
Essa diferença entre origem comum e resultado radicalmente diverso serve como chave de leitura para “Forma, Espaço e Matéria!”, nova exposição do escultor Ricardo Carvão Levy, que entra em cartaz a partir desta quinta-feira (8), no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Gratuita, a mostra segue até 12 de abril e integra a programação comemorativa dos 55 anos do complexo cultural.
A exposição ocupa diferentes áreas do Palácio e propõe um percurso pela produção escultórica do artista ao longo de décadas, reunindo obras que exploram aço, materiais descartados, tela metálica e policromia. O conjunto reafirma uma trajetória marcada pela experimentação formal, pela relação com o espaço urbano e pela recusa à cristalização estética.
“Tenho um carinho especial pelo Palácio das Artes. Foi aqui que, após sete anos de trabalho silencioso, realizei minha primeira exposição individual, em 1979, na então Grande Galeria, hoje Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard, apresentando parte do ‘ciclo do couro’. Em 1998 fui convidado para inaugurar o espaço aberto, como extensão das galerias, com a exposição Tubismo, esculturas em aço; onde agora, acontece Forma, Espaço e Matéria! Desde então, sigo criando, diversificando materiais, técnicas e linguagens. Não cristalizar é uma norma para mim - inclusive romper regras que eu mesmo estabeleci. A criação é meu oxigênio: sem ela, algo essencial me falta”, afirma o artista.
Na Galeria Aberta Amilcar de Castro, o público encontra um estudo de 1982, com três metros de altura, que reproduz a escultura Monumento à Paz, instalada na Praça do Papa, em Belo Horizonte. A obra original possui 24 metros de altura e pesa 92 toneladas. No mesmo espaço, estão oito esculturas da Série Cubismo, em aço oxidado in natura, além da instalação O Último Suspiro da Mata, composta por 18 esculturas produzidas entre 1980 e 1990, feitas com material descartado, aço oxidado e argila expandida.
Outros núcleos se espalham pelo complexo. No Café do Palácio, duas esculturas suspensas da Série Cubismo dialogam com o espaço de convivência. Já no Passeio Niemeyer, em frente ao Parque Municipal, está a Série Tubismo, com sete esculturas produzidas a partir de filtros de poço artesiano descartados, utilizando técnicas de corte, deslocamento e solda. Nos jardins internos, uma escultura em tela de aço, alumínio, policromia e materiais reaproveitados completa o percurso.
Embora nascido em Belém do Pará, Ricardo Carvão Levy vive e trabalha há mais de 60 anos em Minas Gerais, estabelecendo uma relação profunda com o ferro, material que marca tanto a paisagem quanto a tradição escultórica do estado. Ainda assim, sua obra não se limita a essa herança. A formação sensível do artista é atravessada pela memória da paisagem amazônica, pela escala da floresta e dos rios, além da influência das artes pré-colombianas, especialmente das culturas marajoara e tapajônica.
Essa referência se aprofunda na juventude, durante uma viagem ao México, quando a visita ao Museu Nacional de Antropologia provoca um impacto decisivo. O contato com essas culturas reafirma, segundo o próprio artista, a força do simbolismo aliado à geometria como base estrutural de seu pensamento visual.
No texto curatorial, Cynthia Rabello destaca o caráter mutável da produção de Carvão Levy: “desde os seus primeiros gestos escultóricos, Ricardo Carvão Levy construiu uma obra em permanente metamorfose. Depuração e reinvenção que sustentam uma prática que tenciona materiais, técnicas, estilos e propósitos, articulando o rigor geométrico à abertura, ao imprevisto; que encontra no risco, no espaço e na matéria o seu modo de existir”.
Exposição “Forma, Espaço e Matéria”. Abertura em 8 de janeiro, às 19h. Visitação de terça a sábado, das 9h30 às 21h, e domingo, das 17h às 21h. De 9 de janeiro a 1º de fevereiro. Galeria Aberta Amilcar de Castro, Café do Palácio, Passeio Niemeyer e jardins internos do Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1537, Centro). Classificação livre. Entrada gratuita.