Estado de Minas ENTREVISTA

Livro reúne expressões do futebol que viraram linguagem cotidiana

O médico Roberto Marini Ladeira lança obra com 80 verbetes que mostram como jargões dos gramados migraram para política, cultura e vida diária


postado em 12/02/2026 06:33 / atualizado em 12/02/2026 08:20

"Seja na política, nas empresas, na religião, nas canções, não importa o campo: em algum momento, alguém 'tocou a bola' e usou uma expressão do futebol fora das quatro linhas", observa Roberto Marini Ladeira (foto: Pádua de Carvalho)
Mesmo sem perceber, expressões do mundo do futebol acabam invadindo o nosso dia a dia. Quem nunca se pegou falando: “Chegou aos 45 do segundo tempo”, “Levou uma bola nas costas” ou “Fulano matou no peito”? É sobre essa influência que o médico mineiro Roberto Marini Ladeira, de 64 anos, discorre em sua primeira obra. Apaixonado por futebol desde a infância, ele acaba de lançar o livro A Vida em Campo – O Futebol Nosso de Cada Dia, pela editora Benvinda, trazendo uma coletânea de expressões e jargões que nasceram nos gramados, mas hoje fazem parte do cotidiano de todos nós. A publicação reúne cerca de 80 verbetes que mostram como o futebol ultrapassou “as quatro linhas” (olha aí outra expressão muito usada ultimamente) e se tornou parte da cultura brasileira. Roberto é formado em medicina interna e doutor em epidemiologia. “Trabalhei 27 anos no Hospital João XXIII, onde fui preceptor da residência em clínica médica. Também atuei na diretoria antes de me transferir para a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), na qual trabalhei na área de ensino e pesquisa até a minha aposentadoria”, diz. Do consultório médico para a literatura, Roberto compartilha o processo de criação de sua obra, suas memórias e a sua profunda relação afetiva com o esporte mais popular do país.
 
1- Como nasceu a ideia do livro?
Desde que eu era menino, lá pelos 9 ou 10 anos, sempre gostei muito de futebol. Joguei de forma amadora, acompanhei campeonatos, lia sobre o assunto. Mais recentemente, me ocorreu a ideia de garimpar expressões que nasceram no futebol, mas que hoje usamos no nosso dia a dia. Comecei de forma despretensiosa, apenas anotando essas frases, até perceber que o material rendia um livro. O que me instigou foi justamente observar como essas expressões estão incorporadas em outros contextos: na política, na arte, na vida cotidiana. São expressões que a gente usa o tempo todo, às vezes sem se dar conta de que vieram do futebol.  Este livro é uma espécie de prorrogação linguística, reunindo dezenas de expressões que nasceram nos gramados, mas driblaram as fronteiras do esporte e marcaram presença na nossa vida cotidiana. 
 
2- O senhor se lembra qual foi a primeira expressão que despertou a sua curiosidade?
Talvez não a primeira, mas uma das mais marcantes é “aos 45 do segundo tempo”. É aquela onde os 45 minutos são o fim do primeiro e do segundo tempo de uma partida e definem bem o hábito de deixar tudo para o fim, especialmente quando o assunto é o imposto de renda. Outra que gosto bastante é “levar uma bola nas costas”, usada quando alguém é surpreendido ou enganado. E também a clássica “pedir música no Fantástico”, brincadeira criada no programa da TV Globo em 2007, na qual o jogador que fizesse três gols em uma mesma partida tinha direito de escolher uma música para ser trilha sonora de sua performance. A frase virou referência e passou a ser usada de forma figurada, em diversas situações, para ironizar algo que aconteceu pela terceira vez.
 
3- O livro reúne cerca de 80 verbetes. Como foi o processo de pesquisa?
Comecei em 2019, mas fui escrevendo aos poucos, sem pressa. Só no último ano é que dei uma acelerada, quando percebi que o projeto estava tomando forma. Eu nunca tive a pretensão de escrever um livro, foi algo que nasceu como hobby, do gosto pessoal. Acabei descobrindo que existe até uma produção acadêmica relevante sobre o tema nas universidades brasileiras, principalmente em cursos de Letras e Comunicação. Seja na política, nas empresas, na religião, nas canções, não importa o campo: em algum momento, alguém “tocou a bola” e usou uma expressão do futebol fora das quatro linhas. É como se o jogo, além de paixão nacional, tivesse se transformado também em uma poderosa metáfora da vida cotidiana.
 
4 - E como o livro é estruturado?
A obra é organizada de forma leve e divertida. Cada expressão é apresentada em duas etapas: primeiro, o significado original, dentro do universo do futebol; depois, sua adaptação para o dia a dia. Assim, o leitor entende tanto a origem quanto o uso popular de expressões que saíram dos gramados e invadiram a linguagem cotidiana. O formato é dinâmico e permite que o leitor abra o livro em qualquer página e encontre uma curiosidade ou história que o faça sorrir e se divertir. Sem dúvidas, deixa o nosso dia mais agradável.
 
5- O futebol tem uma presença forte na identidade brasileira. Por que o senhor acha que isso acontece?
Porque o futebol é um esporte democrático. Dá para jogar em qualquer lugar: na rua, no mato, em campinhos improvisados. Ele agrega pessoas, é acessível e inclusivo. Além disso, o futebol é um instrumento de ascensão social para muitos jovens. E o Brasil tem essa relação histórica com o esporte. Crescemos vendo nossa seleção vencer e formando grandes ídolos. Tudo isso contribui para o futebol estar tão presente na nossa linguagem e cultura.
 
6- O senhor é torcedor do Clube Atlético Mineiro. O amor pelo time vem de família?
Sem dúvida. Meu pai, Wilson de Assis Ladeira, era o que se chama de “atleticano doente”. Ao mesmo tempo, ele também jogou basquete pelo Minas Tênis Clube na década de 1930. Essa paixão pelo esporte passou para mim e para meus irmãos. Durante muitos anos fui frequentador assíduo do Mineirão e do Independência. Hoje assisto mais pela televisão. Continuo apaixonado, mas de forma mais tranquila.
 
7 - O seu livro foi lançado justamente no Minas Tênis Clube. Há um simbolismo nisso, então?
Totalmente. O Minas tem uma ligação afetiva com minha família. Meu pai jogou basquete lá, meu filho mais velho foi atleta de futsal, e vários parentes são sócios. Além disso, o clube tem uma área cultural muito ativa e é um espaço agradável para esse tipo de evento. Então o lançamento lá, no último dia 15 de setembro, teve um significado muito especial pra mim.
 
8- Se o senhor tivesse que escolher uma expressão futebolística para resumir o momento atual do Brasil, qual seria?
Acho que seria “jogar com o regulamento debaixo do braço”. É aquela atitude de quem segue as regras e faz o que é necessário para não perder o jogo. A expressão significa que um time atua de forma estratégica, aproveitando a vantagem do regulamento, seja um resultado favorável ou uma pontuação acumulada em jogos anteriores, para garantir a classificação sem correr riscos desnecessários. Na prática, trata-se de adotar uma postura mais cautelosa, controlando o ritmo da partida em vez de buscar a vitória a qualquer custo. Fora das quatro linhas, a expressão ganhou novo sentido e passou a ser usada em situações em que alguém age com prudência, calculando cada passo para alcançar um objetivo. Acho que é o que o país precisa: respeitar as normas, fazer o dever de casa e, quem sabe, virar o jogo.
 
9- O que o futebol representa para o senhor hoje?
Para mim, assistir a uma boa partida é um momento de relaxamento, descanso e prazer. 

10- O senhor assiste apenas aos jogos do Galo ou gosta de ver outros clubes? 
Quando meu time não está jogando, é ainda melhor, pois posso curtir o jogo sem sofrer. O que lamento é que, hoje, os estádios estejam marcados pela violência. Na minha época, as torcidas frequentavam o campo juntas, sem dias determinados para uma ou outra ir. O futebol era, sobretudo, sinônimo de amigos e família reunidos.




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