Cientistas descobrem que macaco-prego usava 'ferramenta' há 700 anos

Sítio arqueológico no Piauí comprova a capacidade desse primata em usar pedras como ferramentas

por Encontro Digital 12/07/2016 15:04

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Tiago Falótico/Wikimedia/Reprodução
O macaco-prego, da espécie Sapajus libidinosus, já usava "ferramenta" natural para quebrar a castanha de caju, segundo pesquisa arqueológica feita no Piauí (foto: Tiago Falótico/Wikimedia/Reprodução)
Novos indícios indicam que, por volta de 700 anos atrás, macacos-prego já usavam ferramentas para quebrar castanhas de caju e extrair a parte comestível. Nessa época, as caravelas portuguesas nem haviam chegado à costa brasileira, trazendo os utensílios mais sofisticados, e os animais que viviam na serra da Capivara, no Piauí, já usavam "tecnologia" própria.

"É o primeiro relato de ferramentas de macacos-prego no registro arqueológico", diz o biólogo Tiago Falótico, pesquisador do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

Junto com o colega Eduardo Ottoni, Falótico há tempos estuda o comportamento de macacos-prego e especificamente o uso de ferramentas por esses primatas da espécie Sapajus libidinosus. Nos últimos três anos, os brasileiros contaram ainda com a parceria do arqueólogo Michael Haslam, da Universidade de Oxford, na Inglaterra.

O grupo de pesquisadores fez escavações em uma área no Parque Nacional da Serra da Capivara (PI) e descobriu que as mesmas configurações de ferramentas observadas hoje aparecem em camadas correspondentes a período que chegam ao século XIII, como mostra o artigo publicado no dia 11 de julho na revista científica Current Biology.

"Os macacos escolhem pedras maiores para bater nas castanhas e as deixam acumuladas junto aos cajueiros", conta Tiago Falótico. Segundo ele, as datações por carbono 14 são bem precisas e permitem o refinamento das datas. Camadas ainda mais antigas, que podem chegar a 3 mil anos atrás, ainda estão sendo analisadas.

As 69 ferramentas encontradas são muito semelhantes às usadas hoje: pedras achatadas servem como base e são pelo menos quatro vezes mais pesadas do que aquelas usadas como martelos – também pelo menos quatro vezes mais pesadas do que a média dos pedregulhos encontrados por perto. Análises químicas confirmaram que manchas escuras nas rochas indicam que foram usadas para quebrar castanhas de caju. A constância indica que a transmissão de conhecimento, hoje evidente entre macacos mais experientes e mais jovens, vem acontecendo há pelo menos uma centena de gerações.

Até agora, o uso pré-moderno de ferramentas por não humanos só tinha sido descoberto em chimpanzés na Costa do Marfim. No período pré-colombiano, os macacos da caatinga brasileira conviviam, até certo ponto, com pessoas que habitam a região há pelo menos 10 mil anos. Mas, não há indícios de atividade humana no sítio arqueológico primata. "Todos os fragmentos de carvão que analisamos têm origem em queimadas naturais", afirma o pesquisador da USP.

(com Agência Fapesp)

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