Estado de Minas MOSTRA

Carros contam a história da arte na nova exposição da Casa Fiat de Cultura

Exposição "Celebrar as ruas" reúne obras de arte e automóveis históricos para refletir sobre a relação entre a indústria, a cultura e a memória brasileira


postado em 07/07/2026 08:02 / atualizado em 07/07/2026 08:19

Palio Weekend com autógrafos dos jogadores do penta da Copa do Mundo de 2002(foto: Leo Lara/Divulgação)
Palio Weekend com autógrafos dos jogadores do penta da Copa do Mundo de 2002 (foto: Leo Lara/Divulgação)
Um Palio Weekend com autógrafos dos jogadores do penta de 2002, pintado por Sid Mosca, o mesmo responsável pelos capacetes de Ayrton Senna – combinando memórias de quando o país saía vitorioso dos gramados e das pistas. Um Fiat Idea simples, de janela com manivela e alguns amassados na lataria, que carregou o papa Francisco em sua visita ao Brasil, em 2013 – e que acabou em meio a uma multidão após o motorista errar o trajeto, levando a maior autoridade católica a um inesperado encontro com a população. É esse tipo de história que faz da “Celebrar as ruas: 50 anos de Fiat e brasilidade”, em cartaz na Casa Fiat de Cultura até 11 de outubro, uma mostra em que carros populares dividem espaço com obras de arte – e, de certa forma, se tornam uma delas.

Mas o automóvel como objeto de afeto não é exclusividade dos carros ilustres do percurso. Em uma das instalações, o visitante encontra orelhões antigos – daqueles que estão sumindo das ruas – onde, ao levantar o fone, ouve depoimentos gravados de pessoas comuns contando sua própria história com carros da marca. É um lembrete de um hábito que muita gente ainda reconhece na memória da própria família, quando o carro ganhava apelido e aparecia em fotos como mais um membro da casa – exemplares dessas fotografias, inclusive, também têm seu espaço na exposição.

Muito além dos carros e suas histórias, sejam elas eloquentes ou comezinhas, “Celebrar as ruas” é uma mostra especialmente habilidosa em pensar pontos de confluência entre a indústria e a arte brasileira. Não por outro motivo, os elementos industriais não estão só no que as obras retratam, mas também no material de que são feitas e até na expografia. Há moldura em chapa metálica, pintura sobre placa de metal em vez de tela, e até uma tapeçaria que usa linhas de cores metalizadas. O exemplo mais evidente está em uma das salas do primeiro núcleo, onde há um painel de fotos da fábrica de Betim e uma pintura de Yara Tupynambá sobre trabalhadores da siderurgia, sendo as duas obras divididas em três partes, um tríptico ao lado do outro.

A escolha não foi por acaso. “A gente precisava espacializar um conceito de exposição que é muito abstrato e muito raro no Brasil, que é essa relação entre arte e indústria”, explica o curador Yuri Fomin Quevedo, do acervo da Pinacoteca de São Paulo, que assina a curadoria ao lado de Peter Fassbender e Marcos Rozen.

A mostra
A mostra "Celebrar as ruas: 50 anos de Fiat e brasilidade" fica em cartaz na Casa Fiat de Cultura até 11 de outubro (foto: Leo Lara/Divulgação)
A relação entre indústria e o design de vanguarda – que tem seus pontos de encontro com o design artístico –, aliás, remonta à própria história da marca. Antes de chegar a Minas Gerais, a mostra passa por Turim, com uma reprodução da planta do Lingotto, fábrica projetada no início do século 20 que funcionava em andares sobrepostos, com uma pista de teste no telhado. “O Lingotto era uma expressão de ousadia entre as duas guerras mundiais”, comenta Massimo Cavallo, presidente da Casa Fiat de Cultura e também nascido na cidade italiana. “É aqui a primeira transformação da Fiat de uma organização artesanal para uma indústria verdadeira”, ressalta.

O restante do percurso se divide em outros núcleos, tão diversos quanto as ruas que dão nome à mostra. Um deles reúne quase um século de produção artística sobre paixões nacionais como o futebol e o carnaval, com obras que vão de Candido Portinari a Rubens Gerchman, além de fotografias do desfile que a Estação Primeira de Mangueira levou ao Sambódromo para o lançamento do Fiat Palio. A religiosidade que também marca as ruas brasileiras aparece em pinturas de José Antônio da Silva, Babalu, Iaponi Araújo e José Luiz Soares, ao lado de uma instalação com bugigangas de devoção penduradas em retrovisores. Já o olhar sobre o feminino ganha corpo em obras como "Mulher Mutante", de Regina Vater, e em um cartaz publicitário de 1977 que convidava leitoras de revista, entre elas Sônia Braga, a escolher a cor de um Fiat 147.

Outro conjunto de obras funciona quase como contraponto à lógica industrial que estrutura boa parte da exposição – pinturas de paisagens rurais, cidades do interior e áreas periféricas, alheias ao ritmo fabril. É o caso das telas do mineiro Marcos Siqueira, que produz as próprias tintas com terra e folhas colhidas na Serra do Cipó, e das tapeçarias de Madeleine Colaço, criadora do chamado “Ponto Brasileiro”, que tece cidades iluminadas como constelações. Também nessa chave, Raymundo Colares registra o estranhamento diante da velocidade das metrópoles em telas com carrocerias de ônibus fragmentadas, enquanto Nelson Leirner usa miniaturas de carrinhos para dialogar com a grade geométrica de Mondrian.

Na mostra, carros populares dividem espaço com obras de arte %u2013 e, de certa forma, se tornam uma delas(foto: Leo Lara/Divulgação)
Na mostra, carros populares dividem espaço com obras de arte %u2013 e, de certa forma, se tornam uma delas (foto: Leo Lara/Divulgação)
Pela primeira vez, a mostra ocupa também os jardins da Casa Fiat de Cultura, onde três cápsulas reúnem automóveis históricos e conceituais – entre eles o próprio Fiat 147 movido a álcool que, nos anos 1970, pertenceu ao Ministério da Fazenda e ficou conhecido entre os mineiros como “Cachacinha”, pelo cheirinho de combustível que saía do escapamento. Ali também está a obra mais recente de todo o percurso: um painel em xilogravura do artista pernambucano Derlon, feito especialmente para a exposição, que projeta o futuro a partir de referências ancestrais, com uma mulher negra, de traços indígenas e grávida, ocupando o centro da composição.

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