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Consumo abusivo de álcool cresce nas capitais brasileiras, aponta estudo

Pesquisa coordenada pela UFMG mostra aumento entre adultos, sobretudo mulheres, e indica que Brasil pode não atingir meta global de redução até 2030


postado em 13/03/2026 07:59 / atualizado em 13/03/2026 08:01

Estudo também apontou aumento do consumo abusivo em quase todas as faixas etárias, com exceção dos jovens de 18 a 24 anos e dos adultos entre 45 e 54 anos(foto: Freepik)
Estudo também apontou aumento do consumo abusivo em quase todas as faixas etárias, com exceção dos jovens de 18 a 24 anos e dos adultos entre 45 e 54 anos (foto: Freepik)
O consumo abusivo de álcool tem aumentado entre adultos residentes nas capitais brasileiras, com crescimento mais expressivo entre mulheres, pessoas com maior nível de escolaridade e indivíduos de diferentes grupos raciais. A tendência indica que o Brasil está se afastando da meta global de redução do consumo de álcool estabelecida para 2030.

As conclusões fazem parte do estudo “Tendências temporais no consumo abusivo de álcool e suas projeções para 2030 nas capitais brasileiras”, coordenado pela professora Deborah Carvalho Malta, do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

O artigo analisou dados coletados entre 2006 e 2023 pelo Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Pesquisa Telefônica (Vigitel). A pesquisa contou com a participação de mais de 800 mil adultos com 18 anos ou mais, residentes nas capitais brasileiras e no Distrito Federal.

O objetivo foi examinar a evolução do consumo abusivo de álcool ao longo do tempo e gerar projeções até 2030, contribuindo para o desenvolvimento de políticas e programas de saúde voltados à redução do consumo de bebidas alcoólicas.

Segundo Deborah Malta, o álcool é uma substância tóxica e psicoativa que pode provocar dependência. O consumo abusivo é caracterizado pela ingestão de cinco ou mais doses para homens e quatro ou mais para mulheres em curto período de tempo. A pesquisadora destaca que o fenômeno envolve fatores culturais e sociais complexos.

“Em muitas sociedades, as bebidas alcoólicas são parte frequente das interações sociais, e é fácil ignorar ou desconsiderar os danos sociais e à saúde causados pelo seu consumo. Devemos reconhecer que o consumo de álcool está enraizado em práticas culturais, sociais e econômicas, o que exige abordagens de controle mais integradas e multidimensionais”, afirma.

De acordo com o levantamento, a proporção de consumo abusivo de bebidas alcoólicas nas capitais brasileiras passou de 15,7% em 2006 para 20,8% em 2023.

Ao analisar os dados por sexo, os pesquisadores identificaram aumento significativo entre as mulheres, cuja prevalência passou de 7,8% em 2006 para 15,2% em 2023. Entre os homens, o índice permaneceu relativamente estável, passando de 25% para 27,3% no mesmo período.

Entre as mulheres, o crescimento foi observado em 23 capitais brasileiras, com maior prevalência registrada nos estados de Mato Grosso do Sul, Bahia e Sergipe.

O estudo também apontou aumento do consumo abusivo em quase todas as faixas etárias, com exceção dos jovens de 18 a 24 anos e dos adultos entre 45 e 54 anos.

Entre pessoas com 12 anos ou mais de escolaridade formal, a prevalência subiu de 18,1% para 24%. O crescimento também foi identificado entre diferentes grupos raciais: pessoas brancas passaram de 14,7% para 21%; negras, de 18,8% para 23,2%; e pardas, de 16,1% para 20,3%. Já entre pessoas de origem asiática houve redução, de 16,1% para 14,3%.

A análise por regiões do país também mostrou aumento da prevalência do consumo abusivo de álcool. Os índices cresceram no Centro-Oeste, passando de 15,5% para 23,6%; no Nordeste, de 18,4% para 21,4%; no Sudeste, de 14,3% para 20,8%; e no Sul, de 13,2% para 20,7%.

De acordo com as metas de Saúde e Bem-Estar estabelecidas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil deveria reduzir o consumo de álcool em 10% entre 2015 e 2030. Para atingir esse objetivo, a prevalência deveria chegar a 15,5% na população total, 22,8% entre homens e 9,2% entre mulheres até o final do período.

No entanto, considerando a tendência observada entre 2015 e 2023, o estudo projeta que os índices devem alcançar 22,2% na população total em 2030, 26,5% entre homens e 19,3% entre mulheres.

Para a professora Deborah Malta, o cenário reforça a necessidade de fortalecer políticas públicas voltadas à redução do consumo abusivo de álcool. “É necessário fortalecer a restrição ao acesso a bebidas alcoólicas, aumentar a proibição de publicidade, promoção e patrocínio desses produtos, bem como intensificar o monitoramento das ações já implementadas. Somente por meio de respostas integradas, sustentadas e baseadas em evidências será possível reverter essa tendência e promover ambientes mais saudáveis e equitativos para a população”, concluiu.

Além de Deborah Malta, o artigo é assinado pelos pesquisadores da UFMG Crizian Saar Gomes, Regina Tomie Ivata Bernal, Alanna Gomes da Silva, Filipe Malta Santos e Sther Luna Abras dos Santos. Também participaram Guilherme Augusto Veloso, da Universidade Federal Fluminense, Paulo Ferrinho, da Universidade Nova de Lisboa, e Paula Carvalho de Freitas, do Ministério da Saúde.

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