
Inspirado no conto “Pinguinho”, de Viriato Corrêa, e em escritos do educador e escritor Rubem Alves, o espetáculo articula memória, afeto e tradição popular. No palco, um vilarejo ganha forma por meio da atuação de 13 intérpretes que também executam, ao vivo, canções pertencentes ao imaginário coletivo. A música não funciona como acompanhamento, mas como estrutura dramatúrgica que conduz a narrativa e estabelece um espaço de encontro entre palco e plateia.
A dramaturgia, assinada por Julia Cavalcanti e Paula Guerreiro, constrói a saudade como presença ativa — algo que é cantado, dito e corporificado em cena. Nesse universo, a morte deixa de ser apenas ruptura e passa a revelar a fragilidade da vida e a força das lembranças compartilhadas, conectando o interior do Brasil a outras culturas e territórios.
Com direção musical de Everton Gennari, “Saudade” aposta em repertórios tradicionais em português, espanhol, francês, italiano e latim. As canções, amplamente reconhecíveis, atravessam línguas e gerações, acionando referências afetivas e reforçando a dimensão coletiva da experiência cênica. O resultado é uma encenação que transita entre o teatro popular e uma pesquisa multicultural, sem perder o vínculo com as raízes brasileiras.
O espetáculo chega a Belo Horizonte após uma trajetória internacional iniciada ainda em fase de pesquisa. Em 2024, o projeto foi selecionado, entre mais de 200 inscrições de 24 países, pela Convocatoria Iberoamericana de Residencias de Creación do Iberescena, que escolheu apenas dois trabalhos. A partir daí, o grupo realizou uma residência artística junto ao Teatre Nu, em um vilarejo próximo a Barcelona, com desdobramentos na Itália, França e Inglaterra. Segundo Douglas Novais, a recepção do público europeu evidenciou a potência universal da obra. “Lá apresentamos uma primeira versão do espetáculo em espanhol para um público que, no debate pós-espetáculo, parecia tão conectado à obra que foi como se, entre aquele vilarejo catalão e nosso Brasil profundo, não houvesse tanta diferença assim”, conta.
Além da temporada, o CCBB BH promove atividades formativas e de diálogo com o público. O bate-papo Olhar em Cena acontece sempre às sextas-feiras, após as sessões. Já as oficinas gratuitas Voz em Ação (17 de janeiro) e Corpo-coro (18 de janeiro) compartilham aspectos centrais da linguagem do grupo e são voltadas a interessados a partir de 16 anos.
Espetáculo “Saudade”. De 9 de janeiro a 2 de fevereiro, sexta a segunda-feira, às 20h, no Teatro I do CCBB BH (Praça da Liberdade, 450, Funcionários, BH/MG). Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada), à venda em ccbb.com.br/bh e na bilheteria do CCBB BH.