Educação musical nas escolas ajudaria a acabar com a 'mesmice' das canções, diz especialista

A cultura de produção em massa seria responsável pela redução da qualidade das composições atuais

por Encontro Digital 13/09/2017 15:48

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Como explica a especialista, a padronização musical para o consumo de massa, hoje, causou a perda de várias características básicas da música, afetando a qualidade (foto: Pixabay)
Embora nos dicionários ouvir e escutar apareçam como sinônimas, as palavras podem assumir significados diferentes, sobretudo quando falamos da produção musical de nossa indústria cultural. O condicionamento e a nivelação do gosto e até a maneira de pensar formam os hábitos auditivos. Segundo a professora Cristina Camargo, da Universidade Estadual de Santa Catarina (Udesc), a padronização, a satisfação imediata e o consumo, cada vez mais intenso e tecnológico, geraram um "adestramento na percepção ao promover um estado quase permanente de distração e de entretenimento".

A professora esclarece que ouvir é um ato involuntário, mas o "modo como se ouve é particular, singular e consiste na construção interpretativa do ser humano". Além disso, como somos "bombardeados" por estereótipos, o que fica é o "reconhecimento do sempre igual, rejeitando aquilo que se diferencia do padrão, da percepção do novo". Se a sensibilidade é responsável por nossas escolhas, determinando a construção do gosto e de nosso juízo estético, na sociedade capitalista a construção dos hábitos de audição e formação musical está repleta de reflexos condicionados, como mostra a especialista. "Da repetição [imitação] ao reconhecimento, do reconhecimento à aceitação. Com esse paradigma, não há quem escape da influência e do controle da indústria da cultura", afirma Cristina Camargo.

A música popular urbana é a que mais contribuiu para a "padronização e mudanças nos hábitos de audição com a estagnação de padrões como a estrutura de distração, ligada à mecanização do trabalho", na opinião da professora da Udesc. O entretenimento passa a ser uma forma de relaxamento uniforme, sem esforço de atenção. A padronização musical para o consumo de massa, especialmente em relação à canção popular, conforme Cristina, levou a uma redução dos parâmetros básicos das dimensões estruturais que compõem a música (altura, duração, intensidade e timbre), dos atributos de expressão (andamento, dinâmica e articulação) e dos princípios poéticos musicais como repetição, contraste e variação.

Com isso, a estudiosa aponta a importância da reinserção da música como disciplina nas escolas, que em sua visão deveriam contar com um conteúdo curricular musical abrangendo história da música e da arte. Ela salienta ainda a importância da postura crítica do educador para ajudar na construção de bons hábitos da audição, preservando a diversificação do gosto musical dos alunos. Tudo isso em um "processo vivo, dinâmico e mutável, de análise, interpretação e escolha, preparando-os para o desenvolvimento futuro de seu juízo estético, na valorização da música enquanto linguagem". O objetivo é que os estudantes adquiram um "pensamento crítico por meio da invenção, apreciação/especulação e práticas musicais", que lhes possibilite "ouvir, escutar, interpretar, compreender, julgar e escolher".

(com Jornal da USP)

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