Publicidade

Estado de Minas VIAGEM

Exploramos a gastronomia da Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais

Conhecida por suas estâncias de águas minerais, a região sul do estado é terreno fértil para os sabores e destino ideal para quem sabe o valor dos produtos artesanais, como azeites, vinhos, geleias, queijos e cervejas


postado em 24/09/2019 14:51 / atualizado em 24/09/2019 17:02

Cozinha do restaurante Tia Iraci, no Vale do Matutu, em Aiuroca: comida mineira raiz, feira no fogão a lenha com ingredientes vindos da horta orgânica(foto: Nereu Jr./Divulgação)
Cozinha do restaurante Tia Iraci, no Vale do Matutu, em Aiuroca: comida mineira raiz, feira no fogão a lenha com ingredientes vindos da horta orgânica (foto: Nereu Jr./Divulgação)
É bem no alto. Lá onde as nuvens descansam, o vento frio faz a curva e as araucárias contornam o horizonte. Em um país tropical, a Serra da Mantiqueira parece que se esqueceu de seguir as regras de um Brasil de verão quase constante. No pico de suas montanhas, os termômetros marcam abaixo de zero e a terra se faz perfeita para o cultivo de produtos que só chegavam em nossas mesas quando trazidos de outros cantos do mundo: de uvas a oliveiras, o que se planta por ali, vinga. E vai muito além do vinho e do azeite: alcaparras, frutas vermelhas, café e até lúpulo (usado na produção da cerveja) ganham força na região.

Com quase 500 quilômetros de extensão, a Serra da Mantiqueira se divide entre Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Dos seus 24 municípios, 60% estão em território mineiro. O Sul do estado, conhecido pelos turistas por suas estâncias de águas minerais, oferece também um roteiro gastronômico riquíssimo. Gente que veio de longe ou que nasceu ali e não abandona suas raízes ganha a vida plantando, produzindo e criando uma terra de oportunidades. "Não trabalho com mercadoria, mas com alimento", afirma o publicitário Alê Mattar, que trocou São Paulo por Aiuruoca, onde fabrica geleias orgânicas. Não à toa, é da região que saem os melhores cafés do mundo. Em Cristina, município com pouco mais de 10 mil habitantes, está o produtor Sebastião Afonso da Silva, que levou a Cup of Excellence, o Oscar do universo cafeeiro, com seu café cultivado a 1,3 mil metros de altitude.

A pouco mais de 100 quilômetros de Cristina está Alagoa. O município - com praça, igreja e coreto, como toda cidade do interior que se preze - entrou no mapa gastronômico graças ao queijo artesanal feito ali. Preparado com leite cru, ele lembra o sabor de parmesão um pouco mais leve. Figura conhecida pelas ruas do lugarejo é Osvaldo Martins, o Osvaldinho, que em 2009 criou o primeiro e-comerce queijeiro do país. Nos dois primeiros meses de empresa, Osvaldinho - que trabalha com cerca de 10 produtores locais, entre convidados e fixos - vendeu três peças. "E eu achei que estava indo muito bem", diz ele, que atualmente comercializa mais de uma tonelada por mês e, graças ao movimento pela web, a pequena agência do Correio se mantém ativa na cidade de 2.700 moradores.

Queijo, na verdade, é o que não falta. A Serra da Mantiqueira fabrica um queijo com características muito distintas. "Há uma forte influência de países como Inglaterra, Dinamarca e Noruega. As receitas não são de matriz portuguesa, como acontece no Serro e na Canastra, por exemplo", explica o chef e professor Edson Puiati. Muitos investem na fabricação de queijos finos como emmental, gouda, gorgonzola e gruyère. O Queijo Artesanal Mantiqueira de Minas é feito por nove municípios. São 209 produtores que fazem aproximadamente 3,2 toneladas de queijo, por dia.

E é nas entranhas da Mantiqueira que vem crescendo a olhos nus a produção do azeite. Para muitos especialistas, o novo ouro dourado das Gerais. Atualmente, são quase 180 produtores espalhados entre Rio, São Paulo e Minas. Em 2018, a produção da região foi de 80 mil litros. O empresário Nélio Weiss plantou seu primeiro olival em 2011 e, hoje, tem 6 mil árvores com oito diferentes variedades de azeitonas. "Por aqui, temos o clima e o terroir perfeito com o solo arenoso e inclinado, o que facilita o escoamento da água", diz.

E ainda tem cachaça, cerveja, doces... Para quem gosta de comer bem, a Serra da Mantiqueira é um terreno a ser devorado. Não tenha medo do chão de barro, das estradas de terra, da falta de wi-fi. Vá. Deixe o tempo passar devagar; ande no meio dessa gente que valoriza o tacho de cobre, o café coado. Que sabe o valor do quintal, que nunca deixa de ter sobre a mesa um pedaço de queijo ou broa fresquinha. Gente que se reúne ao redor do fogão a lenha para falar da vida e que sabe se o frio está chegando só de olhar o céu.

Muitos produtores locais são pequeninos e não trabalham com visitação guiada. Mas vale a pena bater palma na porta e pedir licença para conhecer o trabalho. Para facilitar sua vida, fizemos um roteiro com alguns programas imperdíveis na região.

Cruzília

(foto: Nereu Jr./Divulgação)
(foto: Nereu Jr./Divulgação)
O produtor Sandro Antunes de Barros (na foto, com a filha Ana Laura), da Fazenda Teixeira, produz artesanalmente cinco tipos de queijo: gouda, meia-cura, prato, provolone e o montanhês. Seu mais famoso é o montanhês capa preta. Com um pincel, toda a peça é revestida por uma resina natural, o que garante uma proteção extra, deixando o miolo mais macio. Possui massa compacta e firme e sabor levemente picante. Na fazenda, há uma lojinha, onde os visitantes podem escolher o que levar para casa.

Contato: (35) 99987-1756

Aiuruoca

(foto: Nereu Jr./Divulgação)
(foto: Nereu Jr./Divulgação)
É possível caminhar entre as oliveiras espalhadas por uma área de 13 hectares e conhecer de perto como funciona o processo de olivicultura. Também é explicado como é produzido o azeite extravirgem artesanal. O produtor Nélio Weiss, que deixou a carreira de executivo em uma multinacional pela produção de azeite, ainda ajuda os turistas a reconhecerem um produto de qualidade. No final do passeio, há degustação.

Contatowww.olibi.com.br / (35) 99983-0957

Vale do Matutu (Aiuruoca)

(foto: Nereu Jr./Divulgação)
(foto: Nereu Jr./Divulgação)
Aos pés do Pico do Papagaio, o restaurante Tia Iraci exige uma caminhada de pouco mais de 700 metros até o imóvel, rodeado por mata. É comida mineira de raiz, feita no fogão a lenha com ingredientes vindos da horta orgânica. Tudo feito no capricho e com fartura. Para beber, cerveja artesanal local ou ainda as caipirinhas da casa, como a de laranja com pimenta ou de limão com capim-santo. Torça para que no dia da sua visita tenha no bufê o pastel de angu recheado com carne moída. Dos sonhos.

Contatowww.tiairaci.com.br / (35) 99844-5212

(foto: Nereu Jr./Divulgação)
(foto: Nereu Jr./Divulgação)
O casal de publicitários Kátia Alqualo e Alê Mattar trocou a correria das agências de mídia de São Paulo pela tranquilidade do campo. Desde 2010, eles produzem as geleias Sítio Cambará com as frutas que nascem no pomar da fazenda. O plantio é totalmente orgânico e da terra nascem amoras, framboesas e mirtilos. A produção é pequena, cerca de 300 potinhos por mês. E entre novembro e fevereiro, os visitantes podem visitar a plantação e provar as frutas no pé.

Contato: (35) 99939-1705

Alagoa

(foto: Nereu Jr./Divulgação)
(foto: Nereu Jr./Divulgação)
Osvaldo Martins, o Osvaldinho, revolucionou o mercado na região. Mesmo sem nunca ter produzido queijo, tornou-se um dos maiores vendedores de queijo de Minas. Em 2009, ele começou a vender as peças pela internet. Hoje, a lojinha reúne queijos de pelo menos 10 pequenos produtores, incluindo aí alguns premiados, como o que recebeu medalha de bronze no Mondial du Fromage, em Tours, na França.

Contatowww.queijodaalagoa.com.br / (35) 99885-6638

São Lourenço

(foto: Nereu Jr./Divulgação)
(foto: Nereu Jr./Divulgação)
Com mais de um século de existência, a Miramar foi a primeira empresa a fabricar requeijão no Brasil. "A família Silvestrini trouxe da Itália a receita", diz a administradora Célia Andrade. Assim foi criado o Cremelino. Anos mais tarde, a sociedade entre os irmãos Mario e Angelo se desfez. O primeiro foi para São Paulo, onde criou o Catupiry. Na loja da marca, também é possível comprar outros queijos finos como camembert, gruyère e gouda, além de doces feitos pelo próprio laticínio.

Contato: (35) 3331-1608

(foto: Carolina Daher/Encontro)
(foto: Carolina Daher/Encontro)
São mais de 150 sabores de doces fabricados pela fábrica, que existe desde 1983. Com uma loja pertinho do Parque das Águas, a São Lourenço oferece aos visitantes a chance de degustar os doces antes de encher a cestinha de compras. Além dos tradicionais, a marca conta com produtos sem glúten, sem lactose e diet. O doce de leite é o mais vendido e também pode ser encontrado na versão tablete. Nas prateleiras, ainda é possível encontrar compotas de frutas, como figo, laranja, pêssego e goiaba.

Contatowww.docessaolourenco.com.br / (35) 3332-3288

A Unique Store oferece cafés coados na hora em diversos métodos de extração: coador de pano, expresso, french press, chemez, kalita, hario V60, aeropress, além de drinques à base de café. Dividindo espaço com a cafeteria há uma lojinha com cafés especiais e outras
com produtos para  presentear. O mais legal, no entanto, é o serviço Do Pé à Xícara. Acompanhado de um especialista, o turista visita a lavoura de um dos melhores cafés do mundo, tem uma aula sobre processo
de produção e ainda acompanha a torra dos grãos. Uma degustação encerra o passeio.

Contatowww.uniquecafes.com.br / (35) 3331-1086

Soledade de Minas

Há quase três décadas. Vicente Marin começou a fazer queijo com leite de vaca. Para se diferenciar da concorrência, viajou pelo mundo em busca de novos caminhos. Veio de Israel a ideia de trabalhar
com o leite de ovelha. A partir de 2012, o Val di Fiemme virou uma referência do assunto. O grande estaque
da marca é o neve. Envolto em mofo branco - o mesmo usado no brie, por exemplo - é macio e extremamente cremoso. Há ainda as versões recheadas de nozes, pimenta e vinho. Além do queijo de ovelha, o latícinio ainda produz queijos de cabra e vaca.

Contatowww.valdifiemme.com.br / (35) 99800-3437

Itajubá

(foto: Nereu Jr./Divulgação)
(foto: Nereu Jr./Divulgação)
Na estrada entre Itajubá e Maria da Fé, encontra-se o sítio Caminho do Sol. Entre bananeiras, há uma destilaria e uma cervejaria, ambas artesanais. O produto mais famoso é a cachaça de banana. Quando maduras, são trituradas e, em seguida, fermentadas. O mosto é, então, biodestilado em alambique de cobre, o que garante uma cachaça realmente de banana, já que o álcool é extraído diretamente da fruta. Eles também fabricam cerveja e gim. Aos sábados, tem visita guiada com o mestre-cervejeiro Maykon Carvalho.

Contatowww.musaagro.com.br / (35) 98810-1293

Delfim Moreira

(foto: Nereu Jr./Divulgação)
(foto: Nereu Jr./Divulgação)
As águas limpas e com temperaturas que variam de 11 a 18 graus são ideais para a criação de truta. Paulo Alves é pioneiro na região. Há 40 anos trouxe o primeiro alevino de Campos de Jordão, em São Paulo, e desde então já perdeu as contas de quantas criou na Truticultura Brumado. Com uma capacidade para 10 toneladas/ano, a fazenda conta com um grande criadouro. Se for época de desova, é possível acompanhar o processo de fertilização, comandado por "seu" Antônio (foto), que há 25 anos trabalha
com truta. Combinando com antecedência, dá até para provar uma moqueca preparada especialmente com o peixe.

Contato: (35) 99927-3420

Santa Rita do Sapucaí

(foto: Nereu Jr./Divulgação)
(foto: Nereu Jr./Divulgação)
Não deixe de parar no Grandpa Joel’s Coffee. Além da cafeteria ser um charme, é possível encontrar diversas delícias preparadas (ou cultivadas) por pequenos produtores locais. Mel, licores, geleias, tortas e outras gostosuras podem ser saboreadas na companhia de um bom café especial da casa. Os clientes também têm a chance de provar dois patrimônios imateriais do município: O Pão Cheio (foto) e a Pasta Flora. O primeiro tem origem italiana: massa fofa recheada com linguiça e queijo minas. Já a Pasta Flora existe há mais de 50 anos e foi inventada por Maria Martinez, que durante décadas foi dona de uma confeitaria na praça principal da cidade. Hoje, o doce - massa podre, recheio de chocolate com notas de laranja - é preparado por sua bisneta, Andrea Del Castilo.

Os comentários não representam a opinião da revista e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade