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Estado de Minas SAÚDE

Será que existe um horário certo para dormir?

A ciência tem compreendido cada vez melhor a predisposição genética que as pessoas têm em relação ao descanso


postado em 20/07/2019 00:11 / atualizado em 23/07/2019 15:25

O professor de teatro Fernando Linares em seu ateliê, onde gosta de trabalhar na madrugada:
O professor de teatro Fernando Linares em seu ateliê, onde gosta de trabalhar na madrugada: "Só acordo cedo quando tenho alguma reunião ou ensaio de manhã" (foto: Samuel Gê/Encontro)
Uma anedota conta que um homem acostumado a acordar tarde teve de se levantar, um dia, antes das sete da manhã para resolver burocracias no fórum da cidade. Ao sair de casa e entrar no carro, viu várias pessoas andando na rua, o trânsito engarrafado, e se perguntou: "Ué, todos têm pendências para resolver no fórum?" Por muito tempo, a sociedade teve a percepção de que há um horário "certo" para dormir e para acordar. Mas, o que às vezes é considerado desleixo ou até preguiça - deitar-se e levantar-se tarde -, especialistas veem apenas como um dos padrões de horário de sono aos quais as pessoas têm propensão natural.

As fases de sono preferenciais variam consideravelmente na população, desde o extremo matutino (que dorme e acorda cedo) até o vespertino (dorme e acorda tarde), passando por várias faixas intermediárias. O mecanismo que controla o sono é multifatorial, mas sabe-se, hoje que boa dose dele é genética. "Mais recentemente, tem-se descoberto, inclusive, quais são os genes que atuam no processo", explica o neurologista e neurofisiologista clínico Guilherme Marques, pesquisador do grupo de medicina do Sono da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto.

"Pesquisas recentes indicam possível relação entre diminuição do sono e desenvolvimento da doença de Alzheimer", diz o neurologista Igor Levy (foto: Ronaldo Dolabella/Encontro)
Segundo Guilherme, tanto quem tem o cronotipo mais para uma ponta quanto para a outra desse espectro costuma ter dificuldades na sociedade, mas o perfil vespertino é mais comum entre jovens e adultos - o outro é mais comum em idosos. "Há pessoas que dormem, mas o sono não as descansa. Elas são avaliadas e não percebemos apneia ou nenhum outro problema", afirma o neurologista. "Aí, elas entram de férias, são liberadas dos compromissos do dia a dia e o horário de dormir muda", completa. Segundo ele, algumas pessoas até conseguem adaptar-se e dormir no horário "convencional", ou mais tradicionalmente praticado, mas há quem não seja tão tolerante e essas pessoas podem sofrer de um sono pouco reparador. "Geralmente, quem é vespertino extremo passa por um insone, sendo que, na verdade, é apenas alguém que vai deitar-se tarde, mas não tem a chance  de dormir até o horário que necessita", completa. Ele alerta para o risco do uso errado da melatonina, que pode causar distúrbios no padrão de sono: é um medicamento e sua utilização precisa ser personalizada e acompanhada por um especialista.

O professor de teatro Fernando Linares, de 60 anos, sempre teve perfil vespertino. Atualmente, chega das aulas na Escola de Teatro Universitário da UFMG por volta das 11h da noite. Nesse horário, ainda não pensa em dormir: costuma ir para seu ateliê, onde trabalha até por volta das 4h, em plena madrugada. Só aí vai deitar-se. Idealmente, acorda no fim da manhã - quando a maioria das pessoas já está de olho no almoço -, mas nem sempre é possível. "Às vezes, tenho alguma reunião ou ensaio", diz. Se, atualmente, esses compromissos da manhã são menos comuns, eram frequentes na época da graduação, quando as aulas começavam às 7h. "Esse período foi bastante sacrificante", conta.  Sua sorte, diz, é que não precisa de muitas horas de sono para se sentir descansado.

"Há pessoas cujo sono não as descansa, e, ao serem avaliadas, não percebemos nenhum problema. Aí, elas entram de férias, e o horário de dormir e acordar muda", afirma o neurologista Guilherme Marques (foto: Violeta Andrada/Encontro)
De acordo com Guilherme, não é problema dormir mais tarde ou acordar mais tarde. O problema começa quando há uma dessincronização entre o horário preferencial de sono e os compromissos do dia. "Estão surgindo estudos sobre como a sociedade pode comportar isso melhor. Na escola, por exemplo, crianças são obrigadas a acordar muito cedo e, para algumas delas, isso pode impactar negativamente no desempenho acadêmico", afirma. Mas, enquanto isso ainda é uma discussão incipiente, a dica é tentar organizar sua rotina, adequando-a o máximo possível ao seu cronotipo (saiba qual é o seu no questionário a seguir). Caso não seja viável e você sinta que isso está atrapalhando sua vida - como qualquer outra questão relacionada ao sono -, é indicado procurar ajuda profissional, pois há terapias disponíveis para quem tem os chamados distúrbios circadianos. O ciclo circadiano é uma espécie de relógio interno, que identifica a duração dos períodos do dia e da noite e é responsável por ajustar as funções fisiológicas no período de 24 horas, aproximadamente. A importância de um sono adequado não é uma informação nova, mas a cada dia surgem evidências de impactos nas mais diversas áreas da saúde. No longo prazo, pode ter correlação, inclusive, com o desenvolvimento de doenças degenerativas.

Segundo o neurologista Igor Levy, a falta de um sono adequado pode contribuir para o desenvolvimento do Alzheimer. "Pesquisas recentes mostram um aumento da proteína Tau em cérebros de pessoas com diminuição do sono não-REM (uma das fases do sono)", diz. "Acredita-se que o acúmulo dessa proteína no cérebro seja uma das causas da doença de Alzheimer." Independentemente do horário preferido, Levy reforça que é indicado ir para a cama e acordar na mesma hora diariamente. Além disso, lembra a importância da higiene do sono: recomenda evitar cafeína e outros estimulantes a partir do fim da tarde, praticar exercícios físicos (preferencialmente pela manhã), tirar a televisão do quarto e, caso o sono não venha após 20 minutos tentando, ir para a sala e ler ou ouvir música até ficar com sono. Nada de ficar revirando na cama.

Faça um teste para saber qual é o seu padrão de sono natural (clique na imagem abaixo para ampliar)



*Leia também na edição impressa (nº 217) de Encontro 

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