Estado de Minas TEATRO

Espetáculo une dança-teatro e jazz para abordar violência contra a mulher

Inédita em Belo Horizonte, montagem da Cia. Entre Nós fica em cartaz até 26 de outubro no CCBB BH


postado em 28/09/2026 21:57 / atualizado em 28/09/2026 22:45

Espetáculo
Espetáculo "NÓS ou NINGUÉM PODIA OUVIR OS OLHOS DELA" estreia nesta sexta-feira (2) (foto: Leandro Alves/Divulgação)
O espetáculo “NÓS ou NINGUÉM PODIA OUVIR OS OLHOS DELA”, da Cia. Entre Nós, de São Paulo, estreia nesta sexta-feira (2), no Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte (CCBB BH). Inédita na capital mineira, a montagem aborda a violência contra a mulher por meio da dança-teatro e do jazz, com histórias livremente inspiradas em casos reais.

Com atuação de Daniela Rosa e Rafael Bougleux e direção de Fernando Gimenes, a peça acompanha um casal que ouve jazz enquanto vivencia um processo artístico de investigação sobre violência e feminicídio. A proposta é abordar os limites e as diferentes formas de violência presentes nas relações amorosas, das mais sutis às explícitas.

Entre as referências do espetáculo estão a cantora Eliane de Grammont, assassinada a tiros durante uma apresentação, em 1981, pelo ex-marido, o cantor Lindomar Castilho, e Nina Simone, que sofreu abusos físicos e psicológicos do marido e empresário Andrew Stroud. A montagem também se inspira em trabalhos da escritora Dione Carlos, da performer Suzanne Lacy e da fotógrafa Nan Goldin.

Segundo a atriz, fundadora da Cia. Entre Nós e idealizadora do trabalho, Daniela Rosa, a criação do espetáculo surgiu do desejo de levar para a cena experiências e relatos relacionados à violência contra as mulheres. “Da minha própria vivência como mulher e artista, cercada por marcas, travessias de abusos e violências ao redor que atravessam a vida de tantas de nós. Eu sentia a necessidade de usar o corpo e a dança-teatro não apenas como expressão estética, mas como uma ferramenta política e pessoal. Ao lado de Fernando Gimenes e Rafael Bougleux, buscamos transformar essa memória vivida e presenciada em uma narrativa poética e contundente — que denunciasse o abuso, fizesse o público refletir criticamente sobre o machismo estrutural”, conta.

A montagem estreou em 2015 e permanece no repertório da companhia. Para Daniela, a continuidade do espetáculo também está relacionada à permanência da violência de gênero como tema. “A permanência da obra no repertório (da companhia) carrega um sentimento agridoce. Por um lado, escancara que a pauta continua tragicamente urgente, por outro, mostra a força da dança-teatro como poderoso instrumento de denúncia para transformar realidades. Acessamos o público de uma forma que os números e as estatísticas talvez não consigam: pela empatia, o afeto e a subjetividade da cena. O palco vira um alto-falante para denunciar o que muitas vezes é empurrado para debaixo do tapete”, afirma.

Na construção da peça, dança e teatro se misturam para explorar a relação entre os personagens e as situações de violência. De acordo com o diretor Fernando Gimenes, o corpo ocupa papel central na narrativa. “O corpo vem antes, sempre. Ele denuncia o espírito. Ele denuncia a realidade mesmo que a palavra tente confundir ou organizar o discurso verbal. Um olhar é corpo transbordante. Neste trabalho, não nos preocupamos em diferenciar a dança do teatro. Não acredito nesses limites, preferimos borrá-los ao máximo possível”, comenta Fernando Gimenes.

A relação com a plateia também integra a proposta da montagem. Ao colocar o público na posição de testemunha da história, a companhia busca provocar o reconhecimento das diferentes manifestações de violência apresentadas em cena.

“A relação com quem assiste é direta, poética e profunda: o público não é mero espectador. Sentimos em cena um incômodo palpável no ar, um silêncio denso que, por vezes, se torna insuportável ali permanecer. Percebemos que a plateia reconhece no palco as violências do cotidiano — das mais sutis e veladas às mais explícitas. É frequente ver pessoas profundamente emocionadas, mulheres que se identificam com o que veem e homens constrangidos ou deslocados de sua zona de conforto. A obra funciona como um espelho e um espaço seguro de escuta por onde passamos, provocando essa tomada de consciência que o ato de testemunhar juntos artisticamente consegue gerar”, comenta Daniela Rosa.

Com uma trilha sonora executada ao vivo pelos músicos Renata Prado e Wendel Dima, o espetáculo estabelece pelo jazz uma relação entre música e corpo. “O pulso do jazz simula a dinâmica de um corpo vivo, análogo à pulsação e à contração rítmica do peito humano”, explica Gimenes.

O repertório também presta homenagem a Nina Simone. Segundo Gimenes, a trajetória pessoal da cantora dialoga com o tema abordado pela montagem. “Ele controlava a carreira e a vida da artista de forma sufocante, agredindo-a fisicamente de maneira recorrente. A dinâmica abusiva foi detalhadamente exposta no aclamado documentário What Happened, Miss Simone? (2015), utilizando gravações de voz e escritos da própria artista”, comenta Gimenes.

A temporada também inclui ações formativas. No sábado (3), após a apresentação, o  elenco e o diretor participam de um bate-papo sobre o processo de criação do espetáculo. Já no dia 17 de outubro, das 10h às 13h, a companhia realiza a oficina gratuita “Corpos que não se calam”, destinada a artistas da cena, estudantes e demais interessados maiores de 18 anos.
 
Cia Entre Nós (SP) estreia o espetáculo "NÓS ou NINGUÉM PODIA OUVIR OS OLHOS DELA” sobre violência contra a mulher, no palco do CCBB BH


Temporada:
2 a 26 de outubro de 2026, sexta a segunda-feira, às 19h 
Local: CCBB BH – Teatro II
*Dia 04/10, domingo, não haverá sessão do espetáculo, devido às eleições
*Dia 10/10, sábado, haverá sessão às 15h e às 19h
*Caso haja segundo turno, a sessão do dia 25/10 será transferida para o dia 24/10, às 15h
Ingressos gratuitos para o espetáculo com retirada no site ccbb.com.br/bh e na bilheteria do CCBB BH a partir de 23/09. 

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