
Os autores conduziram uma avaliação longitudinal que acompanhou 2.450 participantes. Em um primeiro momento, investigaram a frequência e o consumo de álcool, cigarro e maconha dos 18 aos 30 anos, no período entre 1976 e 1991. Mais tarde, testaram a capacidade de memória desses mesmos voluntários quando estavam na faixa entre 50 e 65 anos, de 2018 a 2023.
Um dos achados é que há uma diferença na forma como esses produtos impactam o cérebro: enquanto o cigarro está diretamente associado ao declínio mental na meia-idade, usar álcool e maconha de forma excessiva tem um efeito indireto. Ao aumentar o risco de consumo de substâncias por volta dos 30 anos, também elevam o risco de perda cognitiva no futuro.
Outra constatação é que mesmo indivíduos que pararam de usar essas drogas tiveram pior desempenho cognitivo na velhice comparado a quem nunca as usou. “Já se sabia que tanto o cigarro e o álcool quanto as drogas ilícitas, como a maconha, alteram o funcionamento das funções executivas e o quadro cognitivo”, diz o psiquiatra Gabriel Okuda, do Einstein Hospital Israelita.
Além do impacto agudo, também há alterações estruturais, neuroinflamatórias e na neuroplasticidade que acabam afetando o funcionamento cerebral no futuro. No caso do álcool, há evidências de que ele causa morte neuronal direta. “A longo prazo, sabe-se que o consumo está associado a alterações na substância branca e cinzenta, no hipocampo e no córtex pré-frontal, regiões associadas à memória e às funções cognitivas”, detalha Okuda.
O cigarro, por sua vez, tem grande impacto vascular. Além de estar associado à inflamação, ele altera a vascularização cerebral, comprometendo o fluxo sanguíneo e aumentando o risco de microinfartos. Já a maconha afeta regiões relacionadas a funções executivas como foco, atenção, memória, velocidade de processamento, resultando em piora cognitiva geral. Vale lembrar que a droga também é um dos principais gatilhos para quadros de esquizofrenia e outros transtornos mentais.
A faixa etária até os 25 anos é um período crítico para todos esses riscos, porque o cérebro ainda está em formação. “Por isso, quanto mais cedo se utiliza qualquer droga nesse período, e quanto maior for a quantidade, maior o risco de reduzir a neuroplasticidade e o neurodesenvolvimento, com impacto negativo ao longo da vida”, alerta o psiquiatra.
E lembre-se: não existe nível de uso seguro dessas substâncias. Mesmo que o estudo não tenha se aprofundado no impacto do consumo recreativo ou moderado, qualquer quantidade ou exposição é prejudicial.
Sinais de alerta
Alguns sinais apontam que é preciso buscar ajuda de psicólogo ou psiquiatra. Entre eles estão a piora no desempenho profissional ou escolar, quando a pessoa não consegue produzir ou entregar o que precisa. Também deve chamar atenção a dificuldade de manter uma relação saudável com familiares e amigos.
Outro alerta importante é o aumento no consumo, seja em volume ou quantidade, o que pode indicar tolerância, ou seja, a necessidade de usar mais para obter o mesmo efeito. Além disso, utilizar a substância como forma de aliviar estresse ou tristeza sugere que ela passou a funcionar como uma espécie de “companheira” do dia a dia, o que aumenta o risco de dependência.
Por fim, a presença de sintomas de abstinência — como tontura, tremores, sudorese, coração acelerado, palpitação, mal-estar geral, ansiedade, irritabilidade, piora do sono e nervosismo — também indica um quadro que merece atendimento especializado.