
A montagem integra um projeto que começou com “Chica em Diamantina”, apresentada no último sábado (12), na cidade onde a ex-escravizada viveu e alcançou uma posição de destaque social quando o município ainda era conhecido como Arraial do Tijuco. As duas óperas foram encomendadas pela FCS e têm música de Guilherme Bernstein e libreto de Marcos Bernstein e Flávia Bessone.
A soprano Marly Montoni interpreta Chica da Silva, enquanto o tenor Ewandro Stenzowski assume o papel de João Fernandes, contratador de diamantes que manteve com ela uma relação durante 17 anos. As produções contam ainda com a participação da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, do Coral Lírico de Minas Gerais e da Cia de Dança Palácio das Artes.
Com direção musical e regência de André Brant, as montagens têm como proposta recuperar a figura histórica por trás do mito construído ao longo dos séculos. Chica da Silva já foi retratada em diferentes obras, entre elas “O Romanceiro da Inconfidência” (1953), de Cecília Meireles; o filme “Xica da Silva” (1976), de Cacá Diegues, protagonizado por Zezé Motta e Walmor Chagas; e a novela “Xica da Silva” (1996), de Walcyr Carrasco, com Taís Araújo no papel principal.
As novas óperas se aproximam da perspectiva apresentada pela historiadora Júnia Ferreira Furtado no estudo “Chica da Silva e o Contratador dos Diamantes – O Outro Lado do Mito” (2003), que procura separar os registros históricos das representações populares construídas em torno da personagem.
“Bruxa, sedutora, heroína, rainha ou escrava: afinal, quem era Chica da Silva?”
Nascida entre 1731 e 1735 no Arraial do Milho Verde, atual Serro, Francisca da Silva de Oliveira era filha do militar português Antônio Caetano de Sá e de Maria da Costa, uma mulher escravizada. Na juventude, Chica foi vendida ao médico Manuel Pires Sardinha, com quem teve seu primeiro filho, Simão Pires Sardinha.
Em 1753, foi comprada pelo desembargador João Fernandes de Oliveira, responsável pela extração de diamantes no Tijuco, e alforriada pouco depois. Embora não pudessem se casar oficialmente, os dois viveram juntos por 17 anos e tiveram 13 filhos, todos reconhecidos pelo pai e com seu sobrenome.
João Fernandes retornou a Portugal em 1770 para receber a herança do pai e levou consigo alguns dos filhos homens. Chica permaneceu em Minas Gerais com uma grande fortuna e patrimônio, além de numerosos escravizados. A riqueza permitiu que investisse na educação dos filhos e inserisse suas filhas na elite local por meio de casamentos.
Chica morreu em 15 de fevereiro de 1796 e foi enterrada no interior da Igreja de São Francisco de Assis, espaço então reservado a integrantes das camadas mais ricas e influentes da sociedade.
A trajetória, porém, também expõe contradições que as óperas pretendem abordar. Depois de nascer escravizada e conquistar a liberdade e uma posição social incomum para uma mulher negra no Brasil colonial, Chica tornou-se proprietária de escravizados. Segundo as informações apresentadas pela produção, chegou a possuir 104 pessoas escravizadas e não libertou nenhuma delas em seu testamento.
É a partir dessas diferentes dimensões que “Chica da Silva” procura questionar as imagens consolidadas sobre a personagem e apresentar uma mulher inserida nas complexas relações raciais, econômicas e sociais do século 18.
Ópera “Chica da Silva”
Datas: 19 (sábado), 21 (segunda-feira) e 23 de setembro (quarta-feira)
Horários: 19h no sábado, 20h na segunda e na quarta
Local: Grande Teatro Cemig Palácio das Artes
(Avenida Afonso Pena, 1537, Centro – Belo Horizonte)
Classificação indicativa: Livre
Ingressos: R$ 60 a inteira e R$ 30 a meia-entrada, à venda na plataforma Sympla, na bilheteria do Palácio das Artes e nos totens de autoatendimento