Estado de Minas TECNOLOGIA

Como a IA está mudando (mas não exterminando) o papel do professor

Avanço da Inteligência Artificial e novas formas de aprender exigem dos docentes competências que vão além do domínio do conteúdo


postado em 01/10/2026 08:27 / atualizado em 01/10/2026 08:43

Aula com o uso de Inteligência Artificial (IA) no Colégio Bernoulli: além do domínio do conteúdo e das estratégias pedagógicas, passa a ser cada vez mais importante saber utilizar a tecnologia de forma crítica (foto: Divulgação)
Aula com o uso de Inteligência Artificial (IA) no Colégio Bernoulli: além do domínio do conteúdo e das estratégias pedagógicas, passa a ser cada vez mais importante saber utilizar a tecnologia de forma crítica (foto: Divulgação)
Um professor pede que o aluno escreva primeiro uma resposta própria, sem consultar nada. Só depois disso ele libera o uso de uma ferramenta de Inteligência Artificial. A tarefa seguinte é comparar as duas respostas: onde a IA acertou, onde errou, o que ela deixou de fora, o que o próprio aluno defenderia mesmo contra a versão da máquina. É esse tipo de arranjo que Eucídio Pimenta Arruda, professor da Faculdade de Educação da UFMG, descreve quando fala em mediação em sala de aula entre estudantes e a Inteligência Artificial. “A IA deixa de ser apenas uma máquina de dar respostas e passa a ser também um objeto de análise”, afirma ele, ao descrever o método. Mas, antes disso, o professor precisa ter clareza sobre a finalidade pedagógica do exercício. “Não basta colocar o estudante diante do ChatGPT ou de outra ferramenta e pedir que ele produza alguma coisa. O professor precisa saber o que pretende que o aluno aprenda e, a partir disso, decidir onde a IA entra, onde ela deve parar e o que continua sendo responsabilidade intelectual do estudante”, defende o professor. É esse tipo de decisão, tomada aula a aula, que se impõe como resposta à afirmação de que a tecnologia se encaminha para substituir o papel dos professores. Para Eucídio e outros especialistas ouvidos por Encontro, porém, o que a IA faz é mudar o papel dos mestres em sala de aula. 

Francisco Pequê, diretor-executivo do Bernoulli Educação:
Francisco Pequê, diretor-executivo do Bernoulli Educação: "A tecnologia pode ajudar a identificar dificuldades, sugerir atividades e organizar informações, mas é o professor quem dá sentido pedagógico a esses dados e decide quais estratégias fazem sentido para cada turma ou estudante" (foto: Arquivo pessoal)
Francisco Pequê, diretor-executivo do Bernoulli Educação, descreve essa mudança como uma ampliação do repertório exigido do professor. “Além do domínio do conteúdo e das estratégias pedagógicas, passa a ser cada vez mais importante saber utilizar a tecnologia de forma crítica, avaliar a qualidade das informações produzidas pelas ferramentas e entender quando e como a IA pode, de fato, contribuir para a aprendizagem”, diz. Ele acrescenta que, nesse contexto, ganha peso também a leitura de dados: “A tecnologia pode ajudar a identificar dificuldades, sugerir atividades e organizar informações, mas é o professor quem dá sentido pedagógico a esses dados e decide quais estratégias fazem sentido para cada turma ou estudante”.

Essa exigência de julgamento aparece com ainda mais força quando o assunto é avaliar o próprio aluno. Eucídio faz questão de separar preparação de aula e correção de prova. Na primeira, ele vê espaço largo para a IA ajudar a elaborar uma primeira versão de uma atividade, produzir exemplos, reorganizar um texto, criar exercícios com diferentes níveis de dificuldade e adaptar materiais para perfis distintos de estudantes. Na segunda, pede cautela: “Avaliar não é apenas verificar se uma resposta está certa ou errada; envolve compreender o percurso do aluno, o contexto da atividade, os objetivos de aprendizagem e, muitas vezes, aspectos que uma ferramenta automatizada não consegue perceber adequadamente”. Ele também frisa que o ganho maior da IA no trabalho docente não está em substituir tarefas do professor, mas em tirar do caminho o trabalho repetitivo. “Quanto mais a IA entra no trabalho docente, mais importante se torna a capacidade do professor de selecionar, verificar, adaptar e contextualizar aquilo que a tecnologia produz”, afirma.

No Bernoulli, essa lógica virou ferramenta com nome próprio: o Co-Cria Professor, um copiloto de planejamento ancorado no material didático do grupo, que gera uma primeira proposta de aula a partir da qual, conforme Francisco Pequê, “o professor faz a curadoria, adapta o conteúdo ao perfil da turma e toma as decisões pedagógicas”. Do lado do aluno, existe o TutorIA, que conversa sobre o conteúdo estudado e sugere formas alternativas de explicar um mesmo conceito, sempre dentro de um contexto pedagógico e de uma base de conteúdo previamente estruturada. Sobre o risco de a tecnologia ocupar espaço do professor, o diretor-executivo defende que “uma ferramenta pode explicar um conteúdo, gerar uma atividade ou analisar um conjunto de dados, mas não conhece um estudante da mesma maneira que seu professor”.

Lilian de Oliveira Costa, diretora da Escola Visconde de Sabugosa:
Lilian de Oliveira Costa, diretora da Escola Visconde de Sabugosa: "É a criança que precisa experimentar e descobrir. A tecnologia entra como apoio para ampliar essa descoberta" (foto: Pádua de Carvalho)
A mesma tensão entre ferramenta e vínculo aparece em escolas de educação infantil – etapa em que, a rigor, a criança ainda não interage diretamente com nenhum chatbot. Na Escola Visconde de Sabugosa, no bairro Mangabeiras, que atende crianças de 1 a 5 anos, a diretora Lilian de Oliveira Costa também recusa a ideia de que a tecnologia diminua a função do professor. “A inteligência artificial veio somar. Ela não diminui a importância do professor, ao contrário, ela torna ainda mais importante o seu papel como mediador, observador e formador de pessoas”, diz. Isso porque, antes de ensinar conteúdos, a escola forma pessoas – o que explica o fato de a tecnologia entrar ali como apoio a uma experiência concreta, não como substituta dela. “Fazemos questão de que a tecnologia chegue à sala de aula a serviço de uma experiência real: uma conversa, uma história, uma investigação, uma brincadeira, uma produção artística, uma experiência científica ou uma atividade de movimento. É a criança que precisa experimentar e descobrir. A tecnologia entra como apoio para ampliar essa descoberta”, afirma.

Eucídio Pimenta Arruda, professor da Faculdade de Educação da UFMG:
Eucídio Pimenta Arruda, professor da Faculdade de Educação da UFMG: "A IA deixa de ser apenas uma máquina de dar respostas e passa a ser também um objeto de análise" (foto: Arquivo pessoal)
Na prática, isso significa usar ChatGPT e Gemini para criar recursos visuais, histórias e situações-problema a partir do perfil de cada turma – sempre com um limite bem marcado: “Nenhuma ferramenta substitui o olhar do professor. A proposta gerada pela IA precisa ser analisada, adequada aos objetivos pedagógicos que temos para a turma, sem perder nossa proposta pedagógica”. A preocupação em não deixar a criança apenas receber respostas prontas aparece numa comparação que a própria diretora traça com outra tecnologia que já causou estrago na infância. “Queremos plantar a sementinha que fará essa relação ser rica, produtiva e saudável pela frente, e não de dependência e proibições, como aconteceu com o mal uso do celular”, conta, fazendo menção à legislação que limitou o uso dos dispositivos em sala de aula.

No Instituto Tarcísio Bisinotto (ITB), escola bilíngue que completa 30 anos no Belvedere e atende crianças de 4 meses a 6 anos, a equipe pedagógica descreve o mesmo movimento com ênfase na palavra escuta. “A principal competência que se tornou indispensável para o professor é a escuta sensível”, afirma Daiane Marques, da equipe do ITB. “Na primeira infância, onde o conhecimento não é transmitido, mas construído por meio de hipóteses, investigações e vivências, o educador precisa saber olhar para a tecnologia não como um substituto do pensamento, mas como um campo de provocação.” Ali, a IA aparece sobretudo na documentação pedagógica – sistematização de observações, registro de projetos e portfólios – liberando tempo que, defende Daiane, volta para “a observação sensível das crianças e a preparação dos ambientes de aprendizagem”.

Daiane Marques, do Instituto Tarcísio Bisinotto (ITB):
Daiane Marques, do Instituto Tarcísio Bisinotto (ITB): "Na primeira infância, onde o conhecimento não é transmitido, mas construído por meio de hipóteses, investigações e vivências, o educador precisa saber olhar para a tecnologia não como um substituto do pensamento, mas como um campo de provocação" (foto: Pádua de Carvalho)
Para dar um contorno ainda mais concreto ao uso das IAs para o planejamento das aulas, Encontro ouviu também as próprias educadoras do ITB, como Ana Emília, que descreve um uso pontual e prático, “para otimizar a criação de relatos diários para os pais, permitindo redigir sem a trava do perfeccionismo inicial”. Já Aline Bastos reconhece que a chegada da ferramenta esbarrou em resistência – “principalmente pelo receio de que a tecnologia pudesse substituir algumas práticas já consolidadas” – antes de se firmar como apoio ao planejamento e à busca de novas estratégias. Por fim, Renata Oliveira, que trabalha com bebês em berçário, avalia que, no caso dela, a IA não mudou a essência da sala, mudou o bastidor. “A sala do berçário continua sendo um ateliê de investigação, feito de chão, corpo, sensorialidade e materiais não-estruturados”, diz, acrescentando que, com o apoio da ferramenta na documentação e na organização dos registros, sobrou tempo para chegar “com um ambiente mais pensado e com provocações alinhadas ao que observamos em cada bebê no dia anterior”. Sua conclusão: “a IA não alterou o encontro entre educadora e bebê, ela o protegeu, garantindo uma educadora mais disponível para acolher, observar, interagir e brincar”.

Os comentários não representam a opinião da revista e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação