
A montagem é resultado de uma parceria entre os grupos Clowns de Shakespeare (RN) e Magiluth (PE) e parte de uma situação ficcional: um grupo de profissionais de eventos prepara um teatro para a posse de um governador recém-eleito, mas precisa lidar com a morte inesperada do líder, o que desencadeia uma sequência de ordens, pressões e urgências.
Inspirada na tragédia “Coriolano”, de William Shakespeare, a peça não se propõe a adaptá-la diretamente. Em cena, a narrativa assume contornos de fábula contemporânea, com elementos de realismo fantástico, comicidade e música, para refletir sobre o trabalho no Brasil atual.
O espetáculo foi desenvolvido a partir de residências artísticas realizadas em Natal, Recife e Rio de Janeiro, com direção de Fernando Yamamoto e Luiz Fernando Marques (Lubi). “O processo da montagem foi muito natural. Fomos descobrindo, juntos, onde estavam as fraturas do presente, e daí nasceu CÃO. É uma obra que reflete profundamente a poética dos dois grupos, esse encontro tão desejado há tantos anos”, afirma Fernando Yamamoto.
A construção dramatúrgica parte de temas como conflito de classes e precarização. “A gente parte de Shakespeare, mas usando só o que nos interessa: o conflito de classes, a insatisfação do povo, a manipulação política e o jogo de forças que recai sempre sobre quem trabalha”, pontua Yamamoto.
Para Luiz Fernando Marques (Lubi), o ponto de partida da criação foi o olhar para os trabalhadores. “Tanto no texto original quanto na realidade latino-americana, são sempre essas figuras que sustentam tudo, organizam tudo, reorganizam tudo, e são justamente as mais precarizadas”, comenta.
A peça também dialoga com o próprio fazer cultural. “A cultura é um campo em que a precarização aparece de maneira gritante. E é justamente nesse campo que seguimos criando, resistindo e nos reinventando”, completa Lubi.
Ao transformar situações de caos em comicidade, o espetáculo constrói uma crítica social que atravessa o humor. “O humor, aqui, não alivia a crítica, mas a expõe. Cada atropelo, cada falha de comunicação, cada ordem descabida evidencia a precarização que realmente vem atravessando as relações de trabalho no Brasil”.
Em cena, o elenco é formado por Caju Dantas, Diogo Spinelli, Erivaldo de Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Mário Sérgio Cabral, Olivia León e Paula Queiroz. A dramaturgia é assinada por Giordano Castro e Fernando Yamamoto, com dramaturgia musical de Ernani Maletta.
Além das apresentações, a programação inclui um bate-papo com os criadores no dia 1º de maio, às 16h, com entrada gratuita.
Serviço
Espetáculo CÃO
Local: Teatro I CCBB BH (Praça da Liberdade, 450 – Funcionários)
Temporada: de 03/04 a 04/05, de sexta a segunda-feira, às 20h
Ingresso: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada).
Venda: no site ccbb.com.br/bh e na bilheteria do CCBB BH.