Estado de Minas LITERATURA

Mãe de vítimas de Brumadinho lança livro sobre luto e memória

Helena Taliberti, que perdeu os dois filhos, a nora e o neto na tragédia de 2019, apresenta obra em Ouro Preto e Belo Horizonte neste mês de outubro


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O lançamento em São Paulo lotou a Livraria da Vila. A obra já está à venda no site da editora(foto: Jozzuu/Divulgação)
O lançamento em São Paulo lotou a Livraria da Vila. A obra já está à venda no site da editora (foto: Jozzuu/Divulgação)
Sete anos após perder os dois filhos, a nora e o primeiro neto, que ainda estava sendo gestado, no rompimento da barragem de Brumadinho, a economista Helena Taliberti transforma sua experiência com o luto em literatura. No livro “Tentam nos enterrar, não sabem que somos sementes” (Editora Ofício da Palavra), a autora revisita a história da família e reflete sobre amor, perda e memória. A obra terá lançamentos em Ouro Preto, no sábado (17), e em Belo Horizonte, na terça-feira (20).

 

O primeiro encontro acontece durante o Fórum das Letras, em Ouro Preto, às 10h30. Helena participa da roda de conversa “O que permanece”, ao lado da jornalista e escritora Daniela Arbex, autora de “Arrastados: Os bastidores do rompimento da barragem de Brumadinho, o maior desastre humanitário do Brasil”, e da diretora-presidente da Fundação Memorial de Brumadinho, Fabíola Moulin. O debate abordará questões relacionadas ao luto, à memória e à permanência dos vínculos afetivos após a perda.
 
Em Belo Horizonte, o lançamento será realizado na Livraria Quixote, às 19h, durante o Encontro Singulares, apresentado pela jornalista Paola Carvalho. A iniciativa promove conversas presenciais e coletivas sobre temas da vida contemporânea, tendo a literatura como ponto de partida.
 
Ao longo do livro, Helena compartilha lembranças dos filhos e aborda os sentimentos que atravessam sua experiência desde a tragédia de 25 de janeiro de 2019. A narrativa também propõe uma reflexão sobre as consequências de perdas traumáticas e a importância de preservar a memória das vítimas.
 
“Na perda há uma dor ácida que vem com a ruptura, com o vazio, com a falta de sentido, com os fragmentos em que a vida se torna, com o acordar todos os dias e redescobrir a perda. É um naufrágio diário, em que a primeira respiração da manhã traz de novo o peso da água barrenta aos pulmões. Mas, no amor, há uma paz doce e plena, como um farol que ilumina intensamente o caminho, revela a profundidade do vínculo e confere nitidez à presença deles na lembrança”, escreve Helena em um dos trechos da obra.
 
A relação entre amor e sofrimento também aparece em outra passagem do livro. “O perder e o amar são faces da mesma moeda, e é nesse lugar que está a mais profunda experiência humana. No luto, são pêndulos e a prova mais real de que algo imenso, pleno e lindo existiu. Se dói com essa intensidade, é porque o que houve antes foi uma luz capaz de cegar o mundo. A dor é o eco de um amor que não encontrou mais o seu destino físico, mas que se recusa a silenciar”, afirma.
 
Diferentes olhares sobre o luto
 
O livro já está à venda no site da editora Ofício das Palavras(foto: Divulgação)
O livro já está à venda no site da editora Ofício das Palavras (foto: Divulgação)
A publicação conta com três prefácios, assinados pelas jornalistas Cristina Serra e Daniela Arbex e pela psicóloga Maria Helena Pereira Franco. Os textos apresentam diferentes perspectivas sobre a trajetória de Helena e a experiência de transformar vivências pessoais em um relato público.
 
Autora de “Tragédia em Mariana: A história do maior desastre ambiental do Brasil”, Cristina Serra acompanha a história de Helena desde o rompimento da barragem. No prefácio, destaca a maneira como a economista reconstrói as lembranças familiares.
 
“Do abismo à perda infinita, Helena constrói um relato amoroso e delicado da história dos seus filhos e de sua maternidade, das dificuldades da vida em família, da construção do caráter de cada um, de como se transformaram em pessoas éticas e comprometidas com um mundo melhor”, escreve.
 
Daniela Arbex, que investigou o rompimento da barragem de Brumadinho no livro “Arrastados”, também aborda a dimensão da perda vivida pela autora. “Em um encontro regado à empatia, lembro de ter pensado em como me sentiria se estivesse no lugar dela. Foi um exercício inútil. Só Helena sabia e sabe o que é ocupar um corpo permanentemente em carne viva”, relata.
 
Já Maria Helena Pereira Franco, psicóloga que acompanha Helena em seu processo de luto, reflete sobre os desdobramentos de compartilhar uma história pessoal com os leitores. “Contar a história de uma vida de seus lutos abre portas para que o íntimo se torne público. Existem limites nesse processo porque, uma vez publicada, a história não perde sua autoria, porém tocará em outras histórias, que serão revisitadas, ressignificadas, reescritas. É o rio que corre em seu leito até desaguar no mar”, compara.
 
O posfácio é assinado por Vagner Diniz, marido de Helena, que participou da criação dos filhos desde que se casaram, quando Camila e Luiz tinham menos de dez anos. “A leitura do livro da Helena é um chamado para que olhemos as coisas como elas são, para o que realmente importa e para o que nos faz afirmar que vale a pena viver”.
 
Memória das vítimas de Brumadinho
 
Helena Taliberti e Vagner Diniz, ao lado dos filhos, Camila e Luiz, mortos na tragédia de Brumadinho. (foto: Arquivo Pessoal)
Helena Taliberti e Vagner Diniz, ao lado dos filhos, Camila e Luiz, mortos na tragédia de Brumadinho. (foto: Arquivo Pessoal)
Naturais de São Paulo, Camila e Luiz Taliberti estavam em Brumadinho com a família para conhecer o Instituto Inhotim. Eles ficaram hospedados em uma pousada atingida pela lama após o rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, em 25 de janeiro de 2019. A tragédia deixou 272 vítimas.
 
Após a perda dos filhos, da nora e do neto, Helena e Vagner criaram, ao lado de amigos de Camila e Luiz, o Instituto Camila e Luiz Taliberti (ICLT). A entidade desenvolve projetos culturais e ações de mobilização voltados à preservação da memória das vítimas, à defesa da vida e à proteção ambiental.
 
Entre as iniciativas realizadas pelo instituto está a exposição “Paisagens Mineradas”, que reuniu obras de 12 artistas mulheres sobre os impactos da mineração nas paisagens físicas e simbólicas do Brasil. Entre 2023 e 2025, a mostra passou por Belém, São Paulo, Belo Horizonte e Ouro Preto.
 
A instituição também promove anualmente a Mostra Cinema, Mineração e Meio Ambiente, com exibição de documentários e filmes de ficção, além de debates com cineastas sobre as consequências humanas e ambientais da atividade mineradora.
Outra ação é o Ato pela Memória, realizado todo dia 25 de janeiro, na avenida Paulista, em São Paulo. O encontro reúne atividades culturais e educativas em homenagem às vítimas do rompimento da barragem.
 
O livro “Tentam nos enterrar, não sabem que somos sementes” já está disponível no site da editora Ofício das Palavras e em livrarias físicas.
 
Serviço
Lançamento: “Tentam nos enterrar, não sabiam que somos sementes”, de Helena Taliberti (Ofício da Palavra)
Dia: 20/10 (terça-feira)
Horário: 19h
Local: Livraria Quixote (Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi) 

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