entre estudantes e a Inteligência Artificial. “A IA deixa de ser apenas uma máquina de dar respostas e passa a ser também um objeto de análise”, afirma ele, ao descrever o método. Mas, antes disso, o professor precisa ter clareza sobre a finalidade pedagógica do exercício. “Não basta colocar o estudante diante do ChatGPT ou de outra ferramenta e pedir que ele produza alguma coisa. O professor precisa saber o que pretende que o aluno aprenda e, a partir disso, decidir onde a IA entra, onde ela deve parar e o que continua sendo responsabilidade intelectual do estudante”, defende o professor. É esse tipo de decisão, tomada aula a aula, que se impõe como resposta à afirmação de que a tecnologia se encaminha para substituir o papel dos professores. Para Eucídio e outros especialistas ouvidos por Encontro, porém, o que a IA faz é mudar o papel dos mestres em sala de aula. 

Francisco Pequê, diretor-executivo do Bernoulli Educação: "A tecnologia pode ajudar a identificar dificuldades, sugerir atividades e organizar informações, mas é o professor quem dá sentido pedagógico a esses dados e decide quais estratégias fazem sentido para cada turma ou estudante" - Foto: Arquivo pessoalFrancisco Pequê, diretor-executivo do Bernoulli Educação, descreve essa mudança como uma ampliação do repertório exigido do professor. “Além do domínio do conteúdo e das estratégias pedagógicas, passa a ser cada vez mais importante saber utilizar a tecnologia de forma crítica, avaliar a qualidade das informações produzidas pelas ferramentas e entender quando e como a IA pode, de fato, contribuir para a aprendizagem”, diz. Ele acrescenta que, nesse contexto, ganha peso também a leitura de dados: “A tecnologia pode ajudar a identificar dificuldades, sugerir atividades e organizar informações, mas é o professor quem dá sentido pedagógico a esses dados e decide quais estratégias fazem sentido para cada turma ou estudante”.
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Essa exigência de julgamento aparece com ainda mais força quando o assunto é avaliar o próprio aluno. Eucídio faz questão de separar preparação de aula e correção de prova. Na primeira, ele vê espaço largo para a IA ajudar a elaborar uma primeira versão de uma atividade, produzir exemplos, reorganizar um texto, criar exercícios com diferentes níveis de dificuldade e adaptar materiais para perfis distintos de estudantes. Na segunda, pede cautela: “Avaliar não é apenas verificar se uma resposta está certa ou errada; envolve compreender o percurso do aluno, o contexto da atividade, os objetivos de aprendizagem e, muitas vezes, aspectos que uma ferramenta automatizada não consegue perceber adequadamente”. Ele também frisa que o ganho maior da IA no trabalho docente não está em substituir tarefas do professor, mas em tirar do caminho o trabalho repetitivo. “Quanto mais a IA entra no trabalho docente, mais importante se torna a capacidade do professor de selecionar, verificar, adaptar e contextualizar aquilo que a tecnologia produz”, afirma.
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No Bernoulli, essa lógica virou ferramenta com nome próprio: o Co-Cria Professor, um copiloto de planejamento ancorado no material didático do grupo, que gera uma primeira proposta de aula a partir da qual, conforme Francisco Pequê, “o professor faz a curadoria, adapta o conteúdo ao perfil da turma e toma as decisões pedagógicas”. Do lado do aluno, existe o TutorIA, que conversa sobre o conteúdo estudado e sugere formas alternativas de explicar um mesmo conceito, sempre dentro de um contexto pedagógico e de uma base de conteúdo previamente estruturada. Sobre o risco de a tecnologia ocupar espaço do professor, o diretor-executivo defende que “uma ferramenta pode explicar um conteúdo, gerar uma atividade ou analisar um conjunto de dados, mas não conhece um estudante da mesma maneira que seu professor”.
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Lilian de Oliveira Costa, diretora da Escola Visconde de Sabugosa: "É a criança que precisa experimentar e descobrir. A tecnologia entra como apoio para ampliar essa descoberta" - Foto: Pádua de CarvalhoA mesma tensão entre ferramenta e vínculo aparece em escolas de educação infantil – etapa em que, a rigor, a criança ainda não interage diretamente com nenhum chatbot. Na Escola Visconde de Sabugosa, no bairro Mangabeiras, que atende crianças de 1 a 5 anos, a diretora Lilian de Oliveira Costa também recusa a ideia de que a tecnologia diminua a função do professor. “A inteligência artificial veio somar. Ela não diminui a importância do professor, ao contrário, ela torna ainda mais importante o seu papel como mediador, observador e formador de pessoas”, diz. Isso porque, antes de ensinar conteúdos, a escola forma pessoas – o que explica o fato de a tecnologia entrar ali como apoio a uma experiência concreta, não como substituta dela. “Fazemos questão de que a tecnologia chegue à sala de aula a serviço de uma experiência real: uma conversa, uma história, uma investigação, uma brincadeira, uma produção artística, uma experiência científica ou uma atividade de movimento. É a criança que precisa experimentar e descobrir. A tecnologia entra como apoio para ampliar essa descoberta”, afirma.
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Eucídio Pimenta Arruda, professor da Faculdade de Educação da UFMG: "A IA deixa de ser apenas uma máquina de dar respostas e passa a ser também um objeto de análise" - Foto: Arquivo pessoalNa prática, isso significa usar ChatGPT e Gemini para criar recursos visuais, histórias e situações-problema a partir do perfil de cada turma – sempre com um limite bem marcado: “Nenhuma ferramenta substitui o olhar do professor. A proposta gerada pela IA precisa ser analisada, adequada aos objetivos pedagógicos que temos para a turma, sem perder nossa proposta pedagógica”. A preocupação em não deixar a criança apenas receber respostas prontas aparece numa comparação que a própria diretora traça com outra tecnologia que já causou estrago na infância. “Queremos plantar a sementinha que fará essa relação ser rica, produtiva e saudável pela frente, e não de dependência e proibições, como aconteceu com o mal uso do celular”, conta, fazendo menção à legislação que limitou o uso dos dispositivos em sala de aula.
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No Instituto Tarcísio Bisinotto (ITB), escola bilíngue que completa 30 anos no Belvedere e atende crianças de 4 meses a 6 anos, a equipe pedagógica descreve o mesmo movimento com ênfase na palavra escuta. “A principal competência que se tornou indispensável para o professor é a escuta sensível”, afirma Daiane Marques, da equipe do ITB. “Na primeira infância, onde o conhecimento não é transmitido, mas construído por meio de hipóteses, investigações e vivências, o educador precisa saber olhar para a tecnologia não como um substituto do pensamento, mas como um campo de provocação.” Ali, a IA aparece sobretudo na documentação pedagógica – sistematização de observações, registro de projetos e portfólios – liberando tempo que, defende Daiane, volta para “a observação sensível das crianças e a preparação dos ambientes de aprendizagem”.
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Daiane Marques, do Instituto Tarcísio Bisinotto (ITB): "Na primeira infância, onde o conhecimento não é transmitido, mas construído por meio de hipóteses, investigações e vivências, o educador precisa saber olhar para a tecnologia não como um substituto do pensamento, mas como um campo de provocação" - Foto: Pádua de CarvalhoPara dar um contorno ainda mais concreto ao uso das IAs para o planejamento das aulas, Encontro ouviu também as próprias educadoras do ITB, como Ana Emília, que descreve um uso pontual e prático, “para otimizar a criação de relatos diários para os pais, permitindo redigir sem a trava do perfeccionismo inicial”. Já Aline Bastos reconhece que a chegada da ferramenta esbarrou em resistência – “principalmente pelo receio de que a tecnologia pudesse substituir algumas práticas já consolidadas” – antes de se firmar como apoio ao planejamento e à busca de novas estratégias. Por fim, Renata Oliveira, que trabalha com bebês em berçário, avalia que, no caso dela, a IA não mudou a essência da sala, mudou o bastidor. “A sala do berçário continua sendo um ateliê de investigação, feito de chão, corpo, sensorialidade e materiais não-estruturados”, diz, acrescentando que, com o apoio da ferramenta na documentação e na organização dos registros, sobrou tempo para chegar “com um ambiente mais pensado e com provocações alinhadas ao que observamos em cada bebê no dia anterior”. Sua conclusão: “a IA não alterou o encontro entre educadora e bebê, ela o protegeu, garantindo uma educadora mais disponível para acolher, observar, interagir e brincar”.

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