Revista Encontro

Obra

Restauração da Santa Casa BH avança e 1ª etapa será entregue em dezembro

Dividida em quatro fases, a obra tem estimativa de valor total de R$ 125 milhões; já foi dada a largada para a captação de recursos para a segunda etapa

Lilian Monteiro
Tombada pelo município, o prédio da Santa Casa é patrimônio dos mineiros - Foto: Helbert Silva/Divulgação
A primeira impressão é a que fica. Já ouviu ou leu esta frase por aí. Ela se refere à tendência do cérebro em formar um julgamento rápido e duradouro, que pode durar de 7 a 10 segundos, de acordo com linhas de estudos da psicologia; ou até 20 segundos, pensando na duração da memória de curto prazo, conforme a neurociência. Seguro dizer que a imagem, ainda mais no século XXI, é tudo, define conceitos, interpretações e julgamentos. Com imagem impecável internamente, o prédio da Santa Casa BH, ícone da arquitetura Art Déco em Belo Horizonte, concebido em 1941 pelo arquiteto italiano Raffaello Berti e inaugurado em 1946, já não tem a mesma imagem no exterior depois de mais de 30 anos da última reforma, realizada em 1993. Por isso, o hospital de alta complexidade, o maior do estado e 100% SUS passa por primorosa restauração da fachada, dividida em quatro fases, sendo que a primeira, a fachada frontal, será entregue em dezembro ao custo de R$ 9 milhões. A captação de recursos para a segunda fase já está em curso. Foram arrecadados R$ 5 milhões, dos R$ 12 milhões necessários.  A estimativa para as quatro etapas gira em torno de R$ 125 milhões. 
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Tombada pelo município, o prédio da Santa Casa é patrimônio dos mineiros e o impacto da restauração dará nova imagem às fachadas laterais e à frente, assim como aos fundos e aos prédios da Oncologia e Nefrologia, dando vida a todo o complexo hospitalar com conceito de prédios verdes, paisagismo e soluções técnicas e de modernização com um plano urbanístico que vai ampliar o impacto visual e funcional. O processo inclui reparos estruturais, recuperação de ferragens expostas, esquadrias e partes desgastadas, além de projeto luminotécnico e reestruturação de todo o quarteirão da instituição. A intervenção ocorre pelo método de velatura sobre a tinta e reboco existentes. Técnica de aplicação de camadas finas, diluídas e translúcidas de tinta sobre uma camada de base já seca.
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Contemplado com recursos da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), com patrocínio de várias empresas, por meio do Ministério da Cultura e governo federal, a obra já é um marco. “A Santa Casa é uma instituição que nasceu da iniciativa privada. Foram empresários que, há 127 anos atrás, fundaram essa instituição. Então, ter o empresariado, ter iniciativa privada junto conosco, é um símbolo importante e forte para a sociedade. Talvez as pessoas não conheçam bem o que a Santa Casa faz, e esse prédio descascado, apesar de ainda ser bonito, não traz a realidade do que é feito dentro da instituição. A Santa Casa é um dos hospitais mais bem equipados do Brasil, mas hoje vemos a necessidade também de cuidar da parte de fora. Isso dá segurança ao paciente. Imagina um paciente que chega aqui para ser submetido a uma cirurgia e ao ver o aspecto do fica inseguro. Com a obra, ele vai chegar e ver um prédio bonito, icônico e um orgulho da nossa sociedade, da nossa instituição”, enfatiza Roberto Otto, provedor da Santa Casa BH.
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Roberto Otto revela que “a previsão de valor das quatro etapas é em torno de R$ 125 milhões. Ainda é uma estimativa porque duas etapas ainda estão em orçamento, que são as que devem consumir maior recurso. Mas temos certeza de que com o apoio das empresas e as manifestações renovadas vamos conseguir o recurso e entregar o projeto à sociedade”. Conforme o provedor, a previsão para a conclusão de toda obra “não é exata, mas acredito que nos próximos três, quatro anos concluímos este projeto”. 
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Para o sonho da restauração virar realidade, a Santa Casa conta com o patrocínio de empresas como o Supermercados BH, Minerita, Kinross Brasil, AngloGold Ashanti, Grupo Avante, J. Mendes, By Moto, Hypofarma, Novartis Brasil, Geopar, Grupo Multitécnica, Cedro Mineração, Patrus Transportes, Mhédica e Verde Distribuidora. Outras empresas anunciaram apoio ao projeto, entre elas a Jaguar Mining. Além disso, Usiminas e Lhoist fizeram doações por meio de Fundos de Impacto de Infância e Adolescência e do Fundo Municipal da Infância e do Adolescente. 
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Flávio Roscoe, presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), ressalta este envolvimento. “A Santa Casa tem uma relação com os mineiros de longa data, sendo muitas vezes a tábua de salvação de milhões de pessoas que já passaram por aqui de todo o estado. Havia necessidade desta reforma, que não é só de fachada, mas estrutural para transformá-la em um hospital do século XXI. São intervenções que vão dar funcionalidade para que ela continue sendo um hospital de excelência e portador de futuro para várias gerações de mineiros”.
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Diante do desafio de aproximar a iniciativa privada da Santa Casa, Flávio Roscoe se viu engajado na proposta apresentada por Roberto Otto. “A captação da primeira fase está completa e, agora, vamos fazer a segunda também. Isso não seria possível sem a sensibilidade dos industriais. Várias empresas contribuíram, atenderam nosso pedido e foram sensíveis à Santa Casa”.
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Memória afetiva 
 
Presente na cerimônia de explanação da obra, no Salão Nobre da Santa Casa, nesta terça-feira (11/03), Fábio Baccheretti, secretário de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) e médico especialista em radiologia da Santa Casa há 11 anos, lembrou que a instituição faz parte da sua rotina desde que nasceu. Portanto, “celebrar a restauração da fachada me faz lembrar de quando era amarela, da musiquinha lá atrás para a escolha da pintura, hoje trabalhando aqui, dei plantão aqui nas últimas quatro noites seguidas e sabendo o que acontece aqui dentro é de uma preciosidade imensa. É o maior hospital SUS no Estado, mais de 1.200 leitos, o segundo maior do país, mas em internação é o primeiro do Brasil. O que temos aqui é muito bonito, desde cada especialidade, cada residência médica e multidisciplinar que se atende todos os dias. Mas a carcaça precisava dar uma ajeitadinha. E saber que a sociedade civil, a partir do processo de lei de incentivo, que a cultura vai ajudar a fazer essa grande reforma é louvável. É o que os funcionários merecem, especialmente os pacientes, os usuários, que são o nosso foco”.
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Para o secretário, chegar em um lugar que se aparenta novo, bonito, já traz um pouco de esperança e paz num tratamento, muitas vezes, difícil, como a oncologia infantil. “Isso de fato vai ajudar até na recuperação dos pacientes. Então, fico feliz como secretário de saúde e como servidor, um profissional que trabalha aqui toda semana, desde 2015”.
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Arquitetura preservada 
 
O prédio da Santa Casa é um edifício de 13 andares que se destaca pela fachada simétrica com elementos verticais, uso de materiais como calcário cristalino e formas geométricas. Tudo será preservado e as intervenções seguirão as regras de preservação de um patrimônio histórico. Processo que cabe ao arquiteto João Grillo. “A Santa Casa é uma das instituições mais importantes e respeitadas da cidade. A vida dentro deste hospital tem uma dinâmica impressionante, são 15 mil refeições por dia, e tudo isso num projeto feito em 1940, onde as questões eram muito mais simples. Hoje, o desafio é atualizar esse projeto com todas as necessidades técnicas, tecnológicas, de espaço e de circulação. E tudo isso em um prédio tombado, preservado, portanto, é também emocionante”.
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João Grillo explica que o projeto de intervenção nasceu de uma ideia feliz: uma estrutura metálica paralela ao prédio: “A ideia foi muito bem aceita pelos órgãos de preservação do patrimônio porque ela, praticamente, não encosta no prédio principal e dá solução para a maioria dos problemas de circulação horizontal e vertical e problemas de subidas dos dutos de ar-condicionado. Assim, a ideia é construir essa estrutura paralela, do lado de fora, foi muito boa e tem vantagens. A Santa Casa é um hospital de ponta e eu acho que atualizar essa arquitetura, com uma construção de ponta, foi uma sacada”.
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Até a conclusão da obra, João Grillo lembra que haverá ainda atenção com o lado estético, como projeto de paisagismo. “No futuro um projeto paisagístico, construído na área interna da Santa Casa, teremos uma área verde aprazível, que hoje não tem e as pessoas ficam no entorno do prédio, do lado de fora, e este espaço será uma contribuição para o bem-estar diante dos momentos delicados vividos por aqui”. 
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Porta-voz dos colaboradores 
 
Pediatra há 39 anos, a médica Filomena Camilo, a doutrora Filó, intensivista e cardiologista pediátrica na Santa Casa, ressalta o significado do momento para a instituição sendo a voz dos mais de 7 mil funcionários. “A Santa Casa é um lugar sagrado, ela defende a vida, a vida de tantos. Pensar em restauração onde a vida acontece de forma espetacular é extraordinário. Do provedor ao porteiro, todos lutam para salvar vidas, é o único propósito de forma direta ou indireta. Salvar e lutar pela vida daqueles que não conhecemos. Estamos em uma era visual, medidos em 20 segundos. A pior experiência do ser humano é adoecer e chegar a um hospital com uma fachada feia induz a pergunta: ‘vão cuidar bem de mim aí?’ Restaurar a fachada é um simbolismo. O bonito que fazemos dentro da Santa Casa precisa transparecer para fora também. Quero que de fora as pessoas vejam este lugar e saibam que ele faz coisas belas, memoráveis e com amor. E, assim, sigamos mantendo o espetáculo da vida, mantendo-a de pé”.

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