Revista Encontro

Alerta

Consumo abusivo de álcool cresce nas capitais brasileiras, aponta estudo

Pesquisa coordenada pela UFMG mostra aumento entre adultos, sobretudo mulheres, e indica que Brasil pode não atingir meta global de redução até 2030

Da Redação (com informações da UFMG)
Estudo também apontou aumento do consumo abusivo em quase todas as faixas etárias, com exceção dos jovens de 18 a 24 anos e dos adultos entre 45 e 54 anos - Foto: Freepik
O consumo abusivo de álcool tem aumentado entre adultos residentes nas capitais brasileiras, com crescimento mais expressivo entre mulheres, pessoas com maior nível de escolaridade e indivíduos de diferentes grupos raciais. A tendência indica que o Brasil está se afastando da meta global de redução do consumo de álcool estabelecida para 2030.
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As conclusões fazem parte do estudo “Tendências temporais no consumo abusivo de álcool e suas projeções para 2030 nas capitais brasileiras”, coordenado pela professora Deborah Carvalho Malta, do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
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O artigo analisou dados coletados entre 2006 e 2023 pelo Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Pesquisa Telefônica (Vigitel). A pesquisa contou com a participação de mais de 800 mil adultos com 18 anos ou mais, residentes nas capitais brasileiras e no Distrito Federal.
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O objetivo foi examinar a evolução do consumo abusivo de álcool ao longo do tempo e gerar projeções até 2030, contribuindo para o desenvolvimento de políticas e programas de saúde voltados à redução do consumo de bebidas alcoólicas.
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Segundo Deborah Malta, o álcool é uma substância tóxica e psicoativa que pode provocar dependência. O consumo abusivo é caracterizado pela ingestão de cinco ou mais doses para homens e quatro ou mais para mulheres em curto período de tempo. A pesquisadora destaca que o fenômeno envolve fatores culturais e sociais complexos.
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“Em muitas sociedades, as bebidas alcoólicas são parte frequente das interações sociais, e é fácil ignorar ou desconsiderar os danos sociais e à saúde causados pelo seu consumo. Devemos reconhecer que o consumo de álcool está enraizado em práticas culturais, sociais e econômicas, o que exige abordagens de controle mais integradas e multidimensionais”, afirma.
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De acordo com o levantamento, a proporção de consumo abusivo de bebidas alcoólicas nas capitais brasileiras passou de 15,7% em 2006 para 20,8% em 2023.

Ao analisar os dados por sexo, os pesquisadores identificaram aumento significativo entre as mulheres, cuja prevalência passou de 7,8% em 2006 para 15,2% em 2023. Entre os homens, o índice permaneceu relativamente estável, passando de 25% para 27,3% no mesmo período.
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Entre as mulheres, o crescimento foi observado em 23 capitais brasileiras, com maior prevalência registrada nos estados de Mato Grosso do Sul, Bahia e Sergipe.

O estudo também apontou aumento do consumo abusivo em quase todas as faixas etárias, com exceção dos jovens de 18 a 24 anos e dos adultos entre 45 e 54 anos.
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Entre pessoas com 12 anos ou mais de escolaridade formal, a prevalência subiu de 18,1% para 24%. O crescimento também foi identificado entre diferentes grupos raciais: pessoas brancas passaram de 14,7% para 21%; negras, de 18,8% para 23,2%; e pardas, de 16,1% para 20,3%. Já entre pessoas de origem asiática houve redução, de 16,1% para 14,3%.
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A análise por regiões do país também mostrou aumento da prevalência do consumo abusivo de álcool. Os índices cresceram no Centro-Oeste, passando de 15,5% para 23,6%; no Nordeste, de 18,4% para 21,4%; no Sudeste, de 14,3% para 20,8%; e no Sul, de 13,2% para 20,7%.
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De acordo com as metas de Saúde e Bem-Estar estabelecidas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil deveria reduzir o consumo de álcool em 10% entre 2015 e 2030. Para atingir esse objetivo, a prevalência deveria chegar a 15,5% na população total, 22,8% entre homens e 9,2% entre mulheres até o final do período.
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No entanto, considerando a tendência observada entre 2015 e 2023, o estudo projeta que os índices devem alcançar 22,2% na população total em 2030, 26,5% entre homens e 19,3% entre mulheres.

Para a professora Deborah Malta, o cenário reforça a necessidade de fortalecer políticas públicas voltadas à redução do consumo abusivo de álcool. “É necessário fortalecer a restrição ao acesso a bebidas alcoólicas, aumentar a proibição de publicidade, promoção e patrocínio desses produtos, bem como intensificar o monitoramento das ações já implementadas. Somente por meio de respostas integradas, sustentadas e baseadas em evidências será possível reverter essa tendência e promover ambientes mais saudáveis e equitativos para a população”, concluiu.

Além de Deborah Malta, o artigo é assinado pelos pesquisadores da UFMG Crizian Saar Gomes, Regina Tomie Ivata Bernal, Alanna Gomes da Silva, Filipe Malta Santos e Sther Luna Abras dos Santos. Também participaram Guilherme Augusto Veloso, da Universidade Federal Fluminense, Paulo Ferrinho, da Universidade Nova de Lisboa, e Paula Carvalho de Freitas, do Ministério da Saúde.

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