Estado de Minas CINEMA

Cineclube Comum estreia no Humberto Mauro com mostra gratuita

Parceria com a Fundação Clóvis Salgado leva sessões mensais comentadas ao Palácio das Artes ao longo de 2026, com foco na experiência sensorial do cinema


postado em 02/03/2026 09:02 / atualizado em 02/03/2026 09:19

"Aguaespejo Granadino" é uma das produções exibidas na mostra (foto: José Val Del Omar)
Um dos projetos mais tradicionais de exibição e debate cinematográfico de Belo Horizonte, o Cineclube Comum passa a ocupar, pela primeira vez, o Cine Humberto Mauro, no Palácio das Artes. A partir de parceria entre a Fundação Clóvis Salgado (FCS) e o Instituto Cervantes de Belo Horizonte, a mostra “Visões Táteis” será realizada ao longo de 2026, com sessões mensais gratuitas sempre nas primeiras terças-feiras de cada mês.

A programação tem início nesta terça (3), às 19h30, com exibição de filmes do cineasta e inventor espanhol José Val del Omar (1904–1982). As sessões contarão com comentários dos integrantes do Cineclube Comum — Fábio de Carvalho, Helena Elias e Victor Guimarães — além de pesquisadores de cinema convidados.

Metade dos ingressos será disponibilizada on-line, a partir do meio-dia do dia de cada sessão, pela plataforma Sympla. O restante será distribuído presencialmente na bilheteria principal do Palácio das Artes e no totem localizado no hall, meia hora antes da exibição, mediante apresentação de documento com foto.

Criado em 2012, o Cineclube Comum se consolidou como espaço dedicado à exibição e à reflexão crítica sobre o cinema na capital mineira. Ao longo de sua trajetória, o projeto realizou mais de dez mostras em diferentes espaços culturais da cidade, entre elas “Sabotadores da Indústria” (Sesc Palladium, 2015), “Brasil 68” (Cine Santa Tereza, 2018) e “Defesa do Atrito” (Centro Cultural Unimed-BH Minas, 2024). O cineclube também mantém a coleção editorial Cadernos do Cineclube Comum, atualmente com cinco volumes dedicados a ensaios sobre filmes exibidos nas programações.

Mostra “Visões Táteis”

Inspirada na obra de José Val del Omar, a mostra “Visões Táteis” propõe uma reflexão sobre o cinema como experiência física e sensorial. Segundo o curador Victor Guimarães, a proposta dialoga com o contexto contemporâneo marcado pela saturação de imagens e pela dispersão da atenção.

“Em um tempo em que a dispersão, o excesso de informações e a saturação de imagens nos empurra a uma desconexão em relação a tudo o que é concreto e tangível, apostamos na capacidade do cinema de fazer valer o sentido do tato, esse que, no dizer do ensaísta argentino Pablo Maurette, foi por muito tempo considerado um ‘sentido esquecido’. No interessam, assim, os filmes que incorporam o aspecto tátil, ou ‘tudo aquilo que se expressa por meio de pulsações, rangidos, torções, expansões, acelerações, resfriamento, equilíbrio e desequilíbrio’. Como escreve Maurette, ‘tudo que nos comove, nos excita, nos agita, tudo que nos afeta com maior ou menor intensidade é experimentado como uma forma de tato’. É em busca dessas intensidades que se move a mostra ‘Visões Táteis’”, explica. 

A sessão de abertura reúne três curtas que integram o Tríptico Elemental de España — “Aguaespejo Granadino” (La Gran Siguiriya) (1953–1955), “Fuego en Castilla” (Tactilvisión del Páramo del Espanto) (1958–1960) e “Acariño Galaico” (De barro) (1961–1962) — além do filme “Vibración de Granada” (1934–1935). Val del Omar destacou-se não apenas como cineasta, mas também como fotógrafo, escritor, educador e inventor de dispositivos técnicos voltados à experimentação audiovisual. “Seus filmes possuem uma qualidade tátil muito evidente, produzida através de procedimentos técnicos e formais, como suas coreografias de luz, que proporcionam aos espectadores uma outra experiência de exibição na sala escura”, caracteriza Victor.

A curadoria da mostra inclui ainda produções experimentais, filmes de gênero, obras do cinema marginal e títulos de diferentes territórios e tradições cinematográficas, explorando desde registros etnográficos até o horror e o melodrama, com foco na relação física entre imagem, som e espectador.

Para o gerente de Cinema da Fundação Clóvis Salgado, Vitor Miranda, a proposta reforça a potência da experiência coletiva da sala de cinema. “São filmes em que o olhar não se restringe a um expediente óptico, mas incorpora algo do movimento do corpo”, comenta. “Obras que convidam mais a uma atenção à textura das superfícies do que à enunciação, e que de alguma forma se esquivam de leituras imediatas. Em diálogo com Val del Omar, um cinema que se volta para o instinto, a carne e o tato, a mostra aposta em filmes que recuperam a sala de cinema como espaço privilegiado de imersão, e é uma felicidade podermos promover esse mergulho, em parceria com o Cineclube Comum, aqui no Cine Humberto Mauro, um local tão tradicional para os cinéfilos mineiros”, celebra.
 
Serviço
Cineclube Comum – Mostra “Visões Táteis”
Data: Primeira sessão no dia 3 de março (terça-feira)
Horário: 19h30
Local: Cine Humberto Mauro – Palácio das Artes
(Avenida Afonso Pena, 1537, Centro – Belo Horizonte)
Classificação indicativa: 12 

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