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Vacina em estudo demonstra eficácia contra células tumorais ligadas ao HPV

Em análises pré-clínicas, imunizante se mostrou capaz de atacar fragmentos de câncer causado pelo papilomavírus humano. Teste em humanos ainda são necessários


postado em 30/04/2026 07:45 / atualizado em 30/04/2026 07:53

Nos testes, o imunizante aumentou em até oito vezes a capacidade das células de defesa reconhecerem onde o câncer está para, então, eliminá-lo(foto: Freepik)
Nos testes, o imunizante aumentou em até oito vezes a capacidade das células de defesa reconhecerem onde o câncer está para, então, eliminá-lo (foto: Freepik)
Uma possível vacina feita a partir de fragmentos modificados do papilomavírus humano (HPV) se mostrou eficaz no combate a células tumorais, em uma pesquisa da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, publicada em fevereiro na revista Science Advances. Nos testes, o imunizante aumentou em até oito vezes a capacidade das células de defesa reconhecerem onde o câncer está para, então, eliminá-lo.
 
Seria uma estratégia diferente daquela usada para prevenção do HPV. “O estudo trata de uma vacina terapêutica contra cânceres associados ao vírus. Ela contém um pequeno fragmento de uma proteína viral derivada do HPV que também está presente nas células tumorais formadas por ele”, explica o oncologista Henrique Alkalay Helber, especialista em tumores ginecológicos do Einstein Hospital Israelita. “Quando o sistema imune é exposto a esse fragmento, ele ativa células de defesa, que passam a reconhecer células que expressam essa proteína e melhoram sua capacidade de atacá-las.” 
 
O estudo indica que o imunizante em testes (chamado de N-HSNA) aumentou a resposta do sistema imunológico tanto nas avaliações feitas em animais como nas realizadas em células humanas in vitro. Os camundongos que receberam a vacina tiveram sua sobrevida prologada, e a redução dos tumores foi potencializada ao combinar o tratamento medicamentoso com imunoterapia.
 
“Essa imunoterapia ensina células de defesa do corpo que cumprem uma função de exterminar células doentes a reconhecer as partículas deste vírus. É como dar a essa linha de defesa a capacidade de ver com óculos especiais”, compara a imunologista Ana Karolina Marinho, membro da Comissão Técnica para a Revisão dos Calendários Vacinais da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).
 
O produto em estudo é pensado especificamente para tratar pessoas que convivem com tumores formados por lesões causadas pelo vírus. Entre os cânceres mais comuns com origem nessa infecção estão os de colo do útero, ânus, vulva, vagina, pênis, boca e garganta. Estima-se que 5% dos casos de câncer do mundo sejam associados ao contato com esse agente infeccioso.
 
Contudo, apesar dos resultados observados serem animadores, é preciso ter cautela antes de considerar que será possível replicá-los em pessoas. “Esses são dados de estudos pré-clínicos [ou seja, em animais e células]. Já são um feito muito importante, mas para validarmos a eficácia observada é preciso passar por testes em humanos, incluindo ao menos três fases que aumentem gradualmente o público imunizado, para garantir a eficiência e evitar efeitos colaterais”, observa Marinho.

Um vírus perigoso — e evitável 
 
Existem mais de 200 tipos de HPV, todos transmissíveis por contato com pele, mucosa ou relação sexual. Os mais associados à formação de cânceres são o 16 e o 18, que em geral não causam verrugas e lesões cutâneas, pelas quais a doença é conhecida.
Uma vez instalado nas células, o vírus gera uma infecção persistente, que transforma e multiplica as células. “O tumor não é o vírus em si, mas são células humanas que foram transformadas após a infecção pelo HPV. Por isso, essas proteínas virais permanecem nas células de câncer, permitindo que o sistema imune, após ser treinado pela vacina, reconheça a célula como doente e possa destruí-la”, explica Henrique Helber.
 
A vacina em estudo poderia ser usada de forma complementar ao tratamento atualmente existente, com radioterapia e quimioterapia. "A ideia seria aumentar a resposta imune antitumoral em associação a outras terapias que já usamos na prática”, afirma o médico do Einstein.
Vale lembrar que o câncer de colo do útero e as demais neoplasias associadas ao HPV são altamente preveníveis por meio de um imunizante já disponível no Brasil. “A vacina é uma ferramenta eficaz para combater o câncer e previne os principais tipos de HPV cancerígeno. Quanto antes ela for aplicada, menor o risco de já haver contato com o vírus e, portanto, maior sua proteção”, frisa a especialista da SBim. 
 
Na rede pública, a vacinação está disponível para crianças e adolescentes com idades entre 9 e 14 anos, além de pessoas imunossuprimidas e vítimas de violência sexual. Na rede particular, também é possível tomar. Converse com seu médico para saber se o imunizante é indicado a você ou a seus filhos.

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