
Na Maison & Objet, realizada entre 10 e 14 de setembro, o artesanato mineiro será apresentado a compradores, galeristas, arquitetos, designers e curadores de diferentes países. As obras selecionadas são de artesãs e artesãos de Campo Alegre, Coqueiro Campo, Santana do Araçuaí e Cachoeira do Fanado.
A participação é resultado de uma parceria entre o Sebrae Minas e o Governo de Minas Gerais, por meio da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sede), com foco na ampliação do acesso da produção artesanal mineira ao mercado internacional.
Responsável pela curadoria das esculturas que estarão na Maison & Objet, Marco Aurélio Pulchério destaca a experiência de conhecer de perto a produção do Vale. “A curadoria das esculturas foi um processo desafiador e, ao mesmo tempo, extremamente gratificante. Ainda que o trabalho do Vale do Jequitinhonha já fosse conhecido de longa data, vivenciar de perto toda essa produção foi uma experiência marcante. Realizar essa seleção foi uma experiência muito especial, e a expectativa para quando essa jornada chegar à Paris é de grande sucesso”.
Além da participação na feira, as esculturas estarão na exposição “A Terra Modelada pela Arte – Vale do Jequitinhonha”, entre 8 e 18 de setembro, na Ricardo Fernandes Gallery, no bairro Marais. A mostra tem curadoria do galerista Ricardo Fernandes. “Além de ser um espaço de valorização do artesanato do Vale do Jequitinhonha, a galeria é uma porta aberta às reflexões humanas. A força da obra das artesãs e o legado de Dona Izabel transformaram um coletivo de artistas de toda a região. Nossa expectativa é que a galeria sirva como ferramenta de expansão desse conhecimento e, com o tempo, consolide o legado de Dona Izabel como um marco histórico-cultural para o mundo”, frisa Fernandes.
Para o presidente do Conselho Deliberativo do Sebrae Minas, Marcelo de Souza e Silva, a participação na programação parisiense amplia a inserção do artesanato mineiro no exterior. “O mercado internacional procura autenticidade, origem e produção autoral, e o Vale do Jequitinhonha reúne todos esses atributos. Estar presente em ações durante a Paris Design Week significa consolidar o artesanato mineiro em um circuito altamente qualificado, no qual as características da produção artesanal são muito valorizadas. Essa internacionalização coroa a nossa atuação e é resultado de um trabalho contínuo de qualificação, acesso a mercados e valorização dos saberes tradicionais”, explica.
Tradição entre gerações
Entre os trabalhos que chegam a Paris estão obras ligadas ao legado de Dona Izabel, ceramista conhecida como Dama do Barro do Jequitinhonha e criadora das bonecas-moringa. Neta da artesã, Andréia Andrade nasceu em Santana do Araçuaí e levará suas tradicionais noivas, inspiradas nas criações da avó.
Uma das esculturas produzidas especialmente para a ocasião homenageia Dona Izabel e retrata a ceramista modelando a cabeça de uma noiva.
“Participar dessa exposição representa a realização de um sonho. Em cada obra, estão presentes as histórias, as memórias e o legado de uma família que transformou a arte em patrimônio cultural e que agora segue conquistando novos espaços no mundo”, comemora Andréia.
Também de Santana do Araçuaí, Augusto Ribeiro começou a trabalhar com o barro ainda criança e teve Dona Izabel como referência. Para Paris, selecionou peças relacionadas a diferentes momentos de sua produção e à identidade cultural da região. “Estamos mostrando o Vale do Jequitinhonha como um território de criação, de sensibilidade, de memória e de potência artística. Quando uma boneca minha é reconhecida, sinto que a minha história, a história da minha família, o trabalho das mulheres que vieram antes de mim e a cultura do Vale do Jequitinhonha também estão sendo vistos. Minha expectativa é que essa experiência abra novos caminhos para a arte do Vale”, projeta.
Ao todo, cinco artesãos acompanharão a programação na França. Entre eles está Anísia Lima, representante da comunidade de Campo Alegre, que começou a trabalhar com o barro aos oito anos, observando a mãe produzir peças utilitárias. “A participação em feiras e eventos nacionais do setor levou minhas bonecas longe. Chegamos a lugares que não imaginávamos, como Recife, Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e tantos outros. As vendas permitiram fazer planos para o futuro, pois quanto mais nossas esculturas são valorizadas, mais a gente sonha. E agora, o meu principal sonho será realizado, que é mostrar meu artesanato fora do Brasil”, comemora.
Da comunidade de Cachoeira do Fanado, Alice Costa levará miniaturas inspiradas na arquitetura e nas moradias da região. A artesã também começou a trabalhar com o barro ainda na infância. “Cada escultura carrega um pedaço da nossa história, da nossa identidade e do carinho com que é feita. Representar o Brasil, a nossa cultura e o trabalho das artesãs em Paris é uma honra imensa. Vou com o coração cheio de alegria, orgulho e responsabilidade, levando comigo a certeza de que os sonhos podem se tornar realidade quando são construídos com dedicação, amor e perseverança. Essa conquista não é apenas minha, mas de toda a nossa comunidade”, ressalta.
Adriana Xavier, por sua vez, começou a modelar esculturas aos 10 anos, na comunidade de Campo Alegre, em Turmalina. Para a Maison & Objet, a artesã enviará bonecas de cerâmica de diferentes tamanhos. “Fico muito feliz de representar as mulheres da minha associação e do Vale do Jequitinhonha na França. A gente fica muito orgulhosa de saber que o trabalho da gente está sendo reconhecido internacionalmente. Vou levar para Paris não somente as minhas esculturas, mas a história das 52 mulheres da Associação dos Artesãos de Campo Buriti e de tantas outras artesãs da região”, comemora emocionada.
Artesanato e geração de renda
A chegada das peças a Paris faz parte de um trabalho desenvolvido pelo Sebrae Minas no Vale do Jequitinhonha há mais de 20 anos, com ações relacionadas à gestão dos negócios, desenvolvimento de produtos, design, presença digital e acesso a mercados.
Em 2019, foi criado o projeto Identidade e Origem, voltado para a valorização de elementos culturais associados à produção da região. Dois anos depois, foi lançada a Marca Território Vale do Jequitinhonha, desenvolvida pelo Conselho das Artesãs do Vale do Jequitinhonha em parceria com o Sebrae.
Atualmente, 120 artesãos são atendidos pelas iniciativas, segundo os dados divulgados pelo Sebrae Minas. A instituição estima que as ações de valorização da produção local e acesso a mercados tenham contribuído para um aumento médio de 30% no faturamento nos últimos anos.
Cerca de R$ 2,5 milhões foram movimentados em vendas no período. Somente a edição de 2025 da Viagem para a Origem, ação que leva compradores nacionais ao Vale do Jequitinhonha, teria gerado mais de R$ 450 mil em compras diretas e encomendas.
“O acompanhamento contínuo realizado pelo Sebrae Minas permitiu elevar o nível de maturidade dos negócios, preparando os artesãos para atender às exigências de mercados mais sofisticados, ampliar sua capacidade produtiva e acessar oportunidades comerciais de maior valor agregado. Para garantir vantagem competitiva nos mercados internacionais, investimos no fortalecimento da qualidade, identidade e narrativa sobre a origem das esculturas”, destaca Marcelo de Souza e Silva.