Estado de Minas TURISMO

Um tour pelas vilas da Zona da Mata: Piacatuba

As férias de julho estão aí, e percorrer as rotas de vilas e vilarejos no interior mineiro é uma opção viável, rica e muito prazerosa


postado em 13/07/2026 06:21 / atualizado em 13/07/2026 10:54

 Vista aérea do vilarejo histórico de Piacatuba, em Leopoldina, na Zona da Mata mineira, um dos roteiros do programa Minas Inédita (foto: Rodrigo Albert/Secult/Codemge )
Vista aérea do vilarejo histórico de Piacatuba, em Leopoldina, na Zona da Mata mineira, um dos roteiros do programa Minas Inédita (foto: Rodrigo Albert/Secult/Codemge )
“Há um vilarejo ali, onde areja um vento bom…” Nas muitas Minas celebradas por Guimarães Rosa, existem outras tantas que ainda precisam ser descobertas pelo próprio mineiro: um universo de vilas centenárias incrustadas no mar de montanhas que forma o cenário do estado. Elas guardam o sumo da nossa identidade: história, comidas memoráveis e gente da melhor qualidade, sempre pronta a abrir o portão de casa, oferecer um café e puxar um fio de conversa.
 
Em um movimento para jogar luz sobre esses territórios, o Instituto Mundu — organização dedicada à promoção do desenvolvimento sustentável por meio do turismo — promoveu uma força-tarefa para levar jornalistas de todo o país a percorrer oito roteiros temáticos pelo interior no projeto Minas Inédita (leia mais aqui). Mais de 40 vilas, distritos e pequenos municípios que ficam, no máximo, a seis horas de distância de Belo Horizonte foram visitados. Lugares que preservam modos de vida e carregam belezas e experiências que podem surpreender.
 
À Encontro, coube desbravar algumas pérolas da Zona da Mata mineira, como Piacatuba. Na “terra de gente de bom coração”, nossa equipe descobriu que receber bem está até no nome, uma junção de termos da língua tupi.
Pertencente à cidade de Leopoldina (localizada a 320 km da capital), o povoado de menos de mil habitantes guarda um belo casario do século XIX. Uma rua calçada em pedras atravessa o centro histórico e atiça a curiosidade. Feita por mão de obra escravizada, a via tem um formato pouco convencional, afundado, pois foi projetada com um sistema de escoamento de água que corre exatamente pelo centro da pista.
 
Igreja Matriz de Nossa Senhora da Piedade, Piacatuba(foto: Gabriel Araújo/Secult/Codemge )
Igreja Matriz de Nossa Senhora da Piedade, Piacatuba (foto: Gabriel Araújo/Secult/Codemge )
A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Piedade, na parte mais alta do distrito, também vale o passeio. Construída entre 1844 e 1850, tem um adro que funciona como uma espécie de mirante, do qual é possível contemplar o vilarejo a seus pés, além de toda a natureza no entorno. Os moradores também recomendam uma esticada até a cachoeira Poeira D'Água, que fica a 18 minutos de carro.
 
Conhecer as narrativas locais é uma das partes mais bacanas da viagem. A mais famosa delas ilustra um dos principais pontos turísticos do lugar: a Torre da Cruz Queimada. Reza a lenda que, por volta de 1844, durante uma disputa de terras entre fazendeiros no chamado, à época, distrito de Piedade, um deles mandou derrubar um enorme cruzeiro de madeira que demarcava a divisa dos terrenos. Não obtendo êxito, ordenou que ateassem fogo. Nada adiantou: no dia seguinte, a estrutura de quase 5 metros de altura amanheceu intacta.
 
Considerado santificado pela população desde então, o objeto de madeira maciça encontra-se guardado, hoje em dia, em uma torre na praça central da cidade. O monumento atrai uma multidão todo dia 3 de maio, data em que se celebra a Festa da Cruz Queimada. No entanto, o espaço recebe peregrinos o ano inteiro, que fazem seus pedidos, amarram fitas coloridas ou levam ex-votos em agradecimento a uma graça alcançada.
 
Torre da Cruz Queimada, Piacatuba(foto: Rodrigo Albert/Secult/Codemge)
Torre da Cruz Queimada, Piacatuba (foto: Rodrigo Albert/Secult/Codemge)
Além da celebração religiosa, Piacatuba realiza o tradicional Festival de Gastronomia e Viola. A 21ª edição da festa acontece neste mês de julho, entre os dias 22 e 26, e reunirá nomes como Geraldo Azevedo e os pernambucanos da Banda de Pau e Corda.
 
A despeito dos grandes eventos, a vila convida o visitante também a simplesmente sentar em um dos bancos da praça e puxar assunto com um morador, ou desfrutar da boa culinária mineira em recantos como o Espaço e Pousada Maria do Dirceu.
 
Museu de quinquilharias do Espaço e Pousada Maria do Dirceu(foto: Rodrigo Albert/Secult/Codemge)
Museu de quinquilharias do Espaço e Pousada Maria do Dirceu (foto: Rodrigo Albert/Secult/Codemge)
 
 
Além de abrigar um pequeno acervo com quinquilharias curiosas de décadas passadas — como antigos aparelhos de fax, televisores e objetos de marcas antigas —, o bistrô oferece um novo olhar para os ingredientes locais. Destacam-se pratos como o Angu Chic (angu recheado com bacon e ora-pro-nóbis ao molho de jabuticaba, acompanhado de maçã de peito, por R$ 49) e o Risoto à Mineira (finalizado com crispy de couve e torresmo, por R$ 80, que serve duas pessoas). O cafezinho da tarde acompanhado de uma quitanda arremata o dia.
 
Angu Chic, do Espaço e Pousada Maria do Dirceu(foto: Rodrigo Albert/Secult/Codemge)
Angu Chic, do Espaço e Pousada Maria do Dirceu (foto: Rodrigo Albert/Secult/Codemge)
  
 
Museu de grandes novidades
 
Mas não só de patrimônio colonial vive Piacatuba. Talvez o leitor não saiba, mas a região e seu povoado foram protagonistas de um grande feito do início do século XX: uma das primeiras usinas hidrelétricas do país foi erguida ali, e essa trajetória incrível está ricamente contada e retratada no novo Museu-Parque Usina Maurício.
O passeio, com entrada gratuita, vale a pena. Inaugurado em 1908, o antigo complexo aproveitou o potencial hidráulico de uma queda-d’água de 20 metros no rio Novo, que corta a região. A obra exigiu um esforço e uma sagacidade que parecem impossíveis para o período. Máquinas e equipamentos originais que pesam toneladas ainda podem ser vistos muito bem conservados, levando o visitante a se perguntar de que forma foram transportados morro acima e instalados no local.
 
Museu-Parque Usina Maurício(foto: Rodrigo Albert/Secult/Codemge)
Museu-Parque Usina Maurício (foto: Rodrigo Albert/Secult/Codemge)
 
O espaço integra uma interessante experiência museológica que aborda a história da eletricidade, a educação patrimonial e o lazer sustentável. O museu fica em uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) que preserva 327 hectares de Mata Atlântica e abriga espécies ameaçadas de extinção, como a onça-parda. Trilhas ecológicas e atividades educacionais compõem a experiência.
 
Serviço
Como chegar: A 329 km de Belo Horizonte, o acesso é feito pela BR-040.
Onde ficar: Espaço e Pousada Maria do Dirceu. Diárias a partir de R$ 250 para o casal.

Pontos turísticos
Torre da Cruz Queimada:
Praça Santa Cruz, Centro.
Igreja Matriz de Nossa Senhora da Piedade: Praça da Matriz, Centro. Edificação erguida entre 1844 e 1850. Missas aos domingos, às 9h15.
Casarão de Piacatuba: Rua das Pedras, Centro. Construção histórica do século XIX feita em pau a pique. Abriga o acervo histórico da cidade e uma loja de artesanato local.
Capela de Nossa Senhora do Rosário: Largo do Rosário, Centro.
 
Passeios
Museu-Parque Usina Maurício:
Km 0 da Estrada LPD 319, Fazenda Monte Alegre/Santa Rita da Limeira (zona rural). Aberto de quarta a sábado, das 8h30 às 17h, e aos domingos, das 8h30 às 14h. Entrada gratuita com agendamento pelo site: fundacaoormeo.org.br.
Cachoeira Poeira D’Água: A 18 minutos de carro a partir do centro do vilarejo.
 
Evento
Festival de Viola e Gastronomia de Piacatuba: De 22 a 25 de julho. Entre as atrações confirmadas estão Geraldo Azevedo, Ronaldo Tobias, Banda de Pau e Corda e Pereira da Viola. Entrada gratuita.

*A jornalista viajou a convite do Instituto Mundu

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