
As cartas perdidas
Descortinando uma história pouco contada sobre trocas entre nomes interessados nas artes na América Latina, duas cartas de Cecília Meireles ao pintor abrem e fecham o percurso da exposição. A primeira, de 8 de abril de 1939, ficou décadas sem identificação correta nos arquivos do Museo Torres García, em Montevidéu – o nome da poeta brasileira nem sequer estava grafado certo ali. Nela, Cecília avisa que não tem tempo para escrever a carta longa que gostaria e envia, no lugar, um livro com desenhos e fotografias de cerâmica indígena feito por seu marido recém-falecido, o artista Correia Dias. A segunda carta só apareceu durante a montagem da mostra em São Paulo, entregue por um pesquisador do museu uruguaio, Carlos Serra.
O navio
A mostra também traz ecos da infância de Torres García, que, ainda menino, atravessou o Atlântico rumo à Europa a bordo do Le Havre – curiosamente, a mesma embarcação que, tempos depois, trouxe ao Brasil o pintor impressionista Édouard Manet. O detalhe aparece em um desenho do próprio Torres García, incluído em “Historia de mi vida”, autobiografia ilustrada que ele escreveu e que segue inédita em português. No mesmo conjunto de desenhos está um Rio de Janeiro visto do porto: em uma escala no Brasil, ainda jovem, o artista ficou impressionado com a cor da pele das pessoas, o ritmo da cidade e as palmeiras – impressão que reaparece décadas depois em sua pintura.
A mulher dos retratos
Pessoas que conviveram com o artista também têm lugar reservado na exposição, uma delas aparecendo repetidas vezes em retratos – mas poucos visitantes sabem quem é: trata-se de Manolita Piña, viúva de Torres García. Depois da morte do artista, ela passou 40 anos batalhando para preservar o acervo da família – reunindo documentos, reaproximando herdeiros dispersos – até fundar, já aos 106 anos de idade, o museu que hoje leva o nome do marido em Montevidéu. Manolita morreu aos 111 anos.
De Paris a Montevidéu

O mito Max Bill
Outro eco dessa visão de um Sul insubmisso ao Norte aparece em outras frentes, como na contestação da versão mais conhecida de uma histórica do mundo das artes segundo a qual foi o suíço Max Bill quem trouxe a arte concreta ao Brasil, nos anos 1950. Di Tarso rejeita a tesa. Diz que, segundo relatos que recolheu, Max Bill teria cogitado ficar na Argentina para conversar primeiro com o artista Tomás Maldonado – e só chegou ao Brasil depois de um encontro com o próprio Torres García. Quando desembarcou, Alfredo Volpi, Waldemar Cordeiro e Luiz Sacilotto já produziam uma geometria próxima do concretismo por conta própria. Na leitura do curador, Max Bill não veio como padrinho de ninguém: saiu do Brasil com seu próprio cromatismo e composição transformados pelo que viu aqui – a exemplo de uma peça do próprio artista que integra a exposição. Essa insubmissão do Sul em relação ao Norte, contrariando uma certa narrativa oficial, aparece em outros momentos da mostra.
Um Rabelais negro

O coração do museu
A exposição, como não poderia ser diferente, também faz alguma referência a um dramático episódio envolvendo obras de Torres García e instituições museológicas brasileiras. Um episódio, aliás, que motivou o diretor do Museo Torres García, Alejandro Díaz, bisneto do artista, presente na pré-abertura da exposiçãor, frisar para o curador o peso simbólico de emprestar o acervo ao Brasil – país que, em 1978, já havia perdido para um incêndio outro lote de obras do uruguaio. “Você está levando o coração do museu para o Brasil”, disse Díaz. “Não dá para ter uma segunda perda, porque, dessa vez, é o coração do museu que está indo para o Brasil”, reforçou.
Das cinzas à arte
Aliás, o incêndio de 1978 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, que destruiu diversas obras de Torres García emprestadas ao Brasil, também gerou respostas artísticas. Rubens Gerchman, então adolescente, estava na porta do museu no dia seguinte à tragédia – episódio que o levou a criar a série “Nova Geografia”, em homenagem ao artista uruguaio. Montez Magno, Anna Bella Geiger, Marcos Chaves e Raymundo Collares também têm trabalhos em diálogo com o de Torres García, ainda que sejam obras que, segundo Di Tarso, nunca tenham sido lidas nesta chave até então.
Uma exposição, três roteiros
A disposição das obras em Belo Horizonte não repete a de São Paulo nem a de Brasília. Segundo o curador, cada cidade recebe uma sequência de galerias pensada especificamente para ali – “São Paulo foi de um jeito, Brasília foi de outro, BH será único”, resume ele, que está doando 50 conferências gratuitas sobre a mostra para quem se interessar em Belo Horizonte.
SERVIÇO:
‘Joaquín Torres García – 150 anos’. CCBB Belo Horizonte (Praça da Liberdade, 450). Até 12 de outubro. De quarta a segunda, 10h às 22h. Entrada gratuita.