
A coleta de dados ocorre por meio de questionários on-line, nos quais os participantes informam dados sociodemográficos, clínicos e comportamentais, além de detalharem o padrão de consumo. A partir dessas respostas, é feita a triagem para inclusão no estudo. Aqueles que indicam o uso de DEF passam a receber a intervenção digital pelo aplicativo de mensagens, além de três avaliações posteriores do padrão de uso ao longo de seis semanas. No caso de menores de idade, há uma reunião inicial com pais ou responsáveis para autorização formal da participação.
Coordenadora do estudo, a professora da Escola de Enfermagem Erika Gisseth Leon Ramirez afirma que o crescimento do uso desses dispositivos entre jovens tem se tornado uma preocupação de saúde pública no país, mas ainda carece de dados específicos. “Um levantamento de 2019 da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense) apontou que 26,9% dos estudantes já experimentaram o narguilé e 16,8% já experimentaram o cigarro eletrônico. No entanto, no contexto nacional, a ausência de dados detalhados sobre os componentes químicos inalados e as formas de consumo desses dispositivos limita a capacidade de desenvolver estratégias específicas de mitigação dos danos”, avalia.
Segundo a pesquisadora, os riscos à saúde são amplos, especialmente na infância e adolescência. “O uso dos DEF pode estar relacionado a prejuízos no sistema respiratório, incluindo inflamação das vias aéreas e comprometimento da função pulmonar, além de efeitos cardiovasculares, como aumento da pressão arterial e disfunção endotelial. Esses efeitos são particularmente preocupantes para a população infantil, visto que a exposição precoce a substâncias tóxicas pode comprometer o desenvolvimento pulmonar e predispor a condições respiratórias crônicas”, alerta.
Ramirez destaca ainda que o atual Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Tabagismo (PCDT) não contempla de forma específica a população mais jovem, concentrando-se principalmente no aconselhamento presencial, com suporte comportamental e medicamentoso. Nesse contexto, a proposta da pesquisa é ampliar as possibilidades de abordagem. “A estratégia de intervenção breve, adotada na pesquisa, tem evidência robusta na mudança de comportamentos de risco na população infanto-juvenil, como o uso de substâncias psicoativas, que pode ser adaptada para diversos contextos e formatos, dentre eles o formato digital. É fundamental explorar intervenções que possam ser adaptadas para as demandas contemporâneas e que favoreçam a aproximação entre o conhecimento científico e a população infanto-juvenil”, completa.
Para a professora, a integração de tecnologias em saúde pode ampliar o diálogo com adolescentes e jovens adultos e facilitar estratégias de prevenção e cessação do tabagismo. “Os aplicativos apresentam-se como uma ferramenta promissora para a cessação do tabagismo devido à sua capacidade de fornecer intervenções personalizadas baseadas em diretrizes científicas, além de incorporar diversas estratégias comportamentais e educacionais, como mensagens motivacionais, lembretes personalizados, monitoramento do progresso, vídeos educativos e até mesmo suporte comunitário através de fóruns ou grupos de apoio virtual”, conclui.