
“A gente está falando de um museu que nasceu de um gesto muito particular, muito singular, e que agora precisa se sustentar como instituição pública de relevância internacional”, destaca, sinalizando que o horizonte dos próximos anos passa, necessariamente, pela construção de modelos mais robustos de sustentabilidade – financeira, ambiental e programática.
Ela lembra que manter um acervo de arte contemporânea de escala global integrado a um jardim botânico exige um esforço contínuo de articulação entre áreas diversas, do manejo ambiental à curadoria, da educação à relação com o território. A diretora artística também enfatiza que a sustentabilidade não deve ser entendida apenas como viabilidade econômica, mas como a capacidade de o museu se manter vivo, em diálogo com seu entorno e com as transformações do mundo. “O Inhotim é um organismo vivo, e isso implica pensar em formas de continuidade que respeitem essa complexidade”, examina, apontando para uma gestão que se estrutura cada vez mais de forma transversal.
As reflexões foram compartilhadas por ela durante conversa com a imprensa na véspera da abertura das inaugurações de abril, que marcaram o início do calendário comemorativo dos 20 anos.
Novidades
Uma das obras apresentadas nessa primeira leva de novidades é “Contraplano”, escultura monumental de Lais Myrrha. Sobre o trabalho, o curador Douglas de Freitas lembra que a artista parte de uma leitura sensível e estrutural da paisagem, ao perceber nas curvas do edifício de Oscar Niemeyer ressonâncias com a topografia da mineração. A própria artista sintetiza esse gesto ao afirmar que sua investigação nasce de um olhar para o território como forma em transformação: trata-se de entender “como essas curvas também carregam uma memória de corte, de extração, de deslocamento”, aproximando arquitetura e geologia. Nesse sentido, ela sugere que a obra opera como um campo de tensão, em que “a paisagem deixa de ser pano de fundo e passa a ser agente da experiência”, especialmente em um contexto como o de Brumadinho, onde mineração e natureza coexistem de maneira incontornável.

Por fim, a mostra panorâmica “Dupla Cura”, de Dalton Paula, também inaugurada neste primeiro momento celebrativo, é descrita como um acontecimento histórico para o museu. Ao reunir cerca de 115 obras de diferentes períodos, a exposição apresenta um percurso inédito do artista e materializa – nas palavras da curadora Beatriz Lemos – o desejo de “trazer um recorte de obras que nunca foram vistas juntas”. O próprio Dalton reforça o caráter coletivo e expandido de sua prática: “a gente não faz nada sozinho”, afirma, ao lembrar que sua produção está atravessada por redes de afeto, espiritualidade e comunidade. Em trabalhos como “Fanfarra”, ele também explicita esse processo ao contar que a pintura nasce de uma experiência compartilhada: “para fazer essa obra, eu formei um coral de crianças negras, a gente ensaiou, fotografou, e essa imagem virou pintura”, evidenciando como sua poética articula memória, corpo e construção coletiva.

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Ao longo dos próximos meses, essa programação ganha mais desdobramentos. Em setembro, por exemplo, será inaugurada a exposição imersiva “Inhotim 20 anos”, com curadoria de Lucas Menezes, que parte de uma maquete de cerca de 20 metros quadrados para propor ao visitante uma experiência de leitura expandida do parque – quase como um dispositivo de memória e projeção.
Já em outubro, o público poderá revisitar uma das obras mais emblemáticas do acervo: “The murder of crows”, de Janet Cardiff e George Bures Miller. Inaugurada originalmente em 2009, a instalação sonora – composta por 98 caixas acústicas que encenam um ambiente onírico – retorna como um marco afetivo para quem acompanha a história do museu, reforçando a dimensão imersiva que ajudou a consolidar a reputação internacional do Inhotim. A obra, aliás, está entre as favoritas de Paula Azevedo, diretora-presidente do Inhotim, como ela revelou em entrevista à Encontro no ano passado. “É sempre especial e potente entrar naquela sala. Vou até lá quando quero me inspirar ou relaxar. Ela tem pouca interferência visual e mexe com os meus sentidos e emoções de maneira diferente a cada visita”, disse à época.
No mesmo mês são previstas novidades nas galerias dedicadas à obra de Cildo Meireles, nome central na arte contemporânea brasileira e na própria constituição do Inhotim. A galeria dedicada ao artista passará por uma reforma e receberá a instalação “Missão/Missões (Como construir catedrais)”, uma obra de forte impacto simbólico que articula materiais como moedas, ossos, hóstias e pedras em uma reflexão sobre poder, fé e economia – temas recorrentes na trajetória do artista. É dele uma das instalações mais fotografadas pelos visitantes do museu, a sala “Desvio para o vermelho”, dividida em três ambientes articulados, o primeiro deles reunindo uma exaustiva coleção de móveis, objetos e obras de arte em tons de vermelho; o segundo, em meio à penumbra, inclui a representação de um líquido vermelho derramado; e, o último, em uma sala escura, nos guia pelo som de água corrente, que corre em uma pia deslocada, por onde sai uma água vermelha.