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Nove histórias por trás da maior mostra de Torres García já feita no Brasil

Exposição fica em cartaz no CCBB-BH até 12 de outubro e reúne mais de 400 obras do artista uruguaio


postado em 16/07/2026 08:07 / atualizado em 16/07/2026 08:24

Desenhos História da minha vida (conjunto de 46 desenhos), 1937 - Coleção Museo Torres García(foto: Divulgação)
Desenhos História da minha vida (conjunto de 46 desenhos), 1937 - Coleção Museo Torres García (foto: Divulgação)
A mostra “Joaquín Torres García – 150 anos”, em cartaz no CCBB-BH até 12 de outubro, reúne mais de 400 obras do artista uruguaio e é, segundo o curador Saulo di Tarso, a maior já dedicada a ele no país. Nos bastidores da montagem há uma quantidade generosa de histórias que valem ser registradas – algumas delas contadas por Di Tarso durante uma visita guiada, outras escondidas em cartas, madeiras e fichas de estudo que levaram décadas para chegar a Belo Horizonte.

As cartas perdidas

Descortinando uma história pouco contada sobre trocas entre nomes interessados nas artes na América Latina, duas cartas de Cecília Meireles ao pintor abrem e fecham o percurso da exposição. A primeira, de 8 de abril de 1939, ficou décadas sem identificação correta nos arquivos do Museo Torres García, em Montevidéu – o nome da poeta brasileira nem sequer estava grafado certo ali. Nela, Cecília avisa que não tem tempo para escrever a carta longa que gostaria e envia, no lugar, um livro com desenhos e fotografias de cerâmica indígena feito por seu marido recém-falecido, o artista Correia Dias. A segunda carta só apareceu durante a montagem da mostra em São Paulo, entregue por um pesquisador do museu uruguaio, Carlos Serra.

O navio

A mostra também traz ecos da infância de Torres García, que, ainda menino, atravessou o Atlântico rumo à Europa a bordo do Le Havre – curiosamente, a mesma embarcação que, tempos depois, trouxe ao Brasil o pintor impressionista Édouard Manet. O detalhe aparece em um desenho do próprio Torres García, incluído em “Historia de mi vida”, autobiografia ilustrada que ele escreveu e que segue inédita em português. No mesmo conjunto de desenhos está um Rio de Janeiro visto do porto: em uma escala no Brasil, ainda jovem, o artista ficou impressionado com a cor da pele das pessoas, o ritmo da cidade e as palmeiras – impressão que reaparece décadas depois em sua pintura.

A mulher dos retratos

Pessoas que conviveram com o artista também têm lugar reservado na exposição, uma delas aparecendo repetidas vezes em retratos – mas poucos visitantes sabem quem é: trata-se de Manolita Piña, viúva de Torres García. Depois da morte do artista, ela passou 40 anos batalhando para preservar o acervo da família – reunindo documentos, reaproximando herdeiros dispersos – até fundar, já aos 106 anos de idade, o museu que hoje leva o nome do marido em Montevidéu. Manolita morreu aos 111 anos.

De Paris a Montevidéu

América do Sul Universalismo, 1943 - Coleção Particular (foto: Divulgação)
América do Sul Universalismo, 1943 - Coleção Particular (foto: Divulgação)
A ideia de fazer do Sul o nosso Norte também vibra em todo percurso da mostra. Mas há também alguns gestos feitos em vida que dialogam com essa mesma premissa e que valem ser destacados. Por exemplo, na virada dos anos 1920 para os 1930, Torres García vivia em Paris como um nome estabelecido da vanguarda europeia: ao lado do holandês Piet Mondrian, ajudou a fundar o grupo Cercle et Carré, dedicado à abstração geométrica, e correspondia-se com boa parte dos artistas que mudariam a arte do século 20. Foi desse lugar de prestígio – e não como um artista periférico em busca de reconhecimento – que ele decidiu se afastar: em 1934, voltou a Montevidéu para fundar seu próprio movimento, o Universalismo Construtivo. Segundo o curador, há prova documental de que o artista simplesmente deu sequência e aprofundou aquelas ideias em espanhol, rebatizando o grupo de “Círculo e Quadrado”.

O mito Max Bill

Outro eco dessa visão de um Sul insubmisso ao Norte aparece em outras frentes, como na contestação da versão mais conhecida de uma histórica do mundo das artes segundo a qual foi o suíço Max Bill quem trouxe a arte concreta ao Brasil, nos anos 1950. Di Tarso rejeita a tesa. Diz que, segundo relatos que recolheu, Max Bill teria cogitado ficar na Argentina para conversar primeiro com o artista Tomás Maldonado – e só chegou ao Brasil depois de um encontro com o próprio Torres García. Quando desembarcou, Alfredo Volpi, Waldemar Cordeiro e Luiz Sacilotto já produziam uma geometria próxima do concretismo por conta própria. Na leitura do curador, Max Bill não veio como padrinho de ninguém: saiu do Brasil com seu próprio cromatismo e composição transformados pelo que viu aqui – a exemplo de uma peça do próprio artista que integra a exposição. Essa insubmissão do Sul em relação ao Norte, contrariando uma certa narrativa oficial, aparece em outros momentos da mostra.

Um Rabelais negro

Adão e Eva diante de uma palmeira, 1930 - Coleção Museo Torres García (foto: Divulgação)
Adão e Eva diante de uma palmeira, 1930 - Coleção Museo Torres García (foto: Divulgação)
Outro aspecto para se atentar ao visitar a mostra é o interesse do artista pela estética artística de matriz africana. Entre as telas menos óbvias da mostra está um retrato do escritor francês François Rabelais – pintado por Torres García com traços negros. A escolha remete a um diálogo com a obra do próprio escritor: o cenário de fundo de “Pantagruel”, obra-prima de Rabelais, é justamente a África. A mesma linguagem aparece em um “Adão e Eva” de 1932 e em um estudo baseado no cânone clássico grego do discóbolo – só que, de novo, com corpos negros. Para Di Tarso, são mais evidências de que o interesse de Torres García pela arte feita na África não foi um episódio isolado, mas um fio que atravessa décadas de obra.

O coração do museu

A exposição, como não poderia ser diferente, também faz alguma referência a um dramático episódio envolvendo obras de Torres García e instituições museológicas brasileiras. Um episódio, aliás, que motivou o diretor do Museo Torres García, Alejandro Díaz, bisneto do artista, presente na pré-abertura da exposiçãor, frisar para o curador o peso simbólico de emprestar o acervo ao Brasil – país que, em 1978, já havia perdido para um incêndio outro lote de obras do uruguaio. “Você está levando o coração do museu para o Brasil”, disse Díaz. “Não dá para ter uma segunda perda, porque, dessa vez, é o coração do museu que está indo para o Brasil”, reforçou.

Das cinzas à arte

Aliás, o incêndio de 1978 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, que destruiu diversas obras de Torres García emprestadas ao Brasil, também gerou respostas artísticas. Rubens Gerchman, então adolescente, estava na porta do museu no dia seguinte à tragédia – episódio que o levou a criar a série “Nova Geografia”, em homenagem ao artista uruguaio. Montez Magno, Anna Bella Geiger, Marcos Chaves e Raymundo Collares também têm trabalhos em diálogo com o de Torres García, ainda que sejam obras que, segundo Di Tarso, nunca tenham sido lidas nesta chave até então.

Uma exposição, três roteiros

A disposição das obras em Belo Horizonte não repete a de São Paulo nem a de Brasília. Segundo o curador, cada cidade recebe uma sequência de galerias pensada especificamente para ali – “São Paulo foi de um jeito, Brasília foi de outro, BH será único”, resume ele, que está doando 50 conferências gratuitas sobre a mostra para quem se interessar em Belo Horizonte.

SERVIÇO:
‘Joaquín Torres García – 150 anos’. CCBB Belo Horizonte (Praça da Liberdade, 450). Até 12 de outubro. De quarta a segunda, 10h às 22h. Entrada gratuita.

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