Estado de Minas ARTES

Mostra da maranhense Marlene Barros exalta olhar sobre o universo feminino

Com 13 obras em escultura, crochê e bordado, criações da artista ficam em cartaz de 4 de março a 1º de junho no CCBB


postado em 04/03/2026 06:20 / atualizado em 04/03/2026 06:39

A artista maranhense Marlene Barros(foto: Divulgação/Larissa Micenas)
A artista maranhense Marlene Barros (foto: Divulgação/Larissa Micenas)
Uma exposição que expõe o feminino, com dores e gozos. Com feridas e o ferir. Com prisão e liberdade. Com grito e silêncio. Acima de tudo, com a coragem de uma artista de se desnudar diante do ser feminino. Pela primeira vez em terras mineiras, a artista maranhense Marlene Barros, com quatro décadas de atuação, exibe sua obra no Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte (CCBB BH), de 4 de março a 1º de junho, com a exposição “Marlene Barros: Tecitura do Feminino”, com peças em escultura, crochê e bordado. A criação é fruto da pesquisa desenvolvida durante seu mestrado em “Arte Contemporânea”, na Universidade de Aveiro, em Portugal, quando propôs costurar simbolicamente uma casa em ruínas como um gesto de remendar fissuras do tempo. A casa, convertida em metáfora do corpo, foi o meio de reflexão do universo feminino em suas dimensões sociais, políticas e afetivas, compreendendo a tecelagem como metáfora dos vínculos, da memória e do fluxo da vida. 
 
Para Marlene Barros, sua exposição poderia ser chamada de “quimera”, e assim ela deve tocar o público ao expor uma obra orgânica com peças que passeiam do fantástico ao monstruoso e extraordinário, da coerência ao absurdo, do sonho à utopia, do disparate à imaginação, da ilusão à realidade dura e crua.  “Produzo uma arte que não fique à parte”, ela alerta. E, assim, Marlene escreve em sua obra uma “poesia visual” que abarca tanto pela beleza quanto como arma para falar ao agressor da mulher. “A proposta é que as pessoas reflitam”. Uma convocação, principalmente, aos homens. 
 
A artista propõe desencadear um pensamento crítico sobre o corpo feminino, com significados e significantes, o alerta sobre a violência em escala, a desvalorização, o calar, o subestimar e a invisibilização de seus fazeres no campo da arte. “Não ouvimos falar em gênia da arte”, alfineta. 
 
Linhas, agulhas, costura, crochê, o fazer manual, habilidades ainda vistas como próprias do universo feminino e que fazem parte da vida de Marlene desde sempre. E que, descoberta artista há quatro décadas, fez do costurar uma forma de pensar o mundo e da agulha um instrumento de denúncia, como as antepassadas. “Vejo que muitas mulheres trabalharam em silêncio. Aponto as Arpilleras (mulheres chilenas que durante a ditadura militar de Pinochet (1973-1990) bordavam em tecido rústico como forma de denúncia, resistência e subsistência) como a grande força de fazer de um objeto fino e delicado, mas que fura, fere e tira sangue, uma voz”.  
 
Entre as obras presentes na exposição, chama a atenção “Eu tenho a tua cara”, uma instalação composta por 49 rostos de mulheres com olhos e bocas trocados e costurados. “É uma provocação. Tiro a personalidade de todo mundo, transformo em outros rostos. A minha intenção é dizer que esta boca e este olho não são de ninguém, mas de todas nós, para uma falar e olhar pela outra”.
 
Outras criações que tocam são “Entre nós” e “Quem pariu, que embale” , que tensionam o espaço doméstico e o cuidado sempre à cargo da mulher. “Por mais que não queira, ainda repetimos esta educação. E o homem não quer que mude porque é confortável para ele. As mulheres mudaram, eles continuam os mesmos e, agora, estão sem chão. Nada contra eles, é só uma observação”.
 
Ao criar sobre o universo feminino, Marlene revela que o tema a escolheu e não o contrário. “Desde menina, sempre fui ligada à figura da mulher. Ter esta ligação e não vazar por este caminho, não abordar a violência, é impossível. Quero mesmo que meu trabalho seja uma arma, a mais potente que eu puder criar”. E os números embasam a artista. Conforme dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, no Brasil, 1.470 mulheres foram vítimas de feminicídio durante o ano de 2025. Média de 4 mulheres assassinadas por dia por razões de gênero. Em Minas, números da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais (Sejusp), foram registrados 139 feminicídios em 2025, sendo o segundo estado que mais registrou casos no país, atrás apenas de São Paulo (233 casos), com média de uma mulher assassinada a cada dois dias. “Ao vir para cá, soube deste cenário, e achei importante. Por isso, quero muito que os homens venham, vejam e se sensibilizem porque não vamos fazer nada sem a colaboração deles. Não é uma luta contra homens, pelo contrário, queremos todos juntos, com o mesmo sentido e sentimento”. Marlene teve avó e tia vítimas de violência.
 
Em “Tecitura do Feminino”, Marlene nos mostra como cada ponto é uma palavra não dita, como cada fio é uma história que se recusa a desaparecer. “É bom deixar a interpretação em aberto. Quando deixo tantas agulhas com linhas nas obras quero dizer que a obra não fecha, não encerra, está sempre em processo e o olhar do outro é o principal. Meu trabalho só tem continuidade no olhar do outro... e da outra”. 
Fazendo sua estreia em Minas, indagada se pudesse bordar uma frase nas paredes do CCBB BH qual seria, Marlene falou em percepção: “O prédio me impactou e me impressionou ao perceber as grades que são fortes e rendadas ao mesmo tempo, rendas de aparência frágil. Além, claro, da beleza, do acolhimento do espaço e das pessoas. Então, escreveria ‘bordar e abordar o CCBB”.   
 
Com curadoria de Betânia Pinheiro, a mostra transforma o gesto íntimo do costurar em narrativa pública de resistência. A montagem do percurso expositivo, coordenada por Fábio Nunes, com produção executiva de Júlia Martins, propõe uma trajetória não cronológica, permitindo que o público construa sua própria experiência. “A ordem de visita é livre, o visitante pode dialogar hoje com uma obra, ir embora, voltar outro dia se sentir à vontade ou não com um outro percurso. É uma exposição de instalações individuais, com mensagens individuais que estão interligadas. Uma vivência da artista que se junta à história do outro, há uma conexão adentrando à narrativa da outra pessoa e ali se escuta. Uma narrativa do universo feminino, que não está no Norte, no Nordeste, mas em todo lugar”, reforça Betânia Pinheiro.
 
Conceito que transborda 
 
Entre as obras apresentadas nesta primeira exposição de Marlene Barros , vale chamar a atenção para cinco criações que se destacam pelo transbordamento de sensibilidade e denúncia. São elas: 
Eu tenho a tua cara – Instalação composta por 49 rostos de mulheres com olhos e bocas trocados e costurados.
 
Caixa Preta – Caixas com fotografias, intervenções têxteis, colagens e escritas compõem uma espécie de autorretrato expandido.
Coso porque está roto – Casaco cujo avesso revela o interior do corpo humano. A obra dialoga com o dito popular que associa o ato de remendar à proteção contra o mal-agouro.
 
Entre nós – Imersão em objetos de crochê que convida à reflexão sobre atividades historicamente atribuídas às mulheres e naturalizadas em contextos de submissão doméstica.
 
Quem pariu, que embale – Trabalho que problematiza a atribuição quase exclusiva do cuidado dos filhos às mulheres.
 
Vale ressaltar que a exposição abraça ainda mais a inclusão ao selecionar obras que podem ser tocadas, uma verdadeira imersão para ampliar seu alcance com o público com alguma deficiência. 
 
Ações formativas gratuitas e abertas ao público 
 
A temporada da exposição vai oferecer ações formativas gratuitas e abertas ao público.  Durante todo o período expositivo, o público poderá interagir com a exposição, num espaço/ateliê e, assim, criar trabalhos manuais, seja de bordados, costura ou crochê.
 
No dia 7 de março (sábado), das 15h às 17h, ocorre uma visita mediada com a artista Marlene Barros e a curadora Betânia Pinheiro. No Dia Internacional da Mulher, 8 de março (domingo), às 16h, Betânia coordena a palestra “Tecitura do Feminino: Processos”.  
 
Oficina e obra-instalação 
 
A programação oferece, ainda, a oficina “Arpilleras de si”, ministrada pela artista-pesquisadora, psicóloga e psicanalista, Maria Vasconcelos, que desenvolve no doutorado em psicologia uma pesquisa sobre o bordado livre e a costura como formas de expressão e elaboração do trauma em mulheres com histórico de violências. 
 
Por meio da técnica da arpilharia e do bordado livre, as participantes vão ser convidadas a materializar memórias e vivências em retalhos. O resultado deste processo coletivo vai se transformar em uma obra-instalação, que vai integrar à exposição. 
 
A oficina ocorrerá em três datas: de 11 a 14 de março e de 15 a 17 de abril, com Maria Vasconcelos, e de 11 a 15 de maio, com Marlene Barros. As atividades serão sempre das 14h às 17h, com vagas limitadas. 
As ações formativas vão oferecer certificado de 12h e são destinadas a pessoas de todos os gêneros e faixas etárias. Inscrições neste link.
 
Sobre a artista
 
Marlene Barros nasceu em Bacurituba, no Maranhão, e se apresenta ao mundo como uma artista brasileira múltipla, que desenvolve sua obra por meio do crochê, escultura, pintura, performance e intervenção artística, revelando inquietação e vontade constante de experimentar. Tem como missão questionar estereótipos e expor contradições, fortalecendo, assim, o papel da arte como instrumento de transformação social e resistência cultural.

Coordenadora do Ateliê Marlene Barros e do Ponto de Cultura Coletivo ZBM, Marlene Barros é bacharel em desenho industrial pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e especialista em Artes Visuais: Cultura e Criação pelo Senac, além de mestre em arte contemporânea pela Universidade de Aveiro, em Portugal.
 
SERVIÇO
Evento: “Marlene Barros: tecitura do feminino”
Data: 04/03/26 a 01/06/26
Local:  Centro Cultural Banco Do Brasil - CCBB Belo Horizonte - Galerias do Térreo
Endereço: Praça da Liberdade, 450 – Funcionários, BH (MG)
Horário: Quarta a segunda, das 10h às 22h.
Classificação: 14 anos.
Ingressos: https://ingressosccbb.com.br/exposicao-marlene-barros-tecitura-do-feminino__3522 

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