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Estado de Minas MEIO-AMBIENTE

Moradores da Serra da Moeda reclamam de falta de água que seria causada pela Coca-Cola

Fábrica de refrigerantes estaria esgotando os recursos hídricos da região de Brumadinho e Itabirito


postado em 11/12/2017 14:16 / atualizado em 11/12/2017 14:50

Durante debate realizado pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), na quinta, dia 7 de dezembro, e que contou com a presença do Ministério Público, do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) e das prefeituras de Brumadinho e Itabirito, representantes das comunidades de Suzana e Campinho, localizadas na Serra da Moeda, em Brumadinho, região metropolitana de Belo Horizonte, e de ONGs de defesa do meio-ambiente denunciaram aos deputados que a fábrica da Coca-Cola, instalada na região desde 2015, está secando as nascentes e prejudicando o abastecimento de água.

O presidente da Associação dos Moradores da comunidade de Suzana, Warley Pereira do Nascimento, lamentou que a região, que sempre foi privilegiada pela oferta de água, estaria sofrendo com a carência do recurso. Segundo ele, estudos geológicos feitos pela Coca-Cola não garantem que a fábrica não impacta os recursos hídricos. "A comunidade está sofrendo com a falta de água. As mais de mil famílias que vivem ali estão sendo abastecidas há um ano e meio por caminhões-pipa enviados pela própria Coca-Cola. Entendo que as outorgas e liberações feitas pela prefeitura de Itabirito foram equivocadas", comenta o morador.

Da mesma forma, o representante da Associação de Captação de Água da Serra da Moeda, Jorge Celes de Farias, afirmou que, desde a chegada da empresa, as nascentes estariam secando. Ele pediu que sejam tomadas medidas para a preservação do meio-ambiente local, já que a exploração da água pela empresa estaria prejudicando moradores e animais.

O vereador Gilson Reis (PCdoB), morador da região, acrescentou que a fábrica consumiria milhões de litros de água e estaria afetando diretamente as comunidades e a sustentabilidade do local. Para ele, as informações sobre a outorga para exploração da água pela Coca-Cola seriam truncadas e precisam ser melhor apuradas. "O fato é que a água vem acabando desde 2015", reclama o parlamentar.

Conforme o geólogo Ronald Fleisher, da ONG Abrace a Serra da Moeda, uma pesquisa técnica feita por ele apontaria como está sendo feita a exploração pela Coca-Cola das nascentes de Suzana e Campinho. Após dois meses de operação da empresa, já teria sido detectado o rebaixamento do volume das nascentes. Isso porque, de acordo com o geólogo, o consumo médio de água utilizado para a produção representa o equivalente a 120% do que a população de Brumadinho faz uso por mês.

"A outorga concede o uso de três poços e a Coca-Cola se eximiu de avaliar os impactos ambientais desse uso, assim como monitorar e quantificar o impacto da exploração do aquífero com uma vazão tão grande", diz Ronald Fleisher.

O geólogo afirma que as entidades da região denunciaram o fato ao Ministério Público Estadual e estão cobrando o cumprimento das condicionantes ambientais. Ele disse ainda que, neste ano, a Coca-Cola teria apresentado um relatório preliminar, segundo o qual o rebaixamento das nascentes seria causado pela falta de chuva, e a exploração dos poços não afetaria o volume de água e que haveria uma grande disponibilidade hídrica para o atendimento à fábrica.

"Questionamos esse relatório, uma vez que o reflexo da escassez de chuva não seca as nascentes em curto prazo e que as reservas de água foram superestimadas", critica Fleisher.

Fiscalização

A advogada da prefeitura de Brumadinho, Beatriz Vignolo, reforçou que não foi feito estudo de impacto ambiental para a instalação da fábrica de refrigerantes, o que mostra uma flagrante irregularidade na concessão da outorga. Para ela, os órgãos estaduais de fiscalização estariam sendo omissos. Ela alertou, também, que a Serra da Moeda é divisora de águas e de municípios e que o aquífero impactado serve de recarga para as nascentes responsáveis por parte do abastecimento de toda a região metropolitana de Belo Horizonte.

Em resposta aos questionamentos dos moradores, o assessor jurídico do Serviço Autônomo de Saneamento Básico de Itabirito, Eduardo Albuquerque, responsável pela outorga para o uso da água pela Coca-Cola, garantiu que a concessão atende todo o abastecimento público do município e não apenas da fábrica. Segundo ele, o volume hídrico autorizado para exploração contempla todos os moradores e existem estudos científicos e técnicos que comprovam a sustentabilidade hídrica. "O trabalho não é feito para rebaixar o lençol freático e o empreendimento seguiu todas as normas técnicas necessárias", diz Eduardo.

O representante da empresa de saneamento de Itabirito disse, ainda, que não há evidência técnica que comprove que a Coca-Cola foi responsável pela redução o volume das nascentes e que o órgão possui os estudos que foram solicitados pelas entidades de fiscalização.

Monitoramento

A analista ambiental do Instituto Mineiro de Gestão das Águas, Maricene Paixão, lembrou que o Igam foi convocado quando da emissão da outorga pela prefeitura de Itabirito para uso o da água pela Coca-Cola. A partir disso, segundo ela, o órgão vem acompanhando o processo. Ela reconheceu que não foi feito um estudo de disponibilidade subterrânea neste caso e que o monitoramento do estado seria precário.

"É preciso ser implantado um sistema de fiscalização mais eficiente, mas estamos produzindo estudos. Se eles comprovarem que a fábrica está afetando as nascentes, medidas legais serão tomadas. O resultado deste trabalho sairá em breve", diz Maricene.

(com portal da ALMG)

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