
O projeto reúne montagens inéditas inspiradas em obras universalmente conhecidas e que dialogam, entre outros temas, com a fragilidade e a degradação masculina. “Um dos nossos principais objetivos é a formação de público, um conceito inerente ao fazer artístico. Isto não se adquire apenas oferecendo mercadologicamente uma obra teatral. Alguém que somente vê internet, provavelmente não terá interesse em procurar atividades intelectuais e artísticas presenciais. Alguém que nunca foi ensinado e estimulado a ler, ver uma exposição, buscar uma peça teatral para assistir, raramente o fará sem que haja dispositivos de sensibilização. O que fazemos nesta Mostra é arregimentar esforços, vocação, talento e recursos financeiros próprios, para dizer: venha AO TEATRO, é para você. Teatro é arte e precisa ser para todos. Arte também é ofício. Estamos vivos”, contextualiza a diretora Rita Clemente.
Nesta edição, o projeto envolve mais de 40 profissionais entre produtores, atores, técnicos e gestores culturais, com destaque para o protagonismo de artistas com mais de 40 anos, como Júlio Maciel, Alexandre Toledo, Cláudio Dias, Letícia Castilho, Enio Rodrigues, Mário Moraes e a própria Rita Clemente, que encerra a mostra em cena como Lady Macbeth no solo “Delírio e Queda”.
Segundo a diretora, o encontro entre artistas independentes ocorreu de forma orgânica: “aqueles que buscam autonomia na escolha de temas, textos e ideias e que, como a maioria dos artistas contemporâneos, necessitam de fomento e acabam buscando outras formas de realizar seus trabalhos, para além dos mecanismos de incentivo fiscal. Em geral são artistas comprometidos com o público e com o desenvolvimento técnico e artístico do seu ofício”, explica Clemente.
A programação apresenta seis estreias inspiradas em textos de Franz Kafka, Anton Tchekhov, Gabriele D’Annunzio e William Shakespeare, reinterpretados sob uma perspectiva contemporânea. Rita Clemente destaca que as adaptações seguem um “modo de operar antropofágico”, aproximando os clássicos das urgências atuais.
“Trazer textos universais e sobre eles ter uma abordagem original não é novo, mas nunca será ultrapassado: é mostrar a potência da criatividade e o valor da arte feita antes de todos nós, sob a tutela imprescindível do olhar contemporâneo. É também afirmar: faço o que a arte me dá por direito fazer, em relação a toda e qualquer herança histórica, seja ela brasileira ou não. O público vai assistir desde interpretações profundas e realistas, mas também mascaramentos e proposições que impressionam pelo rigor estético. Verticalizamos encenações íntimas e tocantes; potencializamos entrelaçamentos estéticos e estilísticos entre as obras; discussões sobre poder; o ser humano e seu conflito existencial; e há em comum o masculino degradado e chacoalhado pela própria decadência abordado por artistas impregnados da vontade de criar“, destaca.
Apesar de a mostra ser composta majoritariamente por solos, as montagens dialogam entre si. Para a diretora, essa relação se constrói como uma espécie de “ópera” dramatúrgica. “Embora sejam obras independentes, acabei por trabalhar como se estivesse criando uma ópera em quadros com história diferentes, mas com linguagem semelhante. São solos, porque também expressam claramente a falta de condições de artistas independentes realizarem trabalhos consistentes com mais de um ator em cena. Por isso, venho desenvolvendo conceitos e práticas que dão ao Solo um qualidade dialógica: há sempre diálogo, mesmo que haja apenas um ator”, comenta a diretora.
Programação
A mostra abre com “A extravagante e cotidiana vida de Pedro, o Macaco-Homem”, solo com Mário Moraes inspirado no conto Um Relato para a Academia, de Franz Kafka. O espetáculo fica em cartaz de 6 a 8 de março.
Nos dias 10 e 11 de março, Enio Rodrigues apresenta “Espantalho”, adaptação de Os Males do Tabaco, de Anton Tchekhov, seguida de roda de conversa com o público.
Entre 12 e 15 de março, Alexandre Toledo protagoniza “Invisível”, inspirado no conto Giovanni Epíscopo, de Gabriele D’Annunzio.
Júlio Maciel apresenta a cena experimental “Escorpiões na Alma”, livre adaptação de Macbeth, de Shakespeare, nos dias 17 e 18 de março, também acompanhada de roda de conversa.
De 19 a 22 de março, “Haicais para Diadorim – para os amantes tornados invisíveis” propõe um cruzamento poético entre culturas, com interpretações de Cláudio Dias e Letícia Castilho a partir do texto de Carlos Viegas.
Encerrando a mostra, Rita Clemente estreia o solo “Delírio e Queda”, adaptação de Macbeth, com sessão para convidados no dia 26 de março e apresentações abertas ao público de 27 a 29.
Serviço
Mostra AO TEATRO. 6 a 29 de março. Teatro de Bolso do Sesc Palladium, Belo Horizonte. Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia), mediante doação de 1 kg de alimento não perecível; à venda pelo Sympla e na bilheteria do Sesc Palladium.