Revista Encontro

Mapeamento

Estudo investiga impacto da endometriose na vida das mulheres brasileiras

Pesquisa inédita adapta questionário internacional para mapear efeitos físicos, emocionais, sociais e reprodutivos da doença no Brasil

Da redação
Estudos indicam que mulheres com endometriose podem levar de cinco a 12 anos para obter um diagnóstico - Foto: Freepik
Conhecida pela medicina desde 1860, a endometriose segue sendo um desafio para a saúde feminina no Brasil. Doença crônica inflamatória, considerada benigna, ela afeta mais de 7 milhões de brasileiras e pode provocar sintomas que vão de cólicas menstruais intensas e infertilidade a dores incapacitantes, com impacto direto na qualidade de vida, na saúde mental e no desempenho social, escolar e profissional de meninas e mulheres.
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Apesar da alta prevalência, o caminho até o diagnóstico e o tratamento adequados costuma ser longo. Estudos indicam que mulheres com endometriose podem levar de cinco a 12 anos para obter um diagnóstico correto, passando por cinco ou mais profissionais de saúde ao longo do processo. Entre os fatores que explicam essa demora estão a normalização da dor feminina, a escassez de especialistas com experiência na doença, a automedicação, o desconhecimento das opções terapêuticas, experiências negativas anteriores no sistema de saúde e sentimentos de vergonha ou constrangimento.
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As consequências desse atraso são significativas. A endometriose interfere na rotina diária, nas relações afetivas e sexuais, na fertilidade, no rendimento no trabalho e nos estudos, além de impactar o bem-estar emocional. Sem cura até o momento, a condição exige acompanhamento contínuo e tratamentos individualizados. Pelo número de mulheres acometidas e pelos custos gerados, tanto para os sistemas público e privado de saúde quanto pela perda de produtividade e absenteísmo, a doença é considerada um problema de saúde pública.
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Para aprofundar a compreensão sobre essa trajetória e seus efeitos, está em desenvolvimento um estudo inédito no país. Intitulado “Tradução, Aculturação e Validação para o português do Brasil do Endometriosis Impact Questionnaire (EIQ)”, o projeto é conduzido no Biocor Rede D’Or, em parceria com a USP Ribeirão Preto, a UNESP Botucatu e a UNICAMP. A coordenação é da ginecologista Dra. Márcia Mendonça Carneiro, professora titular de Ginecologia da UFMG.
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O objetivo do estudo é mensurar o impacto da endometriose em diferentes dimensões da vida das mulheres. Desenvolvido originalmente por pesquisadores australianos, o EIQ foi traduzido para o português com autorização dos autores e reúne 63 questões distribuídas em seis áreas: aspectos físicos, psíquicos, sexuais, reprodutivos (fertilidade), educacionais e profissionais.
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Até o momento, não há no Brasil pesquisas que avaliem de forma sistemática a jornada das mulheres desde o início dos sintomas até o tratamento, considerando de maneira integrada os impactos físicos, emocionais e sociais da doença. A aplicação do questionário na população brasileira permitirá identificar especificidades locais, ampliar o entendimento sobre os efeitos da endometriose e subsidiar estratégias mais eficazes de cuidado.

A expectativa é que o diagnóstico precoce, aliado a abordagens terapêuticas que respeitem as características individuais e os projetos de vida de cada mulher, contribua para reduzir os efeitos negativos da endometriose e possibilite uma vida plena, apesar da condição crônica.

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