
Filhos de Chico Anysio (1931–2012) e Lucio Mauro (1927–2019), respectivamente, os atores levam ao palco experiências pessoais, memórias familiares e reflexões sobre suas trajetórias profissionais. Assistida por mais de 85 mil espectadores, a montagem também celebra a amizade entre os dois, construída a partir da relação que seus pais mantinham.
“Esse espetáculo é, antes de tudo, a celebração da grande amizade que nossos pais passaram para nós. Nossas trajetórias se entrelaçaram por conta própria, repetindo uma feliz parceria deles, mas do nosso jeito, no nosso tempo”, resume Lucio. “Na peça nós os usamos para falar sobre a passagem do tempo e a tentativa de entender o nosso lugar nesse mundo novo”, completa Bruno.
A ideia do espetáculo surgiu antes da pandemia, durante a turnê de “5x Comédia”, produção da qual os dois participavam. A direção ficou a cargo de Debora Lamm, enquanto Aloísio de Abreu e Rosana Ferrão assinam o texto, desenvolvido a partir de conversas e questionamentos apresentados pelos protagonistas.
“Nós somos parceiros da Debora há pelo menos 20 anos, no teatro, no cinema e na TV. É uma química testada e aprovada, tanto na esfera pessoal quanto na profissional”, pontua Lucio. “Eu e Lucinho começamos a ter várias ideias, mas queríamos um olhar de fora. Foi aí que convidamos Aloísio e Rosana, dois parceiros meus de muitos anos, que assinaram comigo os roteiros de ‘A Diarista’ e ‘Cilada’, respectivamente. Nós sabíamos sobre o que gostaríamos de falar. Eles nos ouviam, traziam ideias e a gente lia, debatia, levantava outras. Enfim, foi um trabalho muito participativo”, conta Bruno.
Novos tempos
Ao longo da apresentação, Bruno e Lucio interpretam cerca de dez personagens, além de diferentes versões de si mesmos. A narrativa é construída por meio de esquetes que misturam elementos autobiográficos e ficcionais para discutir questões como a cultura do cancelamento, as fake news, a velocidade das redes sociais e os limites da comédia.
“Uma das finalidades do humor é fazer as pessoas olharem para coisas que estão acontecendo na sociedade sob outra perspectiva. E a nossa peça faz uma reflexão sobre a linha tênue que define os limites da comédia e da nossa responsabilidade de estar em sintonia com o nosso tempo. O humor também envelhece”, pondera Lucio.
Para a diretora Debora Lamm, a montagem encontra na capacidade de rir de si mesmo uma maneira de abordar questões que atravessam a trajetória dos protagonistas. “Rir de si mesmo é humor esperto. Numa mistura de autoficção e variados personagens, os meninos fazem um divertido panorama de suas próprias trajetórias, abraçam a crise da maturidade em meio ao declínio do patriarcado e, simultaneamente, emocionam ao falarem da importância da amizade e parceria que perpassam os anos”, observa Debora Lamm.
A dificuldade de acompanhar as mudanças tecnológicas e culturais também aparece na peça. Uma das situações apresentadas parte de uma discussão entre os personagens sobre publicar ou não uma dança no TikTok, dando início a uma sequência de reflexões sobre a necessidade de se manterem relevantes na meia-idade.
“É uma reflexão também sobre o desejo de não remar contra a maré e ao mesmo tempo entender os novos tempos. Ou seja, nós não somos youtubers, nós não sabemos fazer um TikTok. Então, o que a gente faz? Será que ainda vai ter espaço para o que a gente sabe fazer”, questiona Bruno. “Enxergar o novo é a chave. E também buscar um equilíbrio entre a bagagem que acumulamos e podemos oferecer aos projetos, sempre mantendo as portas abertas para as novidades”, complementa Lucio.
O legado dos pais no palco
O próprio título do espetáculo faz referência a uma frase que os atores ouviram diversas vezes ao longo da carreira. Após receberem elogios de admiradores nas ruas, os encontros frequentemente terminavam com a observação: “Gostava mais do seu pai”.
A comparação com Chico Anysio e Lucio Mauro se transforma em material para as esquetes. Em uma das cenas, Bruno brinca com a expressão “filho do Chico Anysio”, frequentemente utilizada para apresentá-lo em entrevistas na televisão. Já Lucio aborda a dificuldade de se desvincular do sobrenome herdado do pai.
O cenário, concebido por Daniela Thomas, utiliza imagens de arquivo para acompanhar as situações apresentadas em cena. Entre lembranças familiares, personagens e discussões sobre o presente, a montagem explora a relação dos dois artistas com a própria história e as mudanças no universo da comédia.
Serviço
Espetáculo “Gostava Mais dos Pais”
Dias 16, 17 e 18 de outubro (sexta e sábado, às 21h; domingo, às 19h)
Grande Teatro do Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1046, Centro)
Ingressos a partir de R$ 60 (meia-entrada)
Vendas no Sympla
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