

Essa exigência de julgamento aparece com ainda mais força quando o assunto é avaliar o próprio aluno. Eucídio faz questão de separar preparação de aula e correção de prova. Na primeira, ele vê espaço largo para a IA ajudar a elaborar uma primeira versão de uma atividade, produzir exemplos, reorganizar um texto, criar exercícios com diferentes níveis de dificuldade e adaptar materiais para perfis distintos de estudantes. Na segunda, pede cautela: “Avaliar não é apenas verificar se uma resposta está certa ou errada; envolve compreender o percurso do aluno, o contexto da atividade, os objetivos de aprendizagem e, muitas vezes, aspectos que uma ferramenta automatizada não consegue perceber adequadamente”. Ele também frisa que o ganho maior da IA no trabalho docente não está em substituir tarefas do professor, mas em tirar do caminho o trabalho repetitivo. “Quanto mais a IA entra no trabalho docente, mais importante se torna a capacidade do professor de selecionar, verificar, adaptar e contextualizar aquilo que a tecnologia produz”, afirma.
No Bernoulli, essa lógica virou ferramenta com nome próprio: o Co-Cria Professor, um copiloto de planejamento ancorado no material didático do grupo, que gera uma primeira proposta de aula a partir da qual, conforme Francisco Pequê, “o professor faz a curadoria, adapta o conteúdo ao perfil da turma e toma as decisões pedagógicas”. Do lado do aluno, existe o TutorIA, que conversa sobre o conteúdo estudado e sugere formas alternativas de explicar um mesmo conceito, sempre dentro de um contexto pedagógico e de uma base de conteúdo previamente estruturada. Sobre o risco de a tecnologia ocupar espaço do professor, o diretor-executivo defende que “uma ferramenta pode explicar um conteúdo, gerar uma atividade ou analisar um conjunto de dados, mas não conhece um estudante da mesma maneira que seu professor”.


No Instituto Tarcísio Bisinotto (ITB), escola bilíngue que completa 30 anos no Belvedere e atende crianças de 4 meses a 6 anos, a equipe pedagógica descreve o mesmo movimento com ênfase na palavra escuta. “A principal competência que se tornou indispensável para o professor é a escuta sensível”, afirma Daiane Marques, da equipe do ITB. “Na primeira infância, onde o conhecimento não é transmitido, mas construído por meio de hipóteses, investigações e vivências, o educador precisa saber olhar para a tecnologia não como um substituto do pensamento, mas como um campo de provocação.” Ali, a IA aparece sobretudo na documentação pedagógica – sistematização de observações, registro de projetos e portfólios – liberando tempo que, defende Daiane, volta para “a observação sensível das crianças e a preparação dos ambientes de aprendizagem”.
