Estado de Minas NOVAS PERSPECTIVAS

Cannabis medicinal amplia tratamentos, mas acesso ainda enfrenta barreiras

Marco regulatório entra em vigor em agosto para cenário mais flexível, mas uso no país ainda é cheio de desafios, como os altos custos e o preconceito


postado em 27/07/2026 10:01 / atualizado em 27/07/2026 10:36

Canabinoides são utilizados em casos de dor crônica, epilepsia, autismo e em pacientes com perda de apetite; também ajudam na regulação do sono(foto: Freepik)
Canabinoides são utilizados em casos de dor crônica, epilepsia, autismo e em pacientes com perda de apetite; também ajudam na regulação do sono (foto: Freepik)
Desde que tinha 21 anos, a fotógrafa Anna Luisa Francia Paulino experimentou todos os tratamentos alopáticos padrão “ouro”, em doses máximas, para tratar a fibromialgia - uma disfunção no processamento da dor em todo o corpo, principalmente músculos e tendões, que atinge 3% da população brasileira. Mas nenhum deles teve eficácia contra as dores insuportáveis que sentia. 
 
“Eu não conseguia fazer tarefas simples, como lavar os cabelos, pois levantar os braços era insuportável. Eu não ria ou conversava, no sentido literal. Tem dois pontos atrás da nuca que doíam tanto, mas tanto, que qualquer movimento subia uma pressão muito forte para a cabeça. Era horrível”, lembra ela, hoje com 29 anos.
 
Foi uma saga de oito anos até que sua psiquiatra, que tratava sua depressão, decidiu prescrever canabidiol e THC, em 2024. Logo na primeira semana usando os óleos CBD e THC E, Anna Luisa lembra que sentiu as dores diminuírem. “A melhora foi rápida, comparada aos outros medicamentos. Na época, eu sentia dor até com o toque do vento. Quando chegava ao ponto de ir para o hospital, me davam tramadol com mais alguma coisa e era a mesma coisa que nada.”

A fotógrafa diz que os óleos trouxeram uma evolução substancial em todas as condições que ela tratava, na neurologia e na psiquiatria, incluindo depressão, ansiedade, TDAH e autismo. Seis meses depois de iniciar os tratamentos, ela voltou a sorrir e a trabalhar.
 
Julia Khoury, psiquiatra e especialista em canabinóides, avalia que ainda há forte preconceito em relação ao uso medicinal da cannabis, sobretudo entre adultos e idosos(foto: Catharina Corradi/Divulgação)
Julia Khoury, psiquiatra e especialista em canabinóides, avalia que ainda há forte preconceito em relação ao uso medicinal da cannabis, sobretudo entre adultos e idosos (foto: Catharina Corradi/Divulgação)
Embora apenas 1% dos médicos prescrevam medicamentos à base de cannabis medicinal, essa opção terapêutica tem crescido nos consultórios, diz a psiquiatra Júlia Khouri, doutora em medicina molecular e especializada em canabinóides pela WeCann Endocannabinoid Global Academy no Brasil. “Eu costumo prescrever especialmente para quadros de insônia, ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT)”, diz a médica.

Pelo menos 873 mil pessoas utilizam esses medicamentos no país, universo que poderia ser de 6,9 milhões de brasileiros não fossem o forte preconceito que ainda envolve o tema, os desafios regulatórios e a desigualdade no acesso a esses tratamentos. Os dados são da plataforma Kaya Mind, que anualmente divulga um mapeamento completo sobre cannabis medicinal.
 
Mudanças regulatórias recentes, no entanto, podem desatar alguns nós desse processo. Em um conjunto de resoluções publicadas em fevereiro, a Anvisa liberou o cultivo da planta para fins medicinais, farmacêuticos e de pesquisa e retirou da lista de substâncias proibidas a Cannabis sativa L. com teor de THC (tetrahidrocanabinol) igual ou inferior a 0,3%, limite que antes era de 0,2%. As novas regras começam a valer em agosto próximo.
 
Com fibromialgia, a fotógrafa Anna Luisa Paulino diz que sentiu alívio rápido com o uso dos óleos (foto: Arquivo Pessoal )
Com fibromialgia, a fotógrafa Anna Luisa Paulino diz que sentiu alívio rápido com o uso dos óleos (foto: Arquivo Pessoal )
A agência também incluiu pacientes que sofrem de doenças debilitantes graves, como fibromialgia, caso da fotógrafa Anna Luisa, e lúpus, no rol de pessoas autorizadas a fazer uso medicinal de produtos à base de cannabis com concentração de THC acima de 0,2%. Além disso, ampliou as formas de administração, autorizando o uso dermatológico, sublingual, bucal e inalatório. Segundo a entidade, a medida busca ampliar a adesão ao tratamento por pacientes em condições especiais.
Julia Khoury avalia que as mudanças representam um avanço significativo. Segundo ela, a autorização para o cultivo por empresas e associações habilitadas tende a reduzir os custos dos tratamentos e ampliar o acesso. “Hoje os medicamentos ainda são caros, seja em farmácias ou por importação.”
 
A manipulação também permitirá a individualização das doses e dos fitocanabinoides em cada produto. “Isso amplia nossa capacidade de atuação, e as diferentes vias de administração também são benéficas, como a dermatológica, que auxilia no tratamento da dor localizada, e a inalatória, útil em crises epilépticas”, explica a médica.
 
No entanto, há desafios, especialmente no que diz respeito à acessibilidade e à ampliação das indicações clínicas. Para Khoury, a inclusão da fibromialgia é um avanço importante, mas outras condições ainda ficam de fora. “A prescrição off-label nesses casos é mais arriscada, tanto para médicos quanto para pacientes”, alerta.
 
Leandro Ramires, médico oncologista e estudioso da cannabis medicinal há quase duas décadas, ao lado do filho, Benício(foto: Arquivo Pessoal)
Leandro Ramires, médico oncologista e estudioso da cannabis medicinal há quase duas décadas, ao lado do filho, Benício (foto: Arquivo Pessoal)
O médico Leandro Ramirez, 62 anos, alerta que a medida é um avanço, mas ainda bastante restritiva. “O marco regulatório não está definido no que diz respeito a uma abrangência mais completa. Ele significa que o Brasil vai poder plantar cannabis para fins medicinais com uma concentração de THC inferior a 0,3%. Entretanto, o tratamento medicinal à base de cannabis é muito mais complexo e amplo do que uma limitação imposta pelo THC a 0,3%.”
 
De acordo com o profissional, que trabalha na coordenação científica e no apoio ao tratamento dos pacientes da Associação Brasileira de Pacientes de Cannabis Medicinal (Ama-Me), a Anvisa ainda está preparando editais e vai construir um sandbox regulatório para para acompanhar, durante cinco anos, a produção da medicação feita pelas associações de pacientes e a distribuição por meio dessas entidades, em parcerias com universidades.
 
Para Ramirez, além do preço, uma das maiores dificuldades para o tratamento é o acesso a um médico que tenha uma formação adequada para a prescrição. “Isso envolve um conhecimento mais aprofundado do sistema endocanabinoide, matéria essa que até hoje não é ensinada nas escolas”, diz ele, que defende uma verdadeira mudança de paradigmas pois a indicação depende profundamente do quadro e do perfil do paciente, com doses muito individualizadas.
 
“O médico tem que conhecer o sistema endocanabinoide, acompanhar o paciente de perto. É preciso lembrar que hoje existe uma variedade imensa das espécies de cannabis e até mesmo a miligramagem dos fitocanabinoides em plantas com perfis diferentes provocam efeitos diferentes”, afirma ele, que prescreve cannabis desde março de 2014. “Meu primeiro paciente foi meu filho, autista. O segundo, meu pai”, conta o especialista, que também é cirurgião oncológico e mastologista.  
 
As novas normas da Anvisa devem impulsionar o mercado de derivados da cannabis, que já tem crescido de forma expressiva no Brasil desde 2014, quando a Justiça autorizou pela primeira vez a importação de um remédio à base da planta. A perspectiva é que o setor supere a cifra de R$ 1 bilhão em 2026, após faturar R$ 971 milhões em 2025. Porém, estudos do Kaya Mind indicam que o potencial é de R$ 9,5 bilhões.

Novas opções terapêuticas 
 
O CBD (canabidiol) e o THC (tetrahidrocanabinol) também atuam na regulação do sono, do ritmo circadiano e do sistema endocanabinoide próprio do corpo, contribuindo para o início e a manutenção do sono. Além desses compostos, há um uso crescente de outros fitocanabinoides, como o CBN (canabinol), associado ao relaxamento e à melhora do sono; o CBG (canabigerol), com potencial anti-inflamatório; e o THCV (tetrahidrocanabivarina), que vem sendo estudado por seus efeitos no metabolismo, incluindo controle de glicose.
 
Os canabinoides são tradicionalmente utilizados em casos de dor crônica, como fibromialgia, epilepsia, autismo (especialmente para agitação e comportamento agressivo) e em pacientes com perda de apetite, incluindo idosos com depressão. 
 
A médica Julia Khoury ressalta, no entanto, que ainda há forte preconceito em relação ao uso medicinal da cannabis, sobretudo entre adultos e idosos, muitas vezes por associação com o uso recreativo, que é importante ressaltar, segue proibido no Brasil. 
 
A profissional explica que se tratam de contextos distintos: enquanto a cannabis recreativa apresenta altas concentrações de THC e pode conter substâncias tóxicas, a cannabis medicinal é composta por formulações controladas, com concentrações seguras de fitocanabinoides, além de terpenos e flavonoides que contribuem para o efeito terapêutico.
“Esses produtos passam por controle rigoroso e são administrados por vias seguras, sem os riscos associados ao consumo fumado. Além disso, o limite de THC estabelecido pela Anvisa reduz significativamente o potencial de dependência, reforçando a segurança do uso quando feito com acompanhamento médico”, afirma a especialista.
 
Legalidade da produção medicinal
 
Nos últimos 12 anos, o Brasil saiu da proibição total para uma regulamentação progressiva, impulsionada por decisões judiciais e pela pressão das famílias. As mudanças regulatórias publicadas pela Anvisa em fevereiro atendem à decisão do Superior Tribunal de Justiça, que reconheceu a legalidade da produção para fins medicinais e farmacêuticos. 
Em abril, a Corte declarou cumpridas as determinações para regulamentação do setor. No entanto, a judicialização não deve cair significativamente, já que o cultivo doméstico e a venda de flores seguem proibidos. Hoje, cerca de 7 mil pessoas cultivam cannabis em casa por decisão judicial.
 
A história de Cyntia Giusti retrata essa realidade. Jornalista, ela viu a vida da filha, Andrezza Giusti Amora, mudar drasticamente após o diagnóstico de polineuropatia diabética, em 2013. Andrezza foi a primeira paciente de Minas Gerais a obter habeas corpus com salvo-conduto para cultivo de cannabis, e a primeira no Brasil por meio da Defensoria Pública do estado.
 
“Minha filha sentia dores intensas, espasmos, fincadas pelo corpo todo. Internava com frequência”, relembra. Ao longo dos anos, Andrezza chegou a usar 12 medicamentos neuropsiquiátricos, além de analgésicos potentes, incluindo morfina — sem alívio efetivo. “Os efeitos colaterais eram terríveis, ela ficava letárgica e não melhorava.” 
O ponto mais crítico veio quando um neurologista sugeriu a implantação de uma bomba de infusão contínua de morfina, com perspectiva de dependência e reabilitação posterior. “Eu recusei. O prognóstico era que ela ficaria acamada, usando fraldas e sonda.”
 
A mudança de perspectiva veio ao assistir a uma reportagem na TV sobre cannabis medicinal. A partir dali, Cyntia e a filha iniciaram uma jornada intensa de estudo e experimentação. Fizeram cursos no Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) e na Unifesp, tornando-se terapeutas canábicas. “Estudamos a planta e passamos a acolher pacientes junto a um médico prescritor.” Com o uso da cannabis, Andrezza apresentou melhora significativa: as dores cessaram e a qualidade de vida foi restabelecida. “Hoje ela não sente mais dor. Teve uma filha, a Melissa, e vive com muito mais dignidade.”
 
Cidade mineira fornece pelo SUS
 
A experiência impulsionou Cyntia para o ativismo e a política pública: ela conseguiu aprovar, em Rio Pomba, cidade de 17 mil habitantes da Zona da Mata de Minas Gerais, uma lei que prevê a distribuição de cannabis medicinal pelo SUS, batizada com o nome da filha. Paralelamente, passou a atuar em associações e na Sociedade Brasileira de Estudos da Cannabis, contribuindo para a formação e orientação de pacientes.
 
Para Cyntia, a recente atualização regulatória da Anvisa, que passou a incluir associações nas possíveis autorizações para plantio, representa um avanço importante, mas ainda é insuficiente. Ela ressalta que foram justamente essas organizações, muitas vezes criadas por mães, que garantiram acesso ao tratamento por anos, mesmo sob risco jurídico.
“O cultivo é complexo e inviável para muitos pacientes, por isso as associações são essenciais e a sua inclusão na regulamentação da Anvisa é um avanço”, avalia.
 
Entraves regulatórios, barreiras científicas e limitações no acesso ainda mantêm o país dependente de importações e restringem a inovação. Com ajustes estruturais, no entanto, especialistas apontam que o Brasil pode assumir protagonismo global na produção de conhecimento e tecnologia no setor.
 
“O retrato que emerge é claro: o Brasil tem todas as condições para se tornar um líder global em cannabis medicinal, mas enfrenta desafios profundos de implementação”, afirmam os fundadores da Kaya Mind, Maria Eugenia Riscala e Thiago Cardoso. “Superá-los exige uma mudança de paradigma na forma como a sociedade e a classe médica encaram o uso terapêutico da cannabis.”

Acompanhamento rigoroso e contraindicações
 
A psiquiatra Julia Khoury reforça que, apesar do maior acesso à cannabis medicinal, o uso de fitocanabinoides exige acompanhamento profissional rigoroso. Segundo ela, o tratamento deve sempre começar com avaliação de um médico ou dentista, os únicos profissionais autorizados a prescrever atualmente, e passar por uma anamnese detalhada, já que há contraindicações e riscos envolvidos.
 
A especialista alerta que os canabinoides podem interagir com outros medicamentos e não são indicados, por exemplo, para pacientes com insuficiência hepática ou em uso de anticoagulantes. Ela também chama atenção para os perigos do uso por conta própria e da compra de produtos sem prescrição, especialmente no mercado internacional, onde podem circular formulações com concentrações elevadas de THC, capazes de provocar dependência, tolerância e perda de eficácia ao longo do tempo.

Além disso, a profissional ressalta que efeitos colaterais como lentificação psicomotora, prejuízo da memória e da concentração podem ocorrer, dependendo da dose e do perfil do paciente. Por isso, enfatiza que tanto o tipo de óleo quanto a dosagem precisam ser individualizados, e que o compartilhamento ou uso indiscriminado desses produtos representa um risco significativo à saúde física e mental.

“É de interesse da soberania nacional a produção local”

Anderson Matos, psicólogo e gerente de processos da Associação Brasileira de Pacientes de Cannabis Medicinal (AMA-ME) (foto: AMA-ME/Divulgação)
Anderson Matos, psicólogo e gerente de processos da Associação Brasileira de Pacientes de Cannabis Medicinal (AMA-ME) (foto: AMA-ME/Divulgação)
Gerente de processos na Associação Brasileira de Pacientes de Cannabis Medicinal (AMA-ME), o psicólogo Anderson Matos, 58 anos, acredita que os avanços regulatórios anunciados pela Anvisa em fevereiro deste ano são cruciais. De acordo com ele, o acesso a produtos de cannabis no Brasil ainda permanece segmentado e a necessidade de importação de insumos inflaciona o produto final, fazendo com que se torne inacessível à maior parte da população. “A desburocratização e o estabelecimento de parâmetros para pesquisa, cultivo e atuação das associações permite a retirada do limbo jurídico que hoje ainda vigora no país e inibe este acesso”, afirma o profissional, que é doutorando em psicologia na UFMG.

Um dos desafios, segundo Anderson, é a segurança jurídica para atuação de instituições como a AMA+ME, criada em 2014. A iniciativa, que trabalha para combater a desinformação e o preconceito e para garantir os direitos dos pacientes que necessitam de cannabis medicinal, surgiu do encontro de diversas famílias que tinham crianças com Transtorno do Espectro Austista (TEA) e com epilepsias refratárias de difícil tratamento. Hoje, a entidade conta com mais de 4.000 associados, que têm acesso facilitado aos produtos por meio de prescrição médica.

“Estas entidades prestam serviço desde 2014 no país, cumprindo a função de garantir acesso a produtos nacionais, com regularidade e na observância de boas práticas desde o cultivo, a manipulação, rastreabilidade, análise e controle dos produtos finais. É de interesse da soberania nacional a produção local, garantindo processos de controle, geração de emprego e renda, produção de pesquisa e ciência”, defende Anderson.

Ele conta que a associação participa de um grupo de trabalho da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) para a elaboração de um Projeto de Lei que propõe a disponibilização desses produtos pelo SUS no estado. 

A AMA-ME está localizada na rua Timbiras, 3.448, no Barro Preto, e, em breve, vai inaugurar uma casa de apoio aos associados, que vai funcionar no mesmo endereço com a prestação de serviços de psicologia, serviço social, fisioterapia, terapia ocupacional e nutrição.
 
Membros da AMA-ME em audiência pública na ALMG: luta pela distribuição gratuita de medicamentos à base de cannabis pelo SUS(foto: AMA-ME/Divulgação)
Membros da AMA-ME em audiência pública na ALMG: luta pela distribuição gratuita de medicamentos à base de cannabis pelo SUS (foto: AMA-ME/Divulgação)
 

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