Estado de Minas NOVO MEDICAMENTO

UFMG testa pílula mensal para prevenção do HIV

Estudo internacional avalia eficácia do medicamento MK-8527 como alternativa à PrEP diária e pode ampliar opções de prevenção e adesão ao tratamento


postado em 04/02/2026 06:57 / atualizado em 04/02/2026 06:59

Segundo os pesquisadores, os testes indicam que o MK-8527 apresenta alta potência contra o vírus, baixa toxicidade e longa meia-vida no sangue(foto: CCS/Faculdade de Medicina da UFMG)
Segundo os pesquisadores, os testes indicam que o MK-8527 apresenta alta potência contra o vírus, baixa toxicidade e longa meia-vida no sangue (foto: CCS/Faculdade de Medicina da UFMG)
A Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) participa de um estudo internacional que avalia a eficácia de um novo medicamento para a prevenção da infecção pelo HIV. A pesquisa investiga o MK-8527, desenvolvido pela farmacêutica Merck, como alternativa de profilaxia pré-exposição (PrEP) oral de uso mensal, comparando-o com o modelo tradicional de comprimido diário, já disponível no Sistema Único de Saúde (SUS).

A PrEP é uma estratégia consolidada de prevenção, reconhecida por reduzir significativamente o risco de infecção pelo HIV. Atualmente, a prevenção pode ser feita por meio da medicação oral diária ou pela aplicação injetável em intervalos de dois ou seis meses. Ainda não há, porém, comprimidos de uso mensal aprovados para essa finalidade.

Na UFMG, o estudo é coordenado pelo professor Jorge Andrade Pinto, do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina, em parceria com os professores Mateus Westin e Júlia Caporali, do Departamento de Clínica Médica, e com a professora Flávia Ferreira, também do Departamento de Pediatria.

Os dados iniciais reúnem resultados de cinco estudos clínicos de fase 1 e um estudo de fase 2, que envolveram 431 voluntários, vivendo ou não com HIV. Segundo os pesquisadores, os testes indicam que o MK-8527 apresenta alta potência contra o vírus, baixa toxicidade e longa meia-vida no sangue, o que permite sua administração mensal. “Essas características fazem do medicamento uma forte candidata a ampliar as opções de prevenção, oferecendo mais praticidade e potencialmente melhor adesão ao uso”, enfatiza o professor Jorge Pinto.

O estudo atual é o primeiro ensaio clínico de fase 3 a investigar a eficácia do medicamento administrado mensalmente em comparação à PrEP oral diária. Para os pesquisadores, o avanço pode representar uma nova alternativa dentro das chamadas tecnologias de longa duração. “Se a eficácia for comprovada, essa estratégia vem somar às opções já existentes, ampliando a flexibilidade de escolha para os usuários”, explica o professor.

Apesar dos avanços nas políticas de prevenção e tratamento, dados epidemiológicos indicam que novas infecções pelo HIV continuam concentradas em populações com diferentes orientações sexuais e identidades de gênero. O cenário reforça a necessidade de estratégias mais acessíveis, eficazes e adaptadas às realidades sociais e econômicas dos usuários.

Além dos possíveis ganhos clínicos, a PrEP mensal também pode gerar impactos econômicos para os sistemas de saúde. A expectativa é de que o modelo de dose única mensal tenha custo inferior ao tratamento diário e contribua para melhorar a adesão ao uso da medicação — um dos principais desafios das políticas de prevenção.

Os pesquisadores ressaltam, entretanto, que a relação custo-efetividade dependerá da disponibilidade do medicamento a preços acessíveis, especialmente em países de baixa e média renda, onde se concentra a maior parte das novas infecções pelo HIV no mundo.

O estudo tem duração estimada de cerca de três anos. Para Jorge Pinto, ampliar as possibilidades de prevenção é um passo importante no enfrentamento da doença. “O ideal é que a PrEP se adeque ao estilo de vida, às condições socioeconômicas e ao acesso aos serviços de saúde de cada pessoa”, afirma.

Entre os desafios para a ampliação do acesso à tecnologia estão o estímulo ao licenciamento voluntário e a transferência de tecnologia por parte das farmacêuticas, medidas consideradas estratégicas para garantir a distribuição sustentável em regiões mais vulneráveis à epidemia.

A pesquisa já está em andamento na UFMG, por meio da Unidade de Pesquisa em Vacinas (UPqVac) da Faculdade de Medicina, que concluiu a triagem do primeiro grupo de voluntários. A previsão é de que os testes sejam iniciados ainda em janeiro.

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