“O estudo traz evidências robustas, relevantes, de que se deve considerar o padrão de consumo de álcool como fator de risco, e chama a atenção para quem consome de vez em quando uma grande quantidade, o que às vezes pode até parecer um ‘consumo recreativo’”, analisa a hepatologista Carolina Pimentel, do Einstein Hospital Israelita.
. O trabalho analisou dados coletados entre 2017 e 2023 de 8 mil participantes do levantamento National Health and Nutrition Examination Survey, nos Estados Unidos. Os pesquisadores observaram que consumir álcool em excesso ao menos uma vez por mês — quatro ou mais doses para mulheres e cinco ou mais para homens — representa um risco maior de fibrose hepática do que ingerir a mesma quantidade diluída ao longo desse período.
. Os achados são especialmente preocupantes diante do avanço da esteatose hepática, popularmente conhecida como “gordura no fígado”. A condição, ligada principalmente ao estilo de vida, já afeta cerca de 40% da população adulta mundial. Ela pode desencadear inflamação crônica, cicatrizes, cirrose e até câncer hepático. Atualmente, a doença está entre as principais causas de transplante de fígado.
. Nos últimos anos, especialistas também passaram a revisar a classificação dessas doenças. Desde 2023, o popular “fígado gordo” recebeu o nome oficial de doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD, na sigla em inglês), pois se sabe que o depósito de lipídios está associado a um conjunto de alterações metabólicas como obesidade, hipertensão, altas taxas de glicemia e triglicérides e baixo colesterol HDL. Mas, se além de gordura o indivíduo consome bebida alcoólica com frequência, trata-se da doença hepática metabólica e alcoólica (MetALD).
. O novo estudo sugere que parte dos pacientes classificados hoje como MASLD também deveria ser considerada em uma categoria de maior risco associada ao álcool. Segundo os autores, cerca de 16% dessas pessoas relataram episódios ocasionais de consumo excessivo.
. Para Carolina Pimentel, o artigo reforça a necessidade de ampliar o rastreamento e o acompanhamento desses pacientes. “Não é ‘só uma gordurinha’”, alerta. “O fígado sofre silenciosamente durante muito tempo. Mesmo com fibrose ou até cirrose, ele consegue manter suas funções sem causar sintomas. Quando aparecem, pode ser que a pessoa já tenha um câncer hepático ou precise de transplante.”
Para evitar complicações, é essencial realizar check-ups regularmente e identificar precocemente sinais de esteatose, para que ela não evolua de forma silenciosa. E lembre-se: não existe dose segura de consumo alcoólico.