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Pedir comida por app está associado a maior sedentarismo, diz estudo

Pesquisa da UFMG mostra que 76,52% dos adultos avaliados usam apps de entrega; entre usuários, há mais tempo sentado, diante de telas e inatividade física.


postado em 22/09/2026 08:52 / atualizado em 22/09/2026 09:17

Permanecer sentado por oito horas ou mais por dia esteve associado ao dobro da prevalência de uso regular dos aplicativos(foto: Pexels)
Permanecer sentado por oito horas ou mais por dia esteve associado ao dobro da prevalência de uso regular dos aplicativos (foto: Pexels)
O uso de aplicativos de entrega de alimentos faz parte da rotina de mais de três quartos dos adultos avaliados em um estudo da Escola de Enfermagem da UFMG. Entre os 839 participantes, 76,52% relataram já ter utilizado essas plataformas, enquanto 27,10% disseram fazer pedidos regularmente, pelo menos uma vez por semana. A pesquisa também identificou entre os usuários dos apps maior comportamento sedentário, com mais tempo sentados e diante de telas, maior inatividade física e menos horas dedicadas a atividades domésticas.

O estudo foi realizado pela doutoranda do Programa de Pós-graduação em Nutrição e Saúde Paloma Aparecida Anastacio Barros, sob orientação das professoras Paula Martins Horta e Daniela Canella. Os resultados foram publicados na revista científica “Journal of Food Sciences and Nutrition”.

Entre os participantes, permanecer sentado por oito horas ou mais por dia esteve associado ao dobro da prevalência de uso regular dos aplicativos em comparação com aqueles que ficavam sentados por até três horas. A pesquisa teve como objetivo investigar as características dos usuários de plataformas digitais de alimentação e a associação do uso com fatores sociodemográficos, estado nutricional e estilo de vida.

Os dados utilizados fazem parte do projeto Coorte de Universidades Mineiras (CUME+), que analisa hábitos de vida e o padrão alimentar de adultos egressos de instituições de ensino superior de Minas Gerais e das universidades federais do Espírito Santo (UFES), Rio Grande do Sul (UFRGS) e Paraná (UFPR). Os participantes com oito anos de acompanhamento responderam a perguntas sobre a frequência de utilização dos aplicativos e os tipos de alimentos solicitados, além de fornecerem informações sociodemográficas, de estilo de vida e estado nutricional.

A frequência mais comum de pedidos foi de duas a três vezes por mês, relatada por 29,08% dos participantes. Outros 27,10% utilizavam os serviços pelo menos uma vez por semana. A maior parcela dos usuários tinha entre 30 e 39 anos (40,03%) e trabalhava em tempo integral (77,10%).

O tempo dedicado às telas e às atividades domésticas também foi analisado. Entre os usuários, 48,13% relataram gastar de uma a duas horas por dia com tarefas domésticas e 31,46%, menos de uma hora. O levantamento também identificou usuários que permaneciam oito horas ou mais diante de telas para trabalhar.

Segundo Paloma Barros, o rápido crescimento do setor tem gerado preocupações para a saúde pública. A pesquisadora explica que o uso frequente dos aplicativos associado a comportamentos sedentários pode contribuir para ganho de peso, alimentação impulsiva e maior prevalência de doenças crônicas. “Embora refeições nutricionalmente balanceadas estejam disponíveis nessas plataformas, os alimentos mais frequentemente oferecidos tendem a ser ricos em calorias, gordura, açúcar e sódio, como pizza, hambúrgueres, batatas fritas, doces e sobremesas e bebidas adoçadas com açúcar. Esses itens também são promovidos com mais intensidade por meio de estratégias de marketing persuasivas e descontos de preço”, afirmou.

Entre os usuários regulares, 51,7% afirmaram pedir refeições completas, como arroz, feijão, carne e massa, em pelo menos metade das vezes. Já lanches como hambúrgueres, pizzas e salgados eram solicitados nessa frequência por 39,7%.

As bebidas açucaradas apareciam em pelo menos metade dos pedidos de 12,7% dos participantes. Já as alcoólicas foram solicitadas por 17,2% quando consideradas as ocasiões em que apareciam em menos da metade dos pedidos. Frutas e saladas de frutas eram raramente solicitadas por 92% dos entrevistados. A baixa frequência de pedidos também foi observada para açaí e sorvetes (73%) e para saladas, vegetais e preparações à base de alimentos frescos ou minimamente processados (67,8%).

A ocupação profissional também apareceu entre os fatores analisados. Trabalhadores em tempo integral apresentaram maior uso dos aplicativos, enquanto desempregados e trabalhadores informais relataram menor utilização. De acordo com os pesquisadores, esses grupos podem ter mais tempo para preparar refeições em casa e considerar os serviços de entrega menos acessíveis diante de restrições financeiras. O uso das plataformas também esteve associado a características como idade mais jovem, renda mais alta, maior tempo sentado, inatividade física e exposição prolongada a telas.

Para os pesquisadores, os resultados apontam para a necessidade de considerar o varejo digital de alimentos nas discussões sobre ambientes alimentares e vigilância alimentar e nutricional. “Os usuários regulares utilizavam com frequência essas plataformas para a aquisição de refeições e lanches do tipo fast food, reforçando a importância de compreender como os ambientes alimentares contemporâneos estão sendo modificados pelo componente digital. Em um contexto no qual essas plataformas passam a mediar cada vez mais as escolhas alimentares, compreender quem utiliza esses serviços, com que frequência e quais alimentos são adquiridos pode contribuir para identificar novas dimensões do ambiente alimentar e seus possíveis impactos sobre a saúde”, destaca a doutoranda Paloma Barros.

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